jan 22 2009

Crash

Há pessoas que têm mais familiaridade com filmes, se ligam na e acompanham mais a sétima Arte, o cinema, o que não é o meu caso, embora veja aqui e acolá algum filme, principalmente se tiver a ver com o assunto pós-modernidade. Tenho desenvolvido desde quando era jovem o hábito de leitura, mas não o hábito de seguir e acompanhar cinema de modo metódico. O Ivan comentou comigo outro dia que havia visto a nova versão do filme Crash e resolvi comprar o livro homônimo e que deu origem ao filme.

O livro, escrito em 1973 pelo britânico J.G.Ballard, que fez um novo prefácio em 1993, faz parte daquele gênero que é denominado de Literatura do Caos, barra pesadíssima em termos de conteúdo, pornográfico ao extremo, um soco no estômago, uma experiência nauseante sobre, na visão do autor, as únicas duas coisas que teriam restado no mundo pós-moderno: sexo e carros, o que dá ensejo e oportunidade para as mais desvairadas e loucas experiências e fantasias sexuais dos protagonistas, que misturam metal retorcido de batidas de carros, planejadas ou não, com sexo de todas as formas, numa celebração ao que restou na idade pós-moderna via planejamento de assassinatos e suicídios totalmente performáticos, cinematográficos, com muito sangue, fezes, esperma, líquidos seminais, vômitos, drogas e tudo o mais a que a literatura do caos se acha no direito de tratar e trata sem pedir licença a ninguém. Para agregar ultraje ao conteúdo, o protagonista Vaughan encena e prepara uma batida de carros espetacular no carro que conduzia a atriz Elizabeth Taylor, por quem Vaughan era fissurado. No quesito enjôo de estomago, acho que Ballard não perde para ninguém, não querendo isso significar, é claro, que o autor não tenha méritos, pois as descrições dele são sempre extremamente criativas e têm aquele caráter de mistério e encanto ao juntar pores-do- sol iluminados pelas luzes da tecnologia e que parecem assumir o lugar da luz natural. Aeroportos, viadutos e estacionamentos são os cenários mais presentes no drama.

Embora leitura necessária, é, ao mesmo tempo, totalmente desaconselhável aos menores de qualquer idade, pois o livro consegue ser mais hardcore do que qualquer biografia de metaleiro do rock. De qualquer forma, há uma mensagem por debaixo do muco e das ferragens e penso que ela é a da tara sexual de um pirado como único valor que restou no mundo dele e de alguns outros mais que, ficamos sabendo no decorrer no livro, começavam a constituir legião, um Clube da Luta da violência e sexo entre metal e carne.

Roberto Procopio