“Ficar” lésbica.
Uma leitora do site, a Bernadete, esteve recentemente numa cidade do interior do Estado de São Paulo onde a moda é “ficar lésbica”, não sei se permanentemente ou “de passagem”, exatamente o sentido do verbo “ficar”, pelo menos na sua acepção pós-moderna (ver “Ficar ou não Ficar”, de Tom Wolfe, disponível na Biblioteca Harold Chimp). O meu interesse aqui não é a preferência sexual de ninguém, mas sim a palavra ficar. Quanto à palavra lésbica, ela provem da ilha de Lesbos, na Grécia, fecunda em poetas, sendo Safo a mais conhecida, com fragmentos de poemas que sobreviveram até os nossos dias (tive o prazer de ouvir o grande Antonio Medina declamar em grego um dos fragmentos de poesias de Safo). Pelos poemas do assim chamado lirismo erótico de Safo, e dirigidos a outras mulheres, a ilha ficou conhecida de todos nós, dando-nos a palavra lésbica, enquanto que o nome da poetisa originou a palavra sáfica, também relativa ao amor entre mulheres.
Será que a ilha de Lesbos encarnou nesta cidadezinha do interior? Penso que, quanto a este aspecto, já temos uma cidade antecessora à cidadezinha do interior paulista, já que São Francisco, na Califórnia, passou a ser conhecida como a cidade gay. Resta apenas saber se, quanto a nossa cidadezinha de interior, é um “ficar” lésbica ou assumir definitivamente lá, nesta cidade, a sua opção sexual. Se for um “ficar”, ou seja, se for temporário, penso que fica claro o caráter de fazer andar a fila das experiências, e, nesse sentido, o livro de Tom Wolfe é muito bacana, já que ele faz uma análise das relações passageiras e modismos da pós-modernidade, da qual é especialista.
Roberto Procopio