Declínio e queda
Por mais que seja tentado a fazer uma associação entre a ausência de valores, como marca principal da sociedade ocidental moderna, e uma sua possível queda, penso que este tipo de ligação é um pouco forçado. Explico-me.
Não podemos esquecer que muitas sociedades ascendentes, ou em seu apogeu, praticaram atos que hoje certamente seriam entendidos como de dissolução dos costumes, mas que de forma alguma representaram um enfraquecimento destas sociedades. Assim, em Esparta e na Fenícia se sacrificavam os recém nascidos deficientes, assim como em Roma, o pai, exercendo o seu pátrio poder, poderia rejeitar, abandonando ou vendendo, um filho seu recém nascido. Na Inglaterra ascendente do século XIX, a escravidão demorou a ser abolida, o mesmo ocorrendo nos Estados Unidos em formação, sendo a discriminação racial a tônica do período posterior à Segunda Guerra Mundial, com o caráter de lei em alguns estados americanos. Quanto à pena de morte, ainda é presente em boa parte dos Estados civilizados. Parece-me que sempre julgamos as épocas passadas com os olhos de hoje, o que torna difícil qualquer associação entre de declínio de valores e apogeu de uma sociedade. Temos a mesma dificuldade em admitir comportamentos animais que nos parecem estranhos ou inaceitáveis, mas que obedecem regras de funcionamento e organização da Natureza.
Penso que podemos, contudo, apontar para o surgimento já há uns dez anos, em todas as civilizações mundiais que se moldaram atrás de valores da democracia liberal, mesmo que adaptados às suas conveniências políticas, de um sentimento de desconfiança de que o Ocidente, formulador no século XIX dos princípios desta sociedade liberal, já não pode apontar o caminho para ninguém, já que perdeu todos os valores com os quais apontava ao resto do mundo, um caminho de progresso contínuo e bem-estar a todos e que, comungados aos seus valores mais íntimos, mostrariam o caminho “da procura pela felicidade”, na bela expressão de Thomas Jefferson, incorporada ao mito da criação dos Estados Unidos.
Roberto Procopio