abr 30 2009

Tecnologia Ajuda?

Na maior parte das vezes, sim, mas lembro-me aqui de uma vez em que eu quis assinar uma destes pacotes de TV a cabo, mais ou menos há uns 2 anos. Eu trabalhava em Alphaville e morava (como ainda moro) em São Paulo, capital, o que me obrigava a usar um telefone de Alphaville para fechar uma instalação em São Paulo.

Primeira tentativa: voz robótica do outro lado: “prezado cliente (sic!), identificamos que a área de onde o senhor está ligando não é atendida pelos nossos serviços. Obrigado”.

Não acreditei e fui para a segunda tentativa, imaginando que, ao menos, teria uma área de escape, alguma opção no menu para que eu pudesse explicar a algum ser humano do outro lado que, embora eu estivesse ligando de Alphaville , a instalação seria na capital. Novamente, a mesma decepção.

Ou seja, para a pergunta acima, a resposta é: ajuda sim, sempre que não quisermos não vender, colocando uma blindagem tecnológica frente a empresa e um “simples” cliente.

Roberto Procopio

  


abr 29 2009

O salto no escuro

Passados cerca de cinco mil anos desde que as primeiras civilizações estabeleceram-se em vários pontos do globo, o ser humano continua não conseguindo responder as perguntas mais básicas. Penso que isto faz parte do plano original, do design do Criador, seja Ele pessoal ou impessoal, e mesmo que entendamos este design ou plano de uma forma caótica, incompreensível.

Sempre que procuramos encontrar um sentido, uma teleologia nas manifestações terrestres, nos deparamos com uma interrogação: por que isto ocorre? como isto ocorre? etc. Nem a Filosofia, destinada a encontrar um objeto que , por definição, escapa ao caçador, nem a Ciência, voltada à busca de um objeto único acima de quaisquer sujeitos e interpretações, conseguiram desinquietar o ser humano, o mesmo ocorrendo com as Ciências Sociais, que teve seus esforços malogrados sempre que procurou um Homem racional e cem por cento explicável e previsível. Quanto à Religião, ela perde pontos sempre que se afasta do conceito de altar e de porta para realidades necessariamente incompreensíveis, e que têm sua riqueza e justificação justamente neste formato de lidar com um objeto inalcançável, assim valorizando os aspectos litúrgicos religiosos.

Assim, a Religião e a Filosofia têm uma certa semelhança, já que as duas, por definição, têm objetos inalcançáveis, embora o salto no escuro da primeira seja mais longo do que o da segunda.

Roberto Procopio            


abr 28 2009

A resposta definitiva!

Nestes últimos dez anos, a partir de algumas inquietações ligadas à minha saúde que declinava – mas que agora só se apruma - procurei a resposta definitiva para as minhas inquietações existenciais.  Consultei os livros religiosos ocidentais e orientais e meso americanos, os sábios da Mesopotâmia e da Grécia Antiga, os retóricos e estóicos romanos, os neo-platônicos do Império do Ocidente que declinava, bem como seu cronista maior, Edward Gibbon, do império do Oriente que surgia, li filósofos religiosos como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, que tratam da doutrina revelada, reli os céticos como Maquiavel e Hobbes, os iluministas que iniciavam a jornada da Razão que se iniciava, bem como os que se encontravam entre dois mundos sem saber em qual se atirar, misturando misticismo e intelecto, enveredei pelos conformados e inconformados dos séculos XIX e XX, bem como li com cautela os que anunciavam novos tempos para sociedade moderna a partir dos descobrimentos geográficos e científicos, para a biologia e a genética em formação. Dei uma passadinha bem de leve na física clássica de Copérnico, Galileu e Newton e na da relatividade de Einstein e na quântica de Niels Bohr. Li inúmeros livros de divulgação científica (não especializados) sobre tudo que viesse à frente e, afinal, tudo que me aparecia à frente. Só achei que tinha que ser um pouco mais seletivo quando comprei a biografia do José Genuíno e um livro sobre as histórias das formigas na Inglaterra, embora o último seja muito mais interessante que o anterior.

História Geral e do Brasil, Filosofia, Literatura, Sociologia, Economia, Psicologia e Psicanálise, Biologia, Religião, Administração, Teoria do conhecimento, Línguas, Genética, Física e Química, penso que ficou muito pouco de fora, o que deu alguma coisa como a leitura de 700 livros de mais de 450 autores diferentes nos dez últimos anos. È claro, ainda falta muito e poderia dizer que ainda falta tudo (ou nada).

Assim, depois de tanto esforço e dedicação – sempre prazerosos - já consigo responder às perguntas inquietantes da existência humana que me afligiam no inicio da empreitada! Digo alto e em bom tom a todos que queiram ouvir a verdade do conhecimento adquirido:

“EU NÃO SEI!”

Não consegui encontrar o elo perdido entre Ciência e Religião, entre História e Mito, entre Determinismo e Acaso, entre Psicologia e Psicanálise, entre Etologia e Comportamento Humano, entre os Bonobos, os Chimpanzés e nós, seres humanos, entre Verdade e Certeza, entre Veneno e Remédio, entre Natureza e Ambiente, entre Beleza e Feiura, entre vida e morte, entre Revelação e Sabedoria, entre Oriente e Ocidente, entre o Quarto e o quinto império de Vieira, entre os vários infinitos, entre Doença e Sanidade, apenas para mencionar algumas das minhas não conclusões. Mas, afinal, não é melhor assim, do que precisar levantar o véu da Ilusão e não conseguir entendê-lo?

Roberto Procopio


abr 27 2009

A gripe suína

Não dá para dizer que a gripe suína é um fenômeno do mundo globalizado, mas podemos  associar a sua velocidade de propagação a um mundo rápido como o de hoje, onde as inteirações econômicas e culturais entre países distantes são muito maiores do que há, digamos, duas ou três décadas.

A vacina apropriada para combater a nova “influenza” deve demorar alguma coisa como seis meses até ficar pronta e testada, o que mostra que as dificuldades propiciadas e originadas pelo mundo tecnológico em que vivemos são imprevisíveis e de caráter chocante, ou seja, a qualquer hora, alguma novidade surpreendente e chocante pode abalar o globo, seja no aspecto econômico, como a recente e atual crise financeira, seja no aspecto social e cultural, como mostram os atentados terroristas nos centros financeiros do mundo (Nova Iorque e Londres), seja no aspecto – como vemos agora – de uma epidemia local que pode virar pandemia, ou seja, adquirir o caráter de uma dispersão generalizada e grave de uma doença.

Como manifestação simbólica surpreendente, vemos a gripe originada de um animal anátema para várias religiões e símbolo de sujeira, lembrando-nos da fragilidade da condição humana, com a potencialidade de atingir rapidamente todo as capitais do mundo civilizado globalizado.  

Roberto Procópio    


abr 23 2009

A Fonte de Adriano

Na expedição com duração de cinco anos do navio britânico Beagle pela America do Sul, África, Oceania e Caribe, uma das mais importantes tarefas, além de mapear todos os portos, baías, reentrâncias das costas visitadas, a fim de garantir a supremacia militar e comercial britânica, que até então se apoiava, em boa parte, em pouco confiáveis e imprecisos mapas espanhóis, franceses e portugueses, foi a de devolver ao território sul-americana, atual costa Argentina, três indígenas locais e que haviam passado os sete últimos anos na corte Inglesa.

A idéia era a de infundir nos três (na realidade quatro, já que um deles morreu em território inglês) os valores da elevada civilização inglesa, que conhecia então o ápice de seu poderio bélico e comercial, que prevaleceu por todo o século XIX. Todos os três haviam recebido lições de etiqueta, haviam aprendido o idioma, que falavam de forma perfeita, adotando os hábitos refinados da nobreza e burguesia local, bem como nomes ingleses. A expectativa era grande: conseguiriam estes novos cidadãos ingleses passar aos seus os valores superiores da cultura européia? Não há dúvida, um espetacular e audacioso experimento de engenharia social.

Chegando à costa onde deveriam aportar, era assim grande a ansiedade, logo desfeita ao se ver que um dos três, ao ver as pessoas conhecidas que havia deixado, tirou todas as roupas que vestia e mergulhou no mar em direção à costa e aos seus. Todos os três abandonaram seus hábitos ingleses e se misturaram imediatamente à sua tribo, deixando os britânicos de queixo caído.

Não lembra um pouco esta estória do nosso craque de futebol, Adriano, o Imperador?        


abr 20 2009

Milton Friedman ou Keynes?

O Luiz Roberto comprou recentemente num sebo virtual o livro Capitalismo e Liberdade, o qual já analisamos aqui, mas que, em essência, apresenta a tese do papa do neo liberalismo de que o mercado é sempre soberano para fazer os seus ajustes à realidade das forças econômicas, de nada adiantando as intervenções governamentais, como, por exemplo, as que se seguiram após o crack da Bolsa de Nova Iorque em 1929.

As teses de Friedman são as preferidas dos republicanos americanos e dos ingleses thatcheristas, isto é, os seguidores da ex-primeira ministra Margaret Thatcher, a dama de ferro do período da desregulamentação da economia inglesa na década de 80, e são diametralmente opostas às do economista inglês John Maynard Keynes, e que propõe um estado razoavelmente intervencionista e com capacidade de estimular a economia através de gastos públicos e orçamentos ligeiramente desequilibrados e inflacionários.

Parece , ainda segundo o Luiz Roberto, que o livro de Friedman está ganhando momentum na bolsa virtual dos livros, o que deve deixar  o finado Friedman duplamente satisfeito, seja por ver funcionando as forças de oferta e demanda do mercado livre, seja por ver de novo seu nome de volta ao topo de vendas e preço.

Nesta queda de braço, fica apenas a curiosidade a ser satisfeita pelos dados do futuro: quem vencerá?

Roberto Procopio

 


abr 17 2009

As drosófilas

Embora admire muito o trabalho científico, nas mais diversas áreas do conhecimento, reservo-me o direito de ser bastante cético com relação ao comportamento extremado de alguns cientistas, que, em função de suas descobertas, Prometeus e Ícaros modernos, imaginam ter ascendido a alturas próprias aos deuses, esquecendo que o anjo decaído, Lúcifer, foi punido justamente em função do pecado da inveja, que é o que parece acometer alguns dos nada humildes cientistas modernos. Esse sentimento de plenipotenciários do conhecimento, é, não há dúvida, ainda um resquício de um fervor racionalista e que herdamos das Luzes da Idade Moderna, que ruiu nas hecatombes dos séculos XX e XXI.

Não há dúvida que foram marcados tentos importantes, por exemplo, com a descoberta da existência e estrutura helicoidal do DNA (humano e dos demais seres vivos), assim como o seu mapeamento no projeto Genoma e nos apressados projetos da iniciativa privada da Celera Genomics e que almejavam, estes últimos, patentear seqüenciamentos genéticos, dilema politicamente resolvido na administração de Bill Clinton. Questões éticas à parte, fiquei maravilhado em saber que a coisa não é tão simples assim, e que há ainda muito a se fazer para entender como funcionam os genes. Fiquei especialmente pasmo ao saber que existem genes ou códigos genéticos responsáveis pela construção do corpo, por exemplo, de uma drosófila, aquela mosca que ronda as frutas e que se tornou uma espécie da escolha para experiências de laboratório e que, se movidos para outros organismos, por exemplo para uma abelha, exercem a mesma função nesta última, ou seja, dá apoio à construção ou formação de uma abelha. Maravilhoso não?

Aos que tanto insistem que há uma programação genética por detrás disso tudo, como se isso respondesse a tudo, pergunto: se há uma programação, quem é o programador?

Roberto Procopio

    


abr 16 2009

A origem da Religião

Se atualmente nos definimos como tementes a Deus, agnósticos ou ateus, com praticamente nenhum resquício da existência ou prática disseminada de religiões animistas e politeístas entre os povos civilizados do Ocidente, nossos antepassados remotos, que faziam de cavernas suas casas, viviam a maior parte de suas frágeis vidas de, no máximo, 25 anos de idade no temor de manifestações naturais, as quais não conseguiam explicar ou entender, tais como relâmpagos, inundações, ruídos nas florestas, etc., sem, contudo, conseguir ainda idealizar uma relação com o divino ou sobre natural, que ainda não existia como conceito ou idéia em suas mentes. Se vivemos nosso período civilizado (de civitas, cidade em Latim) há não mais do que nove ou dez mil anos (as primeiras casas de barro foram construídas há 8.000 anos em Jericó), passamos o restante dos anteriores, aproximadamente, 140 mil anos de nossa existência como espécie homo sapiens sapiens (sic!) no assim chamado modo de vida social caçador coletor, que é o modo de vida no qual os portugueses encontraram nossos silvícolas quando descobriam o Brasil e que, praticando uma agricultura rudimentar, mas basicamente vivendo da caça e pesca, deslocando-se sempre que necessário, encontravam-se no estágio animista da religião, assim atribuindo alma (anima em Latim) às coisas em volta: se um arbusto mexe, é que há uma entidade viva dentro dele; se um rio flui, idem; se um raio cai, a mesma coisa. É interessante notar que vários idiomas nórdicos e germânicos dão ao deus supremo o nome de Thor, o mesmo nome do relâmpago, o que mostra a idéia de que o raio era um castigo divino pelas culpas terrestres, tudo isso já num estágio politeísta pagão e imediatamente posterior ao animismo mais primitivo.Boa parte deste estágio inicial animista, se é que assim podemos chamar, já que chamar de estágio pressupõe a idéia de um progresso na escalada humana quanto a este quesito, foi de um primitivismo ainda sem a consciência de um poder sobrenatural, seguido por um primitivismo animista e que atribuía vida (alma dando vida, e esta é a origem e o significado da palavra alma, como em Alma Mater, mãe nutridora.) às coisas. Não é preciso dizer que ainda neste estágio não havia o desenvolvimento da linguagem escrita, que era ainda apenas falada.

O Positivismo de Augusto Comte, um dos fundadores da Sociologia no século XIX, imbuído do espírito racional e da valorização da realidade sensível e palpável que animava todos os ramos da Ciência, e bem dentro da idéia de que um dia a Razão solaparia completamente a Religião nas mentes dos homens - e, é claro, ele não estava sozinho ao pensar assim - atribuía uma determinada evolução na percepção humana da realidade circundante, que, de religiosa e supersticiosa inicialmente, passaria a científica e não religiosa, sendo o Positivismo uma tentativa temporariamente bem sucedida, mas finalmente frustrada, de se impor como uma religião racional, com influências as mais difusas possíveis, hoje desaparecidas. Deixou, no entanto, em paralelo às idéias do alemão Karl Marx em seus estágios econômicos de desenvolvimento dialético ao qual corresponderiam sucessivos estágios da compreensão do mundo natural, finalmente precipitando, com o comunismo a redenção do Homem da Religião (“ópio do povo”, segundo Marx), também a idéia de se estar, com o uso da Razão, instaurando a sociedade humana ideal, uma chegada ao fim da História, já que tudo seria explicado e entendido, alguma coisa também recentemente aventada por Francis Fukuyama, que, nos calcanhares de Hegel, que já havia aludido à idéia, brincou (e se arrependeu posteriormente) com a idéia. O entendimento, ainda então bastante forte, de que haveria estágios sucessivos na percepção e ação humana com relação ao mundo natural e aos seus fenômenos, que, de religiosa, passou a científica, já que os fenômenos naturais que, originalmente, eram tidos como manifestações das coisas ao nosso redor, sejam do reino animal, vegetal ou mineral, passariam a ser paulatinamente explicados e incorporados ao conhecimento humano científico, que culminaria por explicar completamente o mundo natural, sofre, contudo um forte baque ao se apresentar, a partir de Freud, a força de uma instancia até então pouco conhecida e discutida, a força instintiva e irracional do Homem, seu Id, o que remetia ao lado animal do humano, que, não há como negar, faz parte, com os bonobos, chimpanzés, orangotangos e gorilas, da família dos primatas, tendo sua deriva de um tronco comum (com os chimpanzés e os bonobos) ocorrido há cinco milhões de anos, segundo os neodarwinistas.   

O desenvolvimento das Ciências Físicas, Químicas e Biológicas, a partir da Idade Moderna, que se deu em 1492 com o descobrimento da América, e que é bem representado na equiparação, por Renée Descartes, em seu Discurso sobre o Método, dos animais à máquinas, é nada mais do que a tentativa antiga do Homem de se apoderar da tocha do conhecimento científico, roubando à Religião seu espaço antigo e medieval de domínio sobre corpos e mentes.  Os esforços de Ícaro e de Prometeu bem mostram isso.  A descoberta no século XVII por Copérnico  de que a Terra não era o centro do Universo e, posteriormente, a revelação por Charles Darwin de que o Homem descendia dos macacos (primatas) jogou, definitivamente, uma pá de cal na possibilidade de qualquer entendimento entre os foros científico e religioso, tentativa que o paleontólogo francês Teilhard de Chardin intentou, sem sucesso, realizar na metade do século XX. A revelação no início do século XX , por Hubble, de um Universo que não se restringia à nossa Via Láctea, juntou humilhação à vergonha humana de se pretender único e centro do Universo, embora, hoje, a teologia do Vaticano se esforce, principalmente a partir dos escritos de Joseph Ratzinger, a demonstrar a humildade da criação ao nos colocar num canto sem importância do Universo.  A vingança religiosa veio como uma tapa com luva de pelica, quando o principal concorrente de Darwin na idéia da evolução natural, Alfred Russell Wallace, se tornou espiritualista (espírita) desconcertando o meio científico como um anjo caído do pedestal da ciência.   

Pode-se, contudo e, grosso modo, definir os estágios religiosos como animistas como tendo iniciado há 40 mil anos, que são próprios aos povos primitivos e que atribuem força e energia divina à natureza e seus seres e coisas, sem ainda conseguir extrair nada além, tentando apaziguar estas forças de um modo ainda bastante infantil e não ordenado, sem o assentamento ainda de uma cultura estabelecida. Os primeiros traços humanos pictóricos nas cavernas européias, mostrando animais como touros e cavalos, podem significar uma tentativa de domínio e inicio de uma religião humana e cultura, já que, a partir daí , animais passaram a ser usados como sacrifícios de sangue, principalmente os animais de tração e alimentação, como bois, cabras, ovelhas, etc. Para Freud, isso significa a expiação humana pela morte grupal do pai realizada pelos filhos e  que está no inconsciente de todos nós, alguma coisa bem retratada na crucificação de Cristo, o Cordeiro de Deus, que substituiu a todos os humanos num sacrifício ritual. Em seguida, e em função do que anteriormente dissemos, e isso é bastante explícito na noção panteísta grega e romana, os deuses que animam a vida na Terra adquirem nomes e poderes diferenciados, numa hierarquia terrestre e celeste, embora ainda a característica mais conspícua dessa situação seja a de uma forte interferência e interação entre o panteão de deuses pagãos (Zeus, Eros, Vulcano, Minerva, etc.) e os homens. Odes aos povos grego e romano, como a Odisséia e a Ilíada e a Eneida, assim como a própria ode de Camões ao povo luso, Os Lusíadas, mostram bem o nível de interferência e mesmo intromissão dos deuses pagãos gregos e romanos no dia-a-dia dos mortais, conferindo mesmo, a uns e outros semi-deuses, filhos de conjunção carnal entre deuses pagãos e humanos, por exemplo a Hércules, o dom da imortalidade. Se o estágio inicial da religião era animista, no seu estágio seguinte passou a ser politeísta, ainda confundindo muito manifestações naturais e deuses locais, como deuses do parto, deuses de determinados rios, ventos, etc., em paralelo aos deuses mais poderosos habitantes do céu. Este estágio coincide ou se forma com a fundação das primeiras cidades em vários pontos diferentes do planeta, mas tem origem, principalmente, em rituais camponeses, que até hoje se incorporam às tradições ocidentais (Carnaval, Festas Juninas, etc.) sendo para nós ocidentais, o Vale do Nilo e a Mesopotâmia os mais importantes, já que deram origem à tradição religiosa ocidental, que, se de matriz cultural grega, é judaico-cristã nos seu aspecto religioso, havendo, é claro, uma imbricação muito grande entre Grécia e Oriente, como suspeitavam Platão e Heródoto.   

Ao politeísmo pagão grego, romano e egípcio, adoração a vários deuses maiores e menores, longínquos e locais, também presente no Egito dos Faraós e em praticamente todas as religiões que haviam deixado o estágio animista de caçador coletor, tornando-se pagãs, bastando lembrar os esforços de Akhenaton para fazer de Rá o Deus único, alguma coisa que não escapou a percepção de Freud, sucedeu-se, com Abrão e Moisés, a consagração a um só Deus, Javé, registro primeiro de uma religião monoteísta, ou seja, que venera e aceita um só Deus, finalmente adotada no século IV DC como religião oficial do império romano do Ocidente e, posteriormente, no século V DC, no Império Romano do Oriente, em Constantinopla. Assim, ao politeísmo egípcio e grego, através da tradição judaico cristã, sucedeu o monoteísmo fundado por Abraão, e do qual se originaram as religiões hebraica (a partir de Sara) e muçulmana (a partir de Agar, a segunda mulher de Abraão). 

As provas de fogo do monoteísmo hebreu, além do episódio da adoração ao bezerro de ouro, foram a cisão representada por Jesus Cristo, não reconhecido como o Messias, assim como vários outros judeus que posteriormente apareceram e não se confirmaram aos judeus como o Salvador. Para o catolicismo (“para todos” em grego, e em contraposição à idéia do judaísmo de uma religião para um povo escolhido e diferente dos demais), o desafio maior partiu das, assim chamadas, heresias, que discutiam a pessoalidade da trindade divina e a origem de cada uma delas, bem como a Trindade cristã, sendo a pelagiana, a ariana e a monofisista as principais heresias aos dogmas cristãos, combatidas e derrotadas por Santo Agostinho em Concílios. Sempre perigoso, o maniqueísmo, de origem remota persa e que questionava o poder da divindade ao propor a origem simultânea do bem e do mal, só foi realmente debelado no século XIII DC.

A reforma protestante, adiada para o início do século XVI pelos esforços ingentes de São Tomás de Aquino e demais escolásticos, representou golpe duro na solidez e hegemonia católica, ao propor, através de Lutero e Calvino, principalmente, a idéia da superfluidade da instituição e intermediação da Igreja, já que, nas palavras de Lutero, onde houvesse uma  Bíblia haveria uma igreja, ou seja, a Palavra divina, ou Logos, poderia ser interpretada pelos fiéis sem a necessidade da interferência do clero religioso, ressalvada a importância enorme do pensamento de Agostinho no pensamento dos dois luminares do protestantismos, principalmente através da doutrina da graça, do livre-arbítrio e do mérito da lavra de Agostinho. De grande auxílio a Lutero e aos seus ideais foi o surgimento da prensa de Gutenberg, o que permitiu a produção de centenas de milhares das chamadas bíblias de Lutero, em alemão e não mais em latim, escapando à Igreja o domínio da interpretação. A venda da bíblia de Lutero se deu às centenas de milhares de exemplares. Análises sobre causalidade e determinismo, já presentes em todas as obras dos estudiosos da época, continuaram a solicitar as melhores mentes e ainda se incorporaram à dificuldade apresentada pela não formulação por Einstein da teoria do campo unificado, que tentaria conciliar o determinismo da física dos eventos macros, com a probabilidade da Física Quântica de Niels Bohr. Ao que se aponta, o calcanhar de Aquiles da doutrina católica e protestante reside na análise da onisciência divina frente ao livre-arbítrio humano: se Deus sabe que alguém vai errar, por que não o demove do erro?

À doutrina de um Deus único e presidindo aos atos humanos, que é a essência da doutrina monoteísta cristã e hebraica, que a tradição maometana incorporou, a formulação panteísta de Baruch Spinoza, pensador banido do judaísmo, mas extremamente admirado por inúmeros cientistas modernos (Einstein e Russel, entre os mais eminentes), contrapôs a idéia de uma força inteligente, responsável por todas as leis e acontecimentos naturais, mas impessoal.

Nas religiões orientais como o hinduísmo e o budismo, desenvolveu-se a idéia de que o Todo está em tudo e que a vida terrestre não passa de uma vida de ilusão do Véu de Maia (ilusão em sânscrito), já que tudo faz parte de uma realidade única e inalterável e que, para escapar a roda do eterno retorno, formulação que Nietzsche incorporou à sua doutrina, assim como Schopenhauer, é apenas necessário que, entre encarnações, tenhamos consciência disto. Assim como ocorreu, tardiamente e de forma fraca no Ocidente, com o positivismo, o Oriente, principalmente China e Japão, adotaram “religiões civis”, como as prescritas pelas práticas de Confúcio, e que serviram para estabilizar socialmente contingentes enormes de pessoas vivendo em sociedades estáveis e hierarquizadas, alguma coisa até hoje lá preservada.

Do ponto de vista de vida após a morte, e do espectro de um Céu ou um Inferno nos aguardando, bem como da série de manifestações divinas na vida terrestre (dilúvio, Sodoma e Gomorra, a paternogênese, que é o nascimento a partir de uma virgem, etc.) há uma identidade muito grande entre todas as religiões, provavelmente, decorrentes de um inconsciente coletivo (Jung), que responde por nossas formulações irracionais e primitivas, inconscientes e que se manifestam em ações que a psicanálise tenta explicar. O livro sagrado dos Mayas, o Popol Vuh, é repleto de situações de similitude com as demais religiões.

Assim, para finalizar um tema tão árido, e, é claro, deixando uma série de buracos, podemos dizer que, se o Ocidente é dividido entre as religiões e denominações cristãs (católica apostólica romana, católica ortodoxa (árabe, russa, grega, etc.) e as diversas denominações protestante), praticamente não sobrando qualquer resquício das religiões animistas dos aborígenes, bem como pela muçulmana, que se espalhou como brasa dentre os povos africanos e do médio oriente a partir do surgimento do profeta Maomé, o Oriente é de orientação budista e confuciana, bem como taoista, com algum espaço preservado a religiões levadas pelos indo-europeus à Índia e configurada no sistema de castas do Bramanismo.


abr 15 2009

Declínio e queda

Por mais que seja tentado a fazer uma associação entre a ausência de valores, como marca principal da sociedade ocidental moderna, e uma sua possível queda, penso que este tipo de ligação é um pouco forçado. Explico-me.

Não podemos esquecer que muitas sociedades ascendentes, ou em seu apogeu, praticaram atos que hoje certamente seriam entendidos como de dissolução dos costumes, mas que de forma alguma representaram um enfraquecimento destas sociedades. Assim, em Esparta e na Fenícia se sacrificavam os recém nascidos deficientes, assim como em Roma, o pai, exercendo o seu pátrio poder, poderia rejeitar, abandonando ou vendendo, um filho seu recém nascido. Na Inglaterra ascendente do século XIX, a escravidão demorou a ser abolida, o mesmo ocorrendo nos Estados Unidos em formação, sendo a discriminação racial a tônica do período posterior à Segunda Guerra Mundial, com o caráter de lei em alguns estados americanos. Quanto à pena de morte, ainda é presente em boa parte dos Estados civilizados. Parece-me que sempre julgamos as épocas passadas com os olhos de hoje, o que torna difícil qualquer associação entre de declínio de valores e apogeu de uma sociedade. Temos a mesma dificuldade em admitir comportamentos animais que nos parecem estranhos ou inaceitáveis, mas que obedecem regras de funcionamento e organização da Natureza.

Penso que podemos, contudo, apontar para o surgimento já há uns dez anos, em todas as civilizações mundiais que se moldaram atrás de valores da democracia liberal, mesmo que adaptados às suas conveniências políticas, de um sentimento de desconfiança de que o Ocidente, formulador no século XIX dos princípios desta sociedade liberal, já não pode apontar o caminho para ninguém, já que perdeu todos os valores com os quais apontava ao resto do mundo, um caminho de progresso contínuo e bem-estar a todos e que, comungados aos seus valores mais íntimos, mostrariam o caminho “da procura pela felicidade”, na bela expressão de Thomas Jefferson, incorporada ao mito da criação dos Estados Unidos.

Roberto Procopio     


abr 14 2009

Gênio e ingênuo.

Robert Oppenheimer ficou conhecido como o pai da bomba atômica, já que foi responsável pela direção do trabalho técnico-científico na cidade americana de Los Alamos, no Novo México, e que culminou na produção das duas bombas que foram lançadas em 1945 sobre o Japão. Embora não tivesse o gênio criativo de um Albert Einstein ou de Niels Bohr, os dois principais físicos do século XX, Oppenheimer conseguia despertar nas pessoas o poder criativo de cada uma delas, sendo dono de uma personalidade irradiante, que, justamente em função disso, arregimentou muitos amigos e muitos inimigos.

Foi constantemente perseguido pelos serviços de segurança americanos (FBI) até ter cassada sua licença de acesso às informações sigilosas sobre o desenvolvimento de armas nucleares. Não mostrou, todavia, a blindagem necessária para enfrentar os inquéritos armados contra ele em função de sua antiga simpatia pelo comunismo stalinista, que recantou, mas da qual jamais conseguiu se dissociar. Sua esposa Kitty, também ex-simpatizante da URSS, ajudou a compor um quadro de um casal comunista num Estados Unidos acossado pelo terror persecutório da época do pós-guerra,  conhecido como mccarthismo. Nos inquéritos, sempre conduzidos de modo ambíguo e confiando na boa fé dos depoentes, Robert se mostrou como extremamente ingênuo, emitindo julgamentos e pareceres que extrapolavam a sua área de ação e que, finalmente, acabaram por entregar aos órgãos públicos de segurança os nomes dos amigos que tinham afiliação ao comunismo.

Parece que o que sobrava de genialidade de um lado faltava de outro e o próprio cientista reconheceu que não conseguia explicar racionalmente a sua atitude frente aos inquisidores, agindo irracionalmente e com os nervos à flor da pele. O gênio era ingênuo.

Roberto procopio     

 


abr 13 2009

Metabolismo

Francis Fukuyama, na esteira de Hegel, havia decretado o fim da História, o que não significaria exatamente que as coisas deixariam de mudar e passariam a se repetir, mas sim que, a adoção da democracia liberal por praticamente todas as nações do mundo significaria a inexistência de mudanças importantes nos processos políticos e econômicos, todos eles, segundo Francis, qualificados praticamente do mesmo modo, ou seja, democráticos liberais e consagrando o capitalismo como modo de operação econômica.  O pensador americano recantou sobre o que pensava, principalmente a partir da sugestão de Edward Wilson, biólogo americano, que lhe havia indicado, a impossibilidade do fim da história, nome de um dos livros de Francis, já que não havia ocorrido o fim da ciência. Há poucos anos, Francis Fukuyama, mudando um pouco o seu foco de ação, a partir nas novidades científicas aportadas pela biogenética, focando principalmente nos aspectos éticos e legais que as descobertas neste ramo da Biologia acarretaram, publicou outro excelente livro, editado em português e chamado “Nosso Futuro Pós-humano”. É tema para muitos artigos.

Penso, contudo, que a grande dificuldade de apontar para o futuro e o que ele nos reserva, ainda se atrela ao grande dilema ou debate a respeito do determinismo e do livre-arbítrio, que, já presente e forte desde os gregos e hindus, perpassa por Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Lutero e Calvino, Erasmo, Newton, Nietzsche, Schopenhauer, Einstein, Niels Bohr e outros, extrapolando a Filosofia e a Ciência. Quanto aos determinismos, há o geológico, o genético, o orgânico e biológico, o psíquico, o ambiental, o social, o econômico, etc.

Sempre fui, e continuo sendo, infatigável partidário da idéia do livre-arbítrio humano, embora me sinta um pouco incomodado quando levanto todas as noites às 4 horas da manhã ou entro num banheiro público para fazer xixi.

Roberto Procopio       

       


abr 9 2009

Nietzsche

Nunca nutri simpatias pelo filósofo alemão e li umas 4 ou cinco obras dele sempre com o pé atrás, com aquela atitude de “cuidado que o cara é pirado”. Li também aquele livro (não gostei) “ O dia em que Nietzsche chorou” e, no confronto entre Freud e Nietzsche pelo troféu simpatia, prefiro deixar a premiação para o ano que vem.

Li, contudo, com bastante satisfação, sorvendo mesmo o conteúdo, o livro “Wagner em  Bayreuth”, um panegírico do filósofo alemão ao compositor idem e que achei bastante despretensioso, equilibrado e essencial para entender Richard Wagner e sua obra. Após a leitura do livro, iniciei a audição das óperas de Wagner percebendo-o de um outro modo, principalmente no aspecto do amálgama entre a palavra e a música, alguma coisa muito bem percebida pelo filósofo, já que a Alemanha da segunda metade do século XIX parece ter esgotado o significado dos termos, o que só a linguagem musical de um gênio como o de Wagner conseguiria redimir, novamente elevando a ópera a uma arte de primeiro nível, e não mais o motivo de ponto de encontro de homens de negócios que se pretendiam cultos.

Penso que Nietzsche, neste texto, não abusou dos adjetivos depreciativos, o que diminuiu bastante o caráter ofensivo normalmente associado a ele, sem contar que o filósofo se achava  - e era – o rei da cocada preta.

Quem quiser, vale a pena conferir.

Roberto Procopio   


abr 8 2009

A “patchwork” dos 20.

No seu livro As estórias, Heródoto conta um episódio sobre um grupo de sete amotinados e que se preparava para dali a uma semana assassinar determinado rei. Um dos conspiradores levanta-se e diz: segredo de sete não existe! Ou fazemos isso agora, vamos lá e matamos o rei, ou serei o primeiro a denunciar-nos todos , conseguir uma “delação premiada” (aspas minhas , já que o termo é moderno). Julgamentos éticos à parte, este era o mais inteligente de todos, já que é realmente impossível manter um segredo tão importante durante tanto tempo.

Uso Heródoto e volto ao presente. Penso que a reunião dos G 20, uma contradição nos termos, já que nem todos são grandes nesses 20 que se reuniram no dia 02 de abril em Londres para tentar acertar os rumos da economia mundial, está de certa forma fadada a ter o mesmo destino do relato de um dos pais da História: um grupo de 20 é uma colcha de retalhos (patchwork) muito mais esgarçada e sutil do que um grupo de 7 ou 8 e tende a se romper com muito maior facilidade. Ou seja, deixado de lado o aspecto meritório da conversa em si, não tenho qualquer dúvida de que, surgidos os primeiros problemas, cada um dos membros deste grupo de 20, sempre com um olho nas coalizões caseiras, irá cuidar do seu quintal e dos seus afazeres, subtraindo-se ao compromisso com os demais.

Em todo o caso, quem viver verá!         


abr 7 2009

Semelhanças embrionárias

Acho bastante interessante um aspecto levantado por alguns biólogos a respeito da semelhança entre organismos vertebrados (peixes, répteis e mamíferos) quando ainda em seu estágio embrionário, ou seja, ainda enquanto embriões, semelhanças que se perdem durante o período seguinte e que nos dá formas bastante diferenciadas.

Acho fascinante a idéia de que, mesmo nós humanos, quando embriões, passaríamos por estágios evolutivos (darwinianos) de peixes, répteis e mamíferos, como a dizer que, em pouquíssimos dias, fomos de peixes a primatas, saímos do elemento água e fomos para o elemento terra, uma idéia hoje bastante contestada pelos especialistas, descobertas recentes na camada do Pólo Ártico, encontraram um elo perdido entre o peixe e os répteis, um fóssil de , aproximadamente, 385 milhões de anos, que, em função de características anatômicas, mas principalmente do achatamento frontal de sua cabeça, alguma coisa preservada nos crocodilos e jacarés, causou frisson no meio da Paleontologia, a ciência que estuda as relíquias fósseis.

As transformações causadas, ou melhor dizendo, inter causadas pelos genes, organismo e ambiente natural, fizeram o mundo animal e a flora serem o que são hoje, ao menos na minha visão, um enorme e indecifrável enigma sobre como e por que se dá esta transformação. O resto, inclusive a teoria darwinista e neodarwinista é tentativa de encaixotar e explicar o mistério da vida.

Roberto Procopio        


abr 6 2009

Um cientista maldito

A teoria da evolução das espécies, como tudo na evolução do conhecimento humano, foi formulada a partir da contribuição de vários pensadores anteriores a Charles Darwin, fato sobejamente reconhecido pelo naturalista inglês, que , mais do que ninguém, se apropriou e citava à exaustão em suas obras o motto de Leibniz de que a “Natureza não dá saltos”, ditado também válido, é claro, para o próprio mecanismo da evolução concebido por Darwin.

Uma das principais influências em Darwin foi o geólogo  Charles Lyell que, por aprofundas um incipiente debate sobre as camadas fósseis da Terra, comunicou ao inglês a idéia de que o tempo de existência de nosso planeta não eram os 5.500 anos preconizados pelos estudiosos bíblicos e que levaram ao pé da letra o texto sagrado hebreu. Darwin chegava a propor datas geológicas que poderiam significar um retrocesso de centenas de milhões de anos, um tremendo progresso com relação ao conhecimento anterior. Outra grande influência foi a de Thomas Malthus que, com sua teoria populacional, comunicou ao biólogo britânico a existência de uma luta pela sobrevivência no mundo animal, levando a idéia da sobrevivência do mais adaptado.

Bastante cauteloso na sua teorização, Darwin só veio a publicar o seu mais famoso livro, A origem das espécies, após ter recebido um texto do também inglês Alfred Russell Wallace, o qual havia chegado, independentemente de Charles, às mesmas conclusões que ele. O nome de Wallace é citado inúmeras vezes como fonte fidedigna por toda a obra de Darwin, principalmente na The Descent of Man, obra escrita em 1872 por Darwin como contraponto as idéias de Wallace que, aparentemente de forma abrupta, converteu-se  ao espiritualismo (espiritismo) assombrando a classe cientifica da época, que, compreensivelmente, a última coisa que queria prestigiar em suas hostes, era um cientista eminente e que buscava a verdade em esferas não científicas, tendo seu nome sido praticamente banido do registro da ciência.

Roberto Procopio              


abr 3 2009

O eureca de Einstein

Boa parte da genialidade do cientista alemão, suíço e americano, após ter um período apátrida em sua vida, era trazida por duas características de sua personalidade, as quais preservou durante toda a sua vida: não aceitar verdades empacotadas ou dogmas científicos e sempre estimular a sua criatividade. Costumava absorver uma quantidade enorme de informação e leu Kant aos 13 anos de idade, por recomendação de  um amigo mais velho. Dominou o cálculo diferencial na mesma idade, embora não fosse a matemática o seu ponto forte, sempre solicitando apoio aos conhecidos e à ex-esposa Marczi quando precisava resolver problemas sobre os quais tinha certezas intuitivas ainda não demonstradas matematicamente.

Dizia que a intuição era o seu forte, e entendia que a intuição era resultado de processos racionais de certa forma automatizados na mente humana e os quais não era necessário explicar. Conseguia o seu “achei” euclidiano tocando violino, embora fosse também capaz de, durante uma sofisticada demonstração em aula, resolver um problema que guardava na mente, mas, sem dúvida, mais uma resolução do tipo eureca, ou seja, com a mente concentrada em outra atividade.

Resumindo, podemos dizer que a receita do gênio da Ciência era uma forte dose de intuição aliada a um anti-dogmatismo visceral, mais tarde tornado anti-militarismo, e a uma mente que se estimulava e estimulava todos à sua volta a desenvolverem a sua criatividade.

 Roberto Procopio   


abr 2 2009

Richard Wagner

Uma das poucas exceções ao meu hábito (ou compulsão) de leitura é a ópera de Wagner. Gosto especialmente de Parsifal, que em parsi significa o Tolo Puro, nome que dá o sentido à própria obra, e da quadrilogia o Anel dos Nibelungos. Para acordar, escuto o Holandês Voador, uma das primeiras compostas pelo compositor alemão, mas que consegue, e isto parece ser instintivo em Wagner, passar o drama do navio errante comandado por fantasmas e que, de tempos em tempos, ancora em algum porto para escapar à maldição. O som das trombetas anunciando a ancoragem do navio é realmente de uma força total, expressão do puro navio num mar revolto. Se na maior parte das operas, a abertura é composta de modo totalmente independente do restante da obra que dá tema à mesma, fica claro que isto não ocorre com as obras de Wagner e muito menos com o Fliegender Hollander.

Wagner foi contemporâneo de alguns gênios da época, mas foi com Nietzsche e Schopenhauer que teve o relacionamento mais intelectualmente profícuo para ambas as partes, todos gênios inexcedíveis em suas respectivas áreas de atuação (e havia isso, quando falamos de polímatas como eles?).  Rompendo com a tradição clássica da música operística, dota as mesmas de uma profundidade que tanto serve ao povo alemão, por apresentar aspectos da mitologia alemã que ajudou a reconstruir, como apresenta uma simbiose entre linguagem e música que, como diria Nietzsche, atravessa e ultrapassa a limitação do idioma alemão de então, um feito que se patenteia no Anel dos Nibelungos, Parsifal e em Tristão e Isolda, dramas, como quase tudo em Wagner, só se concretizam e explicam na Morte como personagem principal, à qual Wotan, o corrompido deus germânico, assiste com um sorriso malicioso nos lábios. Independentemente da dificuldade da mensagem, não há como resistir à beleza da mescla de sons e palavras que apenas um gênio como Wagner ousou alcançar.

Roberto Procopio