fev 28 2009

A importância de estar “antenado”

No filme “Circulo de fogo”, que trata do cerco à cidade russa de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial, o principal atirador de elite da Rússia e o principal da Alemanha travam  batalha particular, na qual a supremacia do lado vitorioso neste confronto pessoal, seria simbolizada pela vitória de um deles, o que, é claro, implicaria na morte do outro.

As ações táticas são cautelosas, cada um evitando ao máximo ser previsível ao outro, o que implicaria num maior risco de morte, já que os caminhos seriam previamente conhecidos e passíveis de serem previamente tocaiados. Quando o atirador alemão inadvertidamente se expõe ao russo, este tem um pequeno cochilo no exato momento em que o russo passa à sua frente. Na segunda oportunidade que se oferece, o russo mata o seu oponente.

A mesma coisa ocorre na área de vendas. É bastante comum não mantermos a atenção durante todo o processo de vendas, deixando que muitos detalhes importantes escapem ao nosso controle, o que, como no caso dos atiradores do filme, pode ter implicações bastante sérias, levando a uma perda de uma venda certa em função da não atenção a detalhes e temas importantes ao fechamento. O bom vendedor tem que estar continuamente antenado ao processo de vendas, percebendo e guardando todas as informações importantes, o que exige disciplina, disposição e uma percepção bastante aguda do que está à sua volta, seja no ambiente do prospect, seja no ambiente da empresa onde trabalha. Mas, de modo bem diferente do que ocorreu no filme, não se arrisca a vida e sim uma venda, o que não deixa de representar um incentivo para fazer a coisa certa, que é estar “antenado” ao processo.

Boa semana de vendas a todos!

Roberto Procopio       


fev 28 2009

INJUSTIÇA Pede reparação!

Peço desculpas a Charles Darwin pela maneira desabusada como a ele me referi nos últimos dois posts sobre ele e suas idéias. Parece que o maior problema de grande gênios como o naturalista inglês é o de que seus seguidores, bem na tradição ocidental, ávidos em definições de diagnósticos para deles tirarem proveitos, se tornam mais apaixonados e iconoclastas do que o próprio pensador, sempre mais ponderado e equilibrado do que os seus fãs. Isso aconteceu também com os seguidores de Karl Marx, certamente mais marxistas do que o próprio Karl, e de John Maynard Keynes, mais keynesianos do que o próprio economista inglês. Uma exceção à regra é Milton Friedman, cujos seguidores da escola de Chicago parece sempre cópias imperfeitas do mestre da economia neoliberal, o mesmo ocorrendo com Freud, embora neste último caso, o de Freud, haja uma explicação, já que a preocupação do inaugurador da psicanálise era a de firmar as bases das sociedades psicanalíticas que se inauguravam, sem muito tempo a perder, mesmo que cimentando a laje de mais um dogma, agora o da psicanálise. Mas voltemos a Darwin.

Na obra de Darwin as afirmações são bastante menos freqüentes do que as dúvidas, os pareceres que pedem mais experimentos e explicações, e o tom é sempre de agregação de idéias, evitando polêmicas abertas e jamais deixando de considerar as opiniões dos seus rivais intelectuais, pelas quais sempre demonstra respeito e paciência argumentativa. Como diz Konrad Lorenz, o descobridor dos mecanismos de imprinting em gansos, Darwin não era darwinista, embora com um conhecimento monumental em biologia e em diversos outros ramos do conhecimento, e o pior que pode acontecer ao velho e bom Charles, foi ter uma caterva de seguidores que o tomam tanto ao pé da letra, apenas nas sentenças convenientes, que parecem ter inaugurado um evangelho científico, bem na contramão do espírito do gênio inglês.

So, Charles, I am sorry!

Roberto Procopio        


fev 25 2009

Fernanda Young

Usa a bigorna de Nietzsche para , literalmente, destruir tabus e amores presumidos, apresentando um conteúdo pavoroso, mas com a vantagem (única?) de uma prosa (verve?) bastante atraente, da qual, como na prosa de Vladimir Nabokov, por mais horripilante que seja o assunto, não conseguimos desgrudar. Não li nada dela a não ser o “Coisas que você não soube”, o qual, bem na linha da literatura hiper moderna (existe isso?), apresenta temas áridos como o relacionamento esmigalhado entre a sua personagem (autobiográfica?) e os pais, um no leito do hospital a morrer, outra, a mãe, martelada na cabeça pela protagonista, que, errou nos golpes e não conseguiu matar a mãe.

Faz par com os grandes da atualidade como J.G.Ballard, Burroughs, Pahlaniuk, et caterva, mas, tirante o magnetismo de sua prosa, “Coisas que você não soube” provoca náuseas, uma escala a menos do que o “Crash” de Ballard.

Sofra com moderação.

Roberto Procopio   


fev 25 2009

“Quem corteja o saber…

…chama o diabo por você”.

A frase, em si mesma dura e impertinente, é, entretanto, bastante acertada. A proa do conhecimento é uma área desértica, onde se passa 40 dias ou 40 anos, sem certeza alguma de um resultado garantido, da certeza de lá encontrar a conquista almejada. Espocam dúvidas, tentações, inseguranças, pensamentos equivocados e destruidores, e o que é mais freqüente é culpar a criação ou o Demiurgo pelos males do mundo, daí o nome da música dos Stones, “Sympathy for the Devil”.

Todavia, o processo, por mais doloroso que seja, não poderia ser de outro modo, pois é justamente na prova de fogo, na pira, que se testam os valores e as crenças, alicerçando-os em bases mais sólidas e duradouras, mas constitutivas da formação moral individual, a única que sobra. Para uma sociedade do prazer imediato como a nossa, que é a do Planeta Droga e do Império do Espelho, qualquer idéia de provação é imediatamente desaprovada, rejeitada como absurda, levando-nos a ceder a primeira tentação que se nos afigura pela frente, numa troca do equilíbrio futuro pela compensação (sensível) imediata, aqui e agora, império da carne e da serotonina, dopamina e todos os demais estimuladores cerebrais que sobre utilizamos e que se esgotam quando pedimos mais, deixando-nos “zumbizados”.

Passado o período de provação, Lúcifer é remetido aos ínferos e o que assoma é, simultaneamente, a incompreensibilidade de tudo que nos cerca, mas a certeza de que há uma força superior a tudo e à qual tudo remete. Parafraseando Carlos Fuentes, este é (apenas) o meu credo.

Roberto Procopio           


fev 25 2009

Remédio Veneno

É bastante válida a asserção de que a diferença entre remédio e veneno é apenas a da dosagem em que a droga é utilizada. O símbolo médico caduceu, que contrapõe duas serpentes, como num espelho, é bastante elucidativo neste aspecto: o que cura também mata. Dois idiomas atuais e que têm origem comum no antigo germânico, o alemão e o inglês, têm significados diferentes (falsos cognatos) para a mesma palavra “Gift”, que, se no inglês significa dádiva, presente, dom, etc., no alemão significa “veneno”.

A maior parte das drogas sintéticas de uso em todo o mundo originou-se de tentativas dos laboratórios europeus e americanos, mas principalmente dos alemães, de produzirem medicamentos que ajudassem os viciados em qualquer substancia química a sair do vício. O mercado, sempre atrás de lucro, deu outra destinação ao que era, originalmente, repleto de boas intenções e , nos dias de hoje, grande parte da emergência do uso de drogas deve-se à perda de controle de medicamentos destinados a outros fins. O remédio vira veneno e está a dois passos de todos, seja via uma prescrição adulterada, seja via o arrombamento de armários em hospitais e clínicas, criando um mercado paralelo de bilhões de dólares.

Cria-se assim, a partir dos medicamentos que se juntaram às drogas ditas naturais (maconha, cocaína, álcool, morfina), o Planeta Droga, abrindo os receptores cerebrais a estímulos artificiais que fazem a depleção dos neurônios na busca desenfreada da felicidade quimicamente propiciada, com o futuro sendo desprezado em função de altíssimas taxas de descontos, piores do que as do cartão de crédito. Mas, como se diz, em cada cabeça uma sentença.

Roberto procopio  

 


fev 25 2009

O que você faria se…

 …tivesse que mentir um pouco para conquistar um determinado cargo político, sabendo que o seu adversário, um tremendo mau-caráter, está mentindo adoidado?

… se você fosse poeta de prestígio e recebesse uma poesia de péssima qualidade de um candidato ou uma candidata a poeta que pedisse a sua opinião sincera?

…se seu chefe pedisse a você contratar a namorada dele, algo que ficaria em segredo entre você e eles?

…se descobrisse que o seu maior concorrente a um cargo de prestígio e bem remunerado é gay, alguma coisa que ainda não aceita na empresa onde você trabalha?

…se descobrisse que a empresa onde você trabalha pratica somente a ética dos escalões intermediários para baixo, ao passo que, na cúpula vale-tudo?

…se seu diretor pedisse que você contratasse alguém apenas para “tapar um buraco” na produção, sem avisar ao candidato que ele seria demitido assim que a mesma tivesse sido restabelecida?

…se você fosse convidado para um cargo gerencial para o qual você não se julga qualificado?

 

Roberto Procopio


fev 22 2009

Ainda sobre Darwin

Por favor, quem souber responda:

1-      As áreas de codificação neutra em qualquer DNA são realmente neutras, sem função alguma? Como são, então, passíveis de serem explicadas pela teoria darwiniana?

2-      Como é possível, num mundo de mudanças graduais, a formação de mecanismos complexos de resposta adaptativos?

3-      Qual a origem da programação genética?

4-      O ambiente natural ao qual os organismos se adaptam através de mutação genética randômica, muda em função de quê?

5-      O pensamento, que não tem localização precisa no cérebro humano, ao estar aberto a toda espécie de estímulos sócio-ambientais, exatamente por isso, não é uma tremenda refutação à adaptabilidade darwiniana?

6-      A variação de um “acaso” estocástico (probabilístico) não é a afirmação de um limite pré-determinado à variabilidade, de um desenho prévio de toda a mutabilidade?

7-      As adaptações locais, bem como a variação do entorno próximo, não podem, as duas, serem funções de uma causa remota desconhecida ou não considerada?

8-      Por que alguns neodarwinistas (Daniel  Dennett, Richard Dawkins, etc.) se tornaram tão radicais e dogmáticos?

9-      Como foi transmitido o gene gay?

10-   Como se explica, pela evolução, o comportamento social das formigas, cada uma com uma função definida no formigueiro?

11-   Esta vai especialmente para Charles: qual a origem da baleia?

 Roberto Procopio  


fev 21 2009

O desgaste das marcas famosas

Recentemente recebi um e-mail com uma série de provocações gráficas às grandes marcas mundiais que, após a débâcle da economia mundial, tiveram sua imagem arranhada, já que precisaram sair do Olimpo onde se encontravam, e receber o xeque da realidade representado pelo tsunami financeiro por que ainda passamos. Penso que vai demorar muito tempo para que se recuperem, se é que isso ocorra algum dia, já que muitas das empresas mundiais, como GM e Chrysler, estão na UTI combatendo uma septicemia generalizada (sic) e hoje o que se vê é uma tendência de governos europeus e o americano a encamparem, estatizarem ou nacionalizarem grandes bancos como o CitiBank e o Bank of America, apenas para citar os casos americanos mais representativos. Milton Friedman deve estar dando voltas no sepulcro.

Penso que mais à frente se constatará a necessidade de um novo molde ou genótipo para o empresariado do futuro, já que os que deixaram tamanho estrago vinham dirigindo estas empresas como dirigem a cortadora de grama de suas casas, e o comportamento narcisista e auto centrado que lhes é característico se mostrou como predador não da concorrência, mas do mercado como um todo, dirigido a margens cada vez menores, a falcatruas cada vez maiores, inventividade e rompimento de códigos de ética assombrosos, como se tivessem lido a auto biografia de Mobuto Tse Tseko,  Ide Amin Dada e Reza Pahlevi.

Roberto Procopio  


fev 19 2009

O legado de Darwin

Na comemoração dos 200 anos do nascimento do naturalista inglês responsável pela teoria da evolução da espécies fica, ao menos em mim, a forte impressão, já que nunca passo disso, de uma forte impressão, de que nunca nos últimos anos se questionou tanto a teoria do gênio inglês. Não podemos esquecer que Darwin é herdeiro do Iluminismo e do racionalismo inglês, que a tudo atribuía uma explicação através da aplicação da lógica indutiva ou dedutiva, mas sempre chegando a uma relação de causa e efeito do tipo A é a causa de B que é a causa de C, e assim por diante, uma contrapartida, na Biologia, do que já se viu na formulação newtoniana, todas elas adaptadas ao mundo macro ainda não conspurcadas pelas descobertas posteriores da Física Quântica, afeta ao mundo das partículas, e às novas formulações da Teoria do  Caos, que, aplicadas ao mundo macro, anteriormente domínio da Física e Biologia Clássicas, trazem iterações totalmente imprevistas sempre que rompemos limiares de iteração jamais antes experimentados. A nova visão orgânica do mundo, uma volta a Gaia de que nos fala James Lovelock, voltando à deusa grega da Terra e do mundo cósmico e organicamente interdependente, não deixa muito espaço para a teoria da evolução, já que causa e efeito se imbricam de tal forma que mais parecem dar vez e azo à teoria contraposta de um design inteligente.

Ao velho e bom Charles Darwin, obrigado, mas R.I.P.

Roberto procopio    


fev 18 2009

Muito Dinheiro ajuda?

Penso que atrapalha: outro dia destes escutei na Rádio Bandeirantes de São Paulo, no programa do José Paulo de Andrade, um debate sobre a situação de endividamento em que se encontra o empreendimento Hopi Hari, no interior de São Paulo - pasmem! - com dívida junto ao BNDES em torno de 500 milhões de reais. Parece-me que é, mais uma vez, o velho problema do dinheiro fácil, de planos mirabolantes mal executados e má gestão, mas principalmente dinheiro fácil. Como dizia um amigo meu, não há nada para fazer uma boa dívida quanto muito dinheiro, e parece-me que ele tem razão, pois encantamo-nos com o momento, com o aqui e agora, desprezando o conselho do futuro para que nos acautelemos, para que levemos em consideração o imponderável, que sempre ocorre, nos indicando que as coisas escapam do nosso controle e que assumimos os riscos ao, para usar uma analogia, dirigirmos uma empresa embriagados pelo dinheiro fácil.

Assim, é melhor que as coisas aconteçam de uma maneira mais gradual e real, com dinheiro real de faturamento e não dinheiro fácil de qualquer órgão governamental e que parece que não tem a mesma veemência e interesse que um banco privado no recebimento do dinheiro de volta.  Vamos ver como evolui a coisa, mas este do Hopi Hari é mais um exemplo de uma administração inebriada pelo dinheiro público fácil.

Roberto procopio      


fev 13 2009

Comportamento moral

Geralmente associamos a ação moral, que entendo ser uma ato de desprendimento e mesmo de perda pessoal para ajudar uma outra pessoa em necessidade, como eminentemente humana, própria a nós, primatas da espécie Homo sapiens sapiens (sic!). O critico literário Harold Bloom outorga a Shakespeare a “invenção do humano”, no sentido de que nós, humanos, temos uma percepção rarefeita de alguma coisa maravilhosa acima de nós e que os místicos denominam de “portas” para o que está além da nossa percepção sensorial, comunicada por aquele sentimento inebriante e oceânico de que nos falava o escritor Romain Rolland e que tanto instigou a busca sem sucesso de Freud.

Antes de Shakespeare, segundo Bloom, nada distinguia um humano de outros animais, numa Inglaterra que se submergia em conflitos intestinos e que abandonava a sua ralé à fome, privação e a uma condição sub-humana, carnificina que inspirou Thomas Hobbes a escrever o seu libelo Leviatã, Shakespeare, ao integrar as vidas dos pobres e dos humildes à realidade da “upper crust” nobiliárquico, teria nos comunicado e avisado a humanidade de todos. 

Parece, contudo, que o comportamento moral, de desprendimento, não é peculiar a nós, já que está presente também nos primatas das mais diversas espécies, desde os chimpanzés aos bonobos, e  em menor grau, nos orangotangos, gorilas, etc. E, é claro, também no meu cachorro e no seu cachorro, já que, pergunta-se, não é um comportamento moral, de desprendimento e risco total, aquele do cachorro que, para defender a sua dono ou o seu dono, ou seja, um indivíduo de uma outra espécie, engalfinha-se com um agressor qualquer que a molesta? Isso, contudo, não reduz a beleza de ser humano, apenas, mais uma vez apelando à moral, pede que, embora “caniços pensantes” (Pascal), sejamos, antes de tudo, humildes em reconhecer a nossa pequenez frente a um mundo que, frente a uma razão que, ao mesmo tempo cresce e se apequena, não explica tudo que pretendia explicar no alvorecer do primado da razão.

Voltando ao bardo inglês, há certamente muito mais razões entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia! Platão poderia completar: a ignorância, ou o que desconhecemos, é sempre a maior parte, o que de certa forma reforça a beleza do ato moral.

Roberto procopio   

 


fev 13 2009

Nabokov

Sempre que possível, tenho aconselhado às pessoas lerem “Lolita”, a obra-prima de Vladimir Nabokov, e a reação delas geralmente é bastante negativa, como se eu estivesse aconselhando as pessoas, pela leitura do livro escândalo, a chancelarem a pedofilia. Embora o tema de “Lolita” seja o comportamento do pedófilo Humberth Humberth - assim mesmo, com o nome bisado - o livro não contém uma única palavra pornográfica ou expressão de baixo calão, embora, é claro, abunde em descrições sobre a geografia da pequena Lola. Quando recomendo o livro, penso sobretudo na força e envolvimento da prosa do escritor russo emigrado para os EUA, com direito a excelente tradutor oficial para o português do Brasil, força e envolvimento que encontra-se em poucos escritores, certamente um Joseph Conrad, também como o russo, escritor mais conhecido pelo que produziu fora da pátria do que dentro dela, um Euclides da Cunha ou um Monteiro Lobato, mas não muitos outros.

O segundo livro de Nabokov que leio, intitulado “Pnin”, já me pega na primeira página, característica que os grandes autores têm, não nos deixando mais sossegados até o fim do romance, mais uma vez, assim como em Lolita, autobiográfico no que toca à representação de um emigrado em dificuldades no seus embates com a cultura americana. É isso que espero que as pessoas percebam quando recomendo Nabokov, e não os aspectos mais espetaculosos de sua obra, que, é claro, existem e que agregam uma pitada de sal à coisa toda.

Mas, como diz o provérbio, se conselho fosse bom…..

Roberto Procopio    


fev 10 2009

Is the American Dream Killing You?

Escrito por Paul Stilles é mais um bom livro sobre “o preço da pressa”, enfocando as armadilhas da vida pós-moderna dos EUA, onde perderam-se valores para o que o autor chama The Market, ou seja, o mercado.  O enfoque é bastante forte em cima das empresas transnacionais e seus executivos, grande parte dos quais perdeu qualquer senso de proporção entre as suas obrigações estatutárias e seus compromissos com a empresa, inserindo-se numa prática predatória contra os consumidores e acionistas, dando no que deu, ou seja, na sucessão de escândalos que o livro lista de modo fulminante, como se diz, dando nomes aos bois.

As análises gráficas são muito boas e o que fica é a sensação de que O Mercado é o grande regulador das vidas de todos na sociedade pós-moderna americana, igualando consumo a felicidade, numa sociedade do fazer (doing) que é a americana, em contraposição à sociedade do ser (being) como a européia.

É mais um bom sinal de alerta a todos que, apesar de mais afluentes, sentem-se menos em controle de suas vidas, vivendo para os outros. O livro está disponível sem custo pela Biblioteca Harold Chimp.

Roberto Procopio


fev 10 2009

Trilogia Suja de Havana

Mais um escritor maldito - e amaldiçoado pelo regime comunista, com os quais teve vários entreveros após ter perdido o status de jornalista apologético ao regime de Fidel - Pedro Juan Gutiérrez produz obra autobiográfica e que, em inúmeros contos, relata o seu dia-a-dia na Cuba dos que deveriam estar felizes e supridos pelo regime, mas que se vêem obrigados a sobreviver no mercado negro onde o dólar é rei, comercializando drogas, mulheres, carne, aguardente de terceira categoria, lagostas, etc.

O quadro da Cuba retratada por Pedro Juan é o que todos vemos nos jornais, mas a visão insuspeita de alguém de dentro da ilha, principalmente da multidão de esfomeados produzidos pelo paraíso comunista de Fidel e Raul Castro, do qual muitos escapam pela via do desespero, e.g., suicídio, dá ao livro um caráter adicional de documentário sobre o inferno da Ilha, tudo isso amenizado pela beleza do lugar e pela recantada beleza física do povo cubano.

De vocabulário bastante pornográfico e pesado, também abundando em narrativas da violência que impera na ilha, é, contudo, de leitura contagiante e surpreendente, embora com muitas narrativas semelhantes entre si, cada uma delas guardando, todavia, a força de uma escrita única, de um estilo que escapa a uma definição pré-formatada, mesmo em se tratando de um país atolado no passado e na fantasia de um paraíso inexistente e que todos têm que engolir via controle de um Estado policial. Neste tocante, Pedro Juan é único, de estilo próprio.

A “Trilogia suja de Havana” está disponível sem custo através da Biblioteca Harold Chimp.

Roberto Procopio   

   


fev 10 2009

Verde

As multidões que se acocoravam nas calçadas se cruzam e se batem umas às outras sobre as listras brancas da grande avenida cinzenta. O barulho dos carros, dos apitos dos marrons, o zum-zum-zum das palavras quase ininteligíveis das pessoas que se driblam nos dois minutos permitidos, não permite que se entenda quase nada do que falam as duplas ou grupos que dialogam entre si. Mas alguma coisa se escuta, frases soltas e que mostram que quase todos estão de garras armadas, no ataque e na defesa:

“O cara é um idiota, mas ele não sabe com…”.

“Nem se preocupa com isso, deixa o barco…”

“Estou zero, sem nada, fali………..”

Enquanto isso, vrummm, vrummm, priuuuuuu, priullll, uon, uón, uón, os sons onomatopaicos urbanos a tudo circundam, vindo das vias próximas.

“Preparei tudo, não tem como sair sem uma boa …..”

“A posição era minha, mas eu ………”

“Vi o jogo, mas não agüentei ……”

Vermelho!, Vermelho!, Vermelho!

As máquinas que escoiceavam para os atropelamentos das centenas que estavam ali há pouco, como cavalos de corrida ansiando para que as portas se abram e o derby inicie, passam sobre as faixas agora vazias, inconformadas, procurando adiante o próximo pedestre incauto ou suicida que lhes dê um bom motivo para mancharem de vermelho o pavimento da Grande Avenida.  São três minutos de treinamento, de aprimoramento, de especialização, até que vem novamente o sinal verde para o movimento perpendicular dos pedestres que se cruzam e se fintam.

“Eu fugi sem prestar socorro….”

“Olha só o capô daquela Ferrari!!”

“Mergulhei de cabeça….”

Vermelho! Vermelho! Vermelho!      


fev 9 2009

Ernesto Sábato

Não havia ainda lido o grande escritor argentino, assim como não li muita gente, John Updike, Adélia Prado, Paulo Coelho, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Walter Witman, Flaubert, Rubem Braga, etcéteras. Mas tenho expectativas diferentes sobre alguns dos escritores ou escritoras que lerei, isso, é claro, se Deus quiser, pois, como sempre digo, o próximo minuto, a próxima milha ou quilometro, a Deus pertence, não é mesmo? Na realidade, deveria entrar na leitura zerado, sem nenhuma informação, positiva ou negativa, pois, caso contrário, caso pense bem ou mal antecipadamente do que vou ler, não fiz uma leitura correta, pois li da forma e no molde que outros já leram antes de mim, o que não é correto, não é verdade?

Li “A Resistência” de Ernesto Sábato e senti que era uma prosa diferente e que conseguiu me pegar de surpresa, uma agradável surpresa, já que o escritor argentino, ex-comunista e físico de formação, tem uma prosa fácil e simpática, ao mesmo tempo que profunda, escapando ao viés leninista-marxista que tanto caracteriza os de formação esquerdista, aquela prosa padrão, repetida, chata, previsível e que, penso, foi responsável pelo aparecimento de gênios da direita, como Roberto Campos e Nelson Rodrigues, que , inteligentes, usavam e abusavam do estilo comunista de se expressar. Ainda mais importante, Ernesto tem fluência e ritmo próprio, não se integrando a um modo de expressar também padronizado e que se conforma ao chamado realismo fantástico, movimento literário de rica beleza expressional, mas que, quando mal abordado, ou seja, não por um Borges ou um Gabriel Garcia, deixa-nos a todos com um gosto de ranço ou travo na boca.

Em Ernesto Sábato, um jovem de mais de 90 anos, vi a idéia do Outro, da Face, como expressão do que é humano, do que nos qualifica como humanos, revivendo Emmanuel Levinas e, um pouco menos, Sartre. Não deixa de ser admirável o espírito de alguém, sabidamente deixando o mundo, aconselha-nos a diminuirmos o ritmo, a escutar os rios, a perscrutar os campos, as matas, a cultivar a simplicidade e os simples, escapando do mundo da aparência pós-moderno e que a todos traga.

Roberto Procopio   


fev 9 2009

Buquê, cenas de rua

De José Carvalho, prefaciado por Lourenço Mutarelli, o livro é uma crônica das ruas, praças  paulistanas, de um quase morador delas e que tem muita inventividade ao mostrar interessantíssimos personagens do seu cotidiano, escritor e fotógrafo que escreve e chapa São Paulo em uma linguagem própria, fluente, douta e corrida, preta e branca, fazendo-nos adentrar no seu rico mundo, na realidade, um mundo de resistência contra a correria da vida diária da megalópole em que vive, salpicada aqui e acolá pelos buquês que iluminam as mesmas, os postes projetados para os megatérios e céus de São Paulo.

Encontrei José Carvalho fazendo seu ofício de vendedor de suas obras, de uma maneira muito simpática, no vão do MASP e é exatamente sobre isso que o livro, poesia e prosa simultâneas, trata. Não me admiram os elogios de Lourenço Mutarelli, reconhecimento a um poeta e fotógrafo das ruas e que nos faz adentrar o seu rico mundo.  Penso que José Carvalho vai cada vez ganhar espaço próprio, se é que já não o tem, chegando aonde quiser com sua literatura das ruas, fascinante, cinzenta e colorida a um só tempo.

O Livro está disponível sem custo pela Biblioteca Harold Chimp.

Roberto Procopio


fev 9 2009

Eu, Primata.

O livro é escrito pelo holandês Franz de Waal e tem por finalidade demonstrar que não são apenas os humanos pertencentes à espécie Homo sapiens sapiens (sic!) que desenvolveram uma moral de grupo, já que tal comportamento , segundo o autor, encontra-se também presente em outras espécies de primatas a nós aparentadas pela evolução natural, os bonobos e os chimpanzés. A caracterização dos bonobos como espécie diferente dos chimpanzés é bastante recente, do início do século XX e Franz de Waal, que na década de 80 mudou-se para os EUA, é especialista nesta espécie, de comportamento bem distinto dos chimpanzés, principalmente em função da agressividade dos últimos e da maior conviviabilidade dos primeiros. Para ilustrar a magnitude das diferenças entre as duas espécies, entre os bonobos é  praticamente inexistente o macho dominante, sendo uma fêmea, embora menor e de compleixão física menos volumosa, a líder (conciliadora) do grupo.  

Basicamente, o livro compara o comportamento social humano ao comportamento de grupos de chimpanzés criados ou não em cativeiro, bem como o de grupos de bonobos, primatas que derivaram dos chimpanzés há cerca de 2 milhões de anos segundo os especialistas. O livro é imperdível e está disponível em português e sem custo através da Biblioteca Harold Chimp


fev 2 2009

Transgênicos, as sementes do mal.

O livro é um libelo contra, principalmente, a Monsanto, multinacional americana que mais investiu na produção das sementes geneticamente modificadas. Organizado por Richard Fuchs, assim coletando uma série de artigos da vanguarda européia anti transgênicos, situada principalmente na França e Alemanha, tem, contudo, como ponto negativo, o caráter antipático por natureza das manifestações da esquerda européia, que, ao encontrar qualquer objeto novo para o seu sempre velho discurso, rasga o verbo e o vocabulário esgotado em dezenas de anos de apologia do marxismo-leninismo.

Afora isso, o livro é um documento sério e que escancara a hipocrisia das multinacionais da manipulação biogenética, que chegam ao descaramento de não se responsabilizar pela ação natural do vento e da polinização que acarretam a queda de sementes geneticamente manipuladas nos terrenos vizinhos, contaminando assim todas as sementes tradicionais. O que fazem? Processam os involuntários usuários pela plantação de sementes transgênicas, mesmo que os mesmos não tenham qualquer culpa no cartório, pois como poderiam controlar a dispersão natural de sementes?

O livro está disponível sem custo pela Biblioteca Harold Chimp e é leitura obrigatória tendo em vista assunto tão importante ao nosso dia-a-dia.

Roberto procopio

 


fev 1 2009

Formigas em ação.

É esse mesmo o título do livro, Formigas em Ação, de Deborah Gordon, pesquisadora e entomologista que passou 17 anos de sua vida pesquisando formigas de várias espécies diferentes no deserto do Arizona, em cerca de 10 hectares de terreno ermo. O livro é sensacional e satisfez boa parte da minha curiosidade no assunto, originada a partir das idéias do biólogo e também entomologista Edward Wilson e seu conceito de Sociobiologia.

Formigas em ação descreve comportamentos competitivos de colônias de formigas que disputam as mesmas folhagens, a distribuição de trabalho entre formigas na mesma colônia, a alternância de funções para algumas delas, a segurança que é dada à rainha para que, residindo no fundo do formigueiro, uma área praticamente inacessível, continue a reproduzir formigas pelos próximos 15 anos a partir de um único evento inicial, quando, em vôo, foi fecundada por um ou mais machos, que têm vida de apenas 2 dias e nem mandíbula têm , já que jamais se alimentarão.  A autora estuda com detalhe, que todos acompanhamos de forma fascinada, já que tudo é escrito em uma linguagem pra leigos como eu, alguns temas como a organização da colônia em uma sociedade sem líder, já que a rainha não determina as funções de cada um, muito ao contrário , sendo uma prisioneira de seu destino, que é apenas o de gerar novas larvas a serem alimentadas pelos esquadrões de formigas expedicionárias e que vão atrás de alimento quase todos os dias.

O livro é imperdível, fascinante, e está disponível , sem custo, pela biblioteca Harold Chimp.

Roberto Procopio