jun 28 2009

Lanterna na Popa

Tenho lido alguns livros sobre a mais recente crise financeira mundial; fico impressionado não pela incapacidade de especialistas como Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia de 2008, Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve Americano, e Fareed Zakaria, âncora da CNN e articulista da Newsweek, fazerem previsões sobre o futuro, alguma coisa que nunca é fácil, mas sim pela dificuldade de explicarem o que ocorreu no passado próximo, tendo em vista o nível de detalhe em que entram e a complexidade das fórmulas explicativas, que parecem um milheiro de exceções em meio a uma dezena de regras.

Lembro-me do livro autobiográfico da autoria do economista Roberto Campos, o famigerado Bob Fields queridinho dos governos militares, e que se intitula “Lanterna na Popa”. A frase é de Samuel Coleridge e significa a dificuldade que todos temos em tentar explicar fatos recém ocorridos, explicação que só conseguimos dar de forma bastante frágil e insegura, quando os fatos já passaram por nós, surpreendendo-nos; é como se estivéssemos em um pequeno barco em mar aberto, onde, segurando tremulamente uma lanterna na popa, vislumbramos de modo incerto e tentativo o que atingiu o barco. 

Roberto Procópio 


jun 28 2009

Expressões, gestos e emoção.

Há muito tempo um amigo de trabalho fez uma brincadeira comigo, que só muitos anos depois vim a descobrir e decifrar sobre o que ele estava falando.  Dizia que havia determinado estágio na involução humana - isto mesmo involução e não evolução – em que determinados indivíduos tinham uma postura corporal que os fazia passar o braço esquerdo por sobre a cabeça, repousando a mão esquerda sobre o lado direito da cabeça. Dizia ele que isto era o que havia de mais primitivo na postura humana.

Fiquei com aquele comentário dele registrado em mim por um bom tempo e só vim descobrir e decifrar o enigma depois de uns cinco anos: percebi que o Bardus, esse é o seu nome, referia-se a mim, pois quando estou pensando e extremamente concentrado tenho por hábito passar o braço esquerdo para o lado direito, por cima da cabeça, etc. Quando li recentemente o livro de Darwin que trata do assunto e se intitula “A expressão das emoções no Homem e nos animais”, percebi que este tipo de gesto meu é bastante comum em chimpanzés e bonobos, dentre muitos outros gestos e posturas assemelhados que temos com vários tipos de animais, o que tem levado a uma expansão do conceito de humano, não mais atinente apenas a nós, mas a todos aqueles que conseguem se importar com o outro.

Afinal, o que mais humano e emotivo do que o olhar de um cachorro de estimação, ou o canto de um pássaro quando voltamos para casa, ou a encostada que nosso gato nos dá, com a lateral de seu corpo, demonstrando, diz Darwin, que está desarmado se oferecendo em carinho para nós?  

Roberto Procopio


jun 28 2009

Expressões, gestos e emoção.

Há muito tempo um amigo de trabalho fez uma brincadeira comigo, que só muitos anos depois vim a descobrir e decifrar sobre o que ele estava falando.  Dizia que havia determinado estágio na involução humana - isto mesmo involução e não evolução – em que determinados indivíduos tinham uma postura corporal que os fazia passar o braço esquerdo por sobre a cabeça, repousando a mão esquerda sobre o lado direito da cabeça. Dizia ele que isto era o que havia de mais primitivo na postura humana.

Fiquei com aquele comentário dele registrado em mim por um bom tempo e só vim descobrir e decifrar o enigma depois de uns cinco anos: percebi que o Bardus, esse é o seu nome, referia-se a mim, pois quando estou pensando e extremamente concentrado tenho por hábito passar o braço esquerdo para o lado direito, por cima da cabeça, etc. Quando li recentemente o livro de Darwin que trata do assunto e se intitula “A expressão das emoções no Homem e nos animais”, percebi que este tipo de gesto meu é bastante comum em chimpanzés e bonobos, dentre muitos outros gestos e posturas assemelhados que temos com vários tipos de animais, o que tem levado a uma expansão do conceito de humano, não mais atinente apenas a nós, mas a todos aqueles que conseguem se importar com o outro.

Afinal, o que mais humano e emotivo do que o olhar de um cachorro de estimação, ou o canto de um pássaro quando voltamos para casa, ou a encostada que nosso gato nos dá, com a lateral de seu corpo, demonstrando, diz Darwin, que está desarmado se oferecendo em carinho para nós?  

Roberto Procopio


jun 28 2009

“Odeio Televisão!”

É esta a frase pichada que leio quase todos os dias numa grande avenida de São Paulo e que me levou a refletir bastante sobre ela. Em primeiro lugar, embora não seja um grande espectador de TV – devo assistir uma média de uma hora diária de televisão – penso que há muita coisa boa na televisão brasileira que devemos sim acompanhar, não vendo a mesma apenas como um órgão massificador e estupidificante de pessoas, o que, em boa parte, ela é. Não consigo assistir o Faustão, por exemplo, sem ter a impressão de que há um idiota sentado à frente do aparelho. 

Penso que a frase tem uma face oculta, já que quem odeia está, em função deste ódio, preservando uma relação de proximidade com a TV. Não se pode odiar o que não está próximo, não é mesmo? Ou seja, parodiando César Becaria, a função da proximidade é manter o ódio, demonstrando que, pela proximidade, há uma atração pelo objeto odiado. Se me afasto, deixo de odiar. Se odeio, é por que estou e me conservo sempre próximo ao objeto amad….ooops  odiado.

Roberto Procopio


jun 28 2009

Gaia

A Raquel comentou que o filho dela de 4 anos aprende na escola a respeitar o planeta a partir da associação entre o consumo excessivo de água e um planeta que chora. Achei esta história super bacana e que mostra que nem tudo está perdido! Em primeiro lugar, pelo próprio fato em si, mostrando que ainda temos muito a aprender com os mais jovens. Em segundo lugar, por representar uma volta à idéia de uma unicidade em tudo que fazemos, mostrando que somos partícipes em tudo , ou quase tudo, que ocorre no planeta em termos de ecologia. Em terceiro lugar, achei o tipo de abordagem de uma sensibilidade enorme, pois parece-me que as crianças, ao contrário da maior parte de nós, adultos, preserva uma sensação de uma pertença a alguma coisa maior, que é a idéia da Terra (Gaia para os gregos antigos), como Mãe Natureza, idéia tão forte que se preserva nos rituais camponeses que ainda experimentamos no nosso dia-a-dia (festas juninas, o próprio carnaval, procissões tipo círio de Belém, bem como, ensina-nos Wysnick no livro Veneno Remédio, o próprio futebol, com origem em rituais franceses bem antigos).

Ou seja, se a associação desperdício de água com lágrimas da Mãe Natureza não nos faz mais sentido como adultos, parece-me que perdemos algo de precioso que as crianças ainda compreendem e que, bem sutilmente como tudo que fazem, nos ensinam. Afinal, o homem adulto não é o filho da criança?

Roberto Procopio 


jun 28 2009

Zygmunt Bauman

Comecei a ler os livros de Zygmunt Bauman apenas há um ano e ele já é um dos autores que mais li em toda a minha vida. Como sou compulsivo com o que faço, guardadas as devidas proporções, seguindo um pouco o exemplo de John Maynard Keynes, que fazia o mesmo, anoto tudo o que leio, ou seja, listo os nomes dos livros e autores que li desde 1998. O pirado do Paulo Coelho, diz-nos o seu biógrafo Fernando Morais, fazia o mesmo. Do Bauman li 10 livros, e penso que só perde, no quesito autores que li, para o Freud e o Marx, de quem li um pouco mais, embora não seja seguidor de nenhum deles.

O que admiro no Bauman é a sua capacidade para, como Leonardo da Vinci, de uma única observação, fazer um tratado ou um discurso sobre o objeto vislumbrado, real no caso do grande artista plástico florentino, social e das relações humanas no caso do sociólogo, como Joseph Conrad, polonês e inglês. Esta capacidade de Bauman é equivalente na Sociologia, e ele é muito mais do que sociólogo, como se isso não bastasse, ao poder de observação de um Charles Darwin na Biologia e de um Isaac Newton na Física Mecânica. No caso de Einstein, o gênio alemão (suíço , americano, apátrida), ele tinha as suas idéias a partir de processos intuitivos mentais, raramente valendo-se de ferramental científico que o induzisse a elas.

Admiro ainda em Bauman algumas coisas: ele parece que adquiriu aquilo que já era hábito no Albert Einstein menino, o de falar apenas coisas que ele tivesse mentalmente repassado, ou sussurrado para si mesmo, ao menos três vezes. Nada em Bauman parece excessivo e tudo vem na hora certa, qualidade que também vi no pouco que li de Joseph Ratzinger. Ainda sobre o pensador polaco, admiro nele sua capacidade de valorizar a obra e o pensamento de outros filósofos, especialmente os contemporâneos. Ler Bauman é ler Levinas, Rorty, Baudrillard, Beck, etc. citados inúmeras vezes e dos quais Bauman extrai e amplia para uma série de conclusões juvenis, ou seja, conclusões como se fosse um jovem que estivesse vivendo o que fala, quando já está bem adentrado nos 80 anos de sua vida, 83 para ser mais preciso.

Para finalizar, embora em alguns de seu livros sobre a Pós-Modernidade possamos entendê-lo como sendo de uma objetividade cruel, em alguns deles, a partir de Emmanuel Levinas, ele trata bastante e bem da questão da moralidade humana, da preocupação com o Outro, que é quando se resolvem (pela ansiedade perene) os dilemas da vida humana.

Roberto Procopio          


jun 28 2009

Spinoza

Li seu principal livro há alguns anos e impressionei-me principalmente com o exemplo de vida do sábio holandês de origem espanhola. Seu pai Baruch Spinoza emigrou da Espanha para a Holanda, para assim escapar aos excessos da Inquisição na península Ibérica, mas o filho desenvolveu desde cedo um espírito altivo e independente, não se apegando a nenhuma fé religiosa específica, desenvolvendo um conceito próprio de divindade, uma divindade impessoal, pensamento anátema para os judeus, que o excomungaram da fé hebraica.

A excomunhão no judaísmo é bem mais barra-pesada do que no catolicismo, uma cerimônia de grande humilhação ao anatemizado, à qual Spinoza respondeu com um ascetismo pessoal à toda prova, colocando-se acima de qualquer julgamento e ação, dedicando-se ao seu ofício de especialista em lentes ópticas.

O ascetismo pessoal de Spinoza, e a sua crença numa força superior não pessoal, sensibilizaram muitos ocidentais, principalmente entre os cientistas, e o credo de Spinoza foi adotado por eminentes cientistas da física e da matemática do século XX como Albert Einstein, Bertrand Russell e Robert Oppenheimer.

Para mim, de Spinoza fica a impressão de uma pessoal sem amargura e que encontrou a paz interior, vivendo uma vida simples e sem apego a bens materiais.

Roberto Procopio   


jun 28 2009

Mesa redonda

No mais célebre romance espanhol, Dom Quixote de La Mancha, aparece um problema até então inusitado: Dom Quixote e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, contrariamente às mesas alongadas da hierarquia medieval e que prescreviam um lugar para cada qual, sempre conforme a nobreza de seu título, defrontam-se com uma mesa redonda e não sabem como resolver o dilema da acomodação da hierarquia cavaleiro/escudeiro, anteriormente, nos romances medievais, de fácil solução.

Após pensar cofiando a sua célebre barbicha, Dom Quixote tem a grande idéia e diz: Sancho não te preocupe, de agora em diante, sempre que encontrarmos este tipo de mesa, onde eu sentar sempre será a tua cabeceira!  O episódio, como tudo que acontece no romance de Miguel de Cervantes, guarda um pouco de tragédia e destino por detrás do aspecto hilário, já que desvela o grau e importância dos sistemas nobiliárquicos na península ibérica e que até hoje resiste nos países latinos, além de na própria península, em sistemas de sutil diferenciação econômica e social, como se, escamoteados sob uma pseudo mesa redonda, se alongam em cabeceiras de poder inacessíveis aos Sancho Panças latinos.

Roberto Procopio   


jun 10 2009

O baixo clero tinha razão!

A ópera Carmina Burana é a combinação da música de Carl Orff com os textos escolhidos pelo maestro austríaco e que foram escritos por clérigos beneditinos dos séculos XIII adiante, sendo de autoria em parte conhecida, em parte desconhecida. O baixo clero era constituído por candidatos às funções sacerdotais mais elevadas e que tinham menos obrigações litúrgicas, vivendo em uma zona intermediária de onde poderiam ascender, permanecer ou serem ejetados de volta à vida secular ou civil. Os textos são profanos, ou seja, tratam de assuntos que não poderiam ser discutidos, o amor, a paixão, as emoções, a beleza de um colo de uma donzela, etc., e são inauguradores do movimento romântico posterior à Idade Média.

Todavia, o tema mais polêmico não era o vislumbre de um decote mais ousado e sim a incerteza de uma vida comandada pela roda da Fortuna, desconectada de uma lógica ou causação divina, conforme mandava o ordenamento católico.

Li recentemente o livro de Paul Krugman sobre a recente crise financeira mundial, no qual o Prêmio Nobel de Economia de 2008 lambasta o ex-presidente do FED americano, Alan Greenspan, pela crise que assola o mundo, ocorrida três anos após a saída de Greenspan do FED, e que, segundo Krugman, deveu-se à não intervenção do ex Guardião das Finanças Mundiais para conter as bolhas dos mercados imobiliários e de ações que já se formavam há muito tempo, e que eram do conhecimento de todos os especialistas.

Não sei quem tem razão na história, mas uma coisa concluo com o baixo clero beneditino que escreveu as Canções da Casa Pequena : a glória é efêmera e, se há alguns anos Greenspan era tido como o mago das Finanças mundiais, hoje já há quem , como Krugman, o compare a um sortudo que nada fez para merecer o prestígio e a fama que granjeou como presidente do Banco Central americano.

Roberto Procopio  


jun 7 2009

O caminho do Inferno…

Está pavimentado de boas intenções, diz o provérbio. Isso parece especialmente correto no caso das, assim chamadas, drogas de substituição, medicamentos criados pela indústria farmacêutica mundial e que se destinam, em princípio, a desintoxicar os dependentes químicos, propiciando um tipo de passe-fácil para a saída da dependência. Países como a Austrália, diz uma especialista, já têm mais de25% da população de jovens como consumidores contumazes de drogas legais e ilegais. Mas parece que, ao lado do pé de anjo, tem um casco fendido e cheiro de enxofre, já que praticamente todas as drogas de saída foram eventualmente incorporadas como drogas de consumo freqüente pelos viciados em entorpecentes, que as assimilam e misturam em coquetéis com outras drogas e álcool, potencializando efeitos inesperados e desconhecidos.

Assim, um das grandes crises existenciais das autoridades mundiais no combate às drogas é o ter de conviver com o mal menor, ou seja, relevar uma e outra droga de relativamente baixo poder de intoxicação, temendo que outra mais pesada e forte se incorpore ao hábito de grandes contingentes de usuários. Isso do lado da União Européia, que adota uma política de convivência com a drogam, que á a de tentar evitar um mal maior, estratégia que não tem nada a ver com a americana, que é a de pura e simplesmente eliminar as fontes de tráfico.

Estudos atuais apontam para o crescente consumo de álcool entre jovens do sexo feminino no Brasil e uma taxa potencial de erradicação (nunca definitiva) do fumo de apenas 30%. Drogas como o ecstasy promovem a rápida depleção dos poderosos estimulantes cerebrais como a serotonina, por exemplo, e o consumo continuado desta substancia, simplesmente exaure as minas de serotonina, deixando os consumidores arreados cerebralmente e em busca desesperada por mais prazer serotônico (sic!).

Como dizia Dante na Divina Comédia, no capítulo do Inferno: “quem aqui entrar, abandone toda a esperança”, motto que pode bem ser adotado por usuários, principalmente os que entram por diversão e que, ao final, acabam encontrando o que jamais esperavam, a depressão e o vazio.

Roberto Procopio