dez 29 2008

Beber: afasta de mim esta palavra!

É a publicidade pós-moderna, que não quer se associar às conotações derivadas da palavra beber, sendo por isso que mudou do anterior “beba com moderação” para “aprecie com moderação”, ou seja, hipocritamente não reconhece que o ato é beber e nem todo mundo aprecia o que bebe, principalmente os alcoólatras.

Fiz uma pesquisa no Grande dicionário Houaiss e encontrei as seguintes palavras e gírias substantivos ligados ao ato de beber: “beba”, “bebo”, bebaça, bêbada, bêbado, bebaça, bebarraz, bêbeda, bebedeira, bebedice, bêbedo, bebedor, beberrão, beberrica, beberrote, etc.

É disso que a publicidade moderna quer escapar, ligando causa e efeito, ou seja que a bebida causa bêbados. É interessante esta preocupação das empresas cervejeiras em associar o ato de beber a mulheres seminuas, à dança, excitação sexual, já que, muito ao contrário, sabe-se que beber causa impotência sexual.

Roberto Procopio


dez 28 2008

Ainda sobre a morte fora do espaço e do tempo

Volto ao tema, pois o acho elucidativo da crise atual da civilização ocidental.  O consumo excessivo de álcool foi o que teria provocado a morte da estudante no cruzeiro marítimo, os assim chamados (pelas operadoras de navios) de “cruzeiros universitários”. Se já é comum o excesso de consumo de álcool e drogas em qualquer festa universitária de qualquer lugar no mundo, mas principalmente Estados Unidos e Brasil, o que dizer de um lugar aberto, “deles”, sem vigilância, sem inspeção rigorosa de entrada de bebidas e drogas? Acredito ainda que, além da abertura dada pela visão do mar, seja de dia seja de noite, para um “liberou geral”, o navio em movimento enseja um maior consumo de tudo, já que dá a idéia de uma conquista do mar, de uma onipotência humana sobre o elemento. Que opção resta aos cordeiros, aqueles que seguem a liderança, e que, por incrível que pareça, são a maioria, senão a de aderir ao comportamento ditado como normal naquelas circunstâncias? Já que a bebida tem um caráter ritualístico, sacrifical mesmo, não seria demais imaginar que presenciamos uma oferenda grupal de um bando de irmãos freudiano, num ritual totêmico para apaziguar a todos pela ritualística morte do pai, ritual de passagem para a maioridade. Quanto à ausência de fiscalização mais rigorosa, me remete a hipocrisia geral prevalecente na sociedade, dos pais aos que deveriam fiscalizar este tipo de cruzeiro, pois é muita ingenuidade imaginar que um grupo enorme de jovens (1.000?) deixado soltos vão zelar pelo próprio comportamento em mar aberto e apenas com Netuno por testemunha. Não posso deixar de lembrar que em muitas línguas latinas e germânicas a palavra esquife vale tanto para navio como para caixão. 

Roberto Procopio     

 


dez 28 2008

A morte fora do espaço e do tempo

Penso que as festas raves têm algumas características interessantes, idiossincráticas mesmo:

1)      O solo é um terreno onde as pessoas podem pisar o pé no chão, sentir o contato com a mãe Terra, aí adquirindo um sentido mítico enorme;

2)      O comportamento é o do grupo todo não determinado individualmente, o que pode ajudar a explicar os excessos, já que não há freio individual;

3)      Há um despojamento da personalidade individual em favor do pertencimento ao grupo, que decide os comportamentos de todos;

4)      Há uma sensação de estar ausente do espaço e do tempo e das regras da vida cotidiana, adquirindo um caráter de ir “contra as regras”;

5)      As festas duram dois ou três dias, ou até mais, uma eternidade nos dias atuais, também aí incentivando o excesso de álcool e drogas;

6)      É um rito iniciático, de passagem para muitos, cujo abandono que as drogas propiciam confere o mesmo caráter que os rituais indígenas.

Fico a me perguntar que ritos de passagem abandonamos para que fossem substituídos por outros tão perigosos e mortais, já que deixamos os estágios de comportamento tribal há muito tempo, e é por isso que nos reconhecemos como civilizados.

Se pensarmos que tipo de promessa a mais nova onda dos cruzeiros raves trazem, já que são realizados em mar aberto, sem a vigilância ostensiva da polícia, apenas com o mar como testemunha, dá para imaginar os estragos que podem provocar nos que se apresentam para serem iniciados, que é o que parece que aconteceu pela mais recente morte de mais uma vítima da pós-modernidade e que morreu sozinha em seu camarote, sufocada pelo próprio vômito . Por incrível que pareça, já se escuta um certo alívio na sociedade hipócrita pós-moderna ao atribuir apenas ao álcool (e não às drogas) a morte da jovem de 20 anos, como se os abusos do álcool, uma droga lícita, legalizada, não fossem também indicativos de distúrbios graves entre o sonho e a realidade da vida pós-moderna, propiciando a fuga da realidade. Como disse o delegado que preside o inquérito: “a moça morreu por pertencer a uma juventude que quer tudo a toda hora”. Não poderia ter se expressado melhor.

Roberto Procopio


dez 28 2008

Bibliografia Pós-Modernidade

Bibliografia Pós-Modernidade

É claro que a bibliografia não é exaustiva, mas é uma maneira de entrar no assunto. Quem se interessar, é só dar uma checada na lista. Todos os livros estão disponíveis, sem custo, pela Biblioteca Harold Chimp. Classifiquei, por ordem de importância ascendente (1), (2), (3). Os com asterisco  (*)são leituras mandatórias.

(1) (*) A era do vazio, Gilles Lipovestsky, Assunto: pós-modernidade  

 (1) (*) A felicidade Paradoxal – Gilles Lipovestsky , assunto: pós-modernidade

(1) Amor Líquido, Zygmunt Bauman, assunto: pós-modernidade

(1) Aprender a viver, Luc Ferry , curso de filosofia que situa Nietzsche e a filosofia pós-moderna

(1) Cidades para um mundo pequeno – Richard Rogers , arquitetura pós-moderna

(1) Civilization and its discontents – Sygmund Freud , A crise da Modernidade (livro básico e que inspirou muitos autores pós-modernos)

(1) Condição pós-moderna – David Harvey , pós-modernidade, análise abrangente da cultura e das artes

(1) (*) Contingência, Ironia e Solidariedade, Richard Rorty , soluções para a crise pós-moderna

(1) Ética pós-moderna – Zygmunt Bauman , pós-modernidade e seus conflitos

(1)Globalization and its Discontents, George Stieglitz , globalização

(1) Identidade, Zygmunt Bauman, pós-modernidade

 (1) Liberdade ou Capitalismo, Ulrich Beck , capitalismo globalizado,

 (1) Medo à Liberdade, Erich Fromm , livro que inspirou Bauman, modernidade

(1) Medo líquido, Zygmunt Bauman, pós-modernidade

 (1) Modernidade e Ambivalência, Zygmunt Bauman , pós-modernidade

(1) (*) Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman , pós-modernidade

(1) (*) O mal-estar da pós-modernidade, Zygmunt Bauman , pós-modernidade (inspirado em Freud)

 (1) (*) O valor do amanhã, Eduardo Giannetti  , crise dos valores da atualidade,

 (1) Pós-Modernismo – Frederic Jameson – análise das artes e cultura pós-modernas

(1) (*) Simulacro e simulação – Jean Baudrillard, o mais importante livro da pós-modernidade! Imperdível

 (1) (*) Uma breve história do futuro – Jacques Atali – como será o futuro da pós-modernidade. Imperdível!

(1) (*) Uma verdade inconveniente – Al Gore – a crise ambiental da globalização.

(1) (*) Vida para consumo, Zygmunt Bauman – pós-modernidade, imperdível!

(1) (*) Vidas desperdiçadas – Zygmunt Bauman – pós-modernidade, imperdível

(2) A cultura do novo Capitalismo – Richard Sennett  - crise do capitalismo e alternativas

(2) A desintegração americana, Paul Krugman – a crise do império americano

(2) A era dos extremos, Eric Hobsbawn – entrada na Modernidade

(2) A ética protestante e o espírito do capitalismo – Max Weber – livro importante para entender as fases anteriores e formativas do capitalismo

(2) A felicidade Desesperadamente, André Comte-Sponville - conflitos de valores na pós-modernidade

(2) A poética do devaneio – Gastón Bachelard – alternativas à crise de valores

(2) A transparência do Mal, Jean Baudrillard, - análise de paradigmas sociológicos,

(2) As origens do Totalitarismo, Hannah Arendt – para entender a modernidade e a crise que levou a pós-modernidade, principalmente Heidegger

(2) Capitalismo e Liberdade, Milton Friedman, para entender o capitalismo liberal

(2) Caos, James Gleick, a nova teoria do caos, visão alternativa e complementar à visão clássica de um mundo da física clássica e quântica.

(2) Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre, livro fundamental para entender a formação social do Brasil

(2) DNA, o segredo da vida, James Watson, livro do co-descobridor da estrutura do DNA com várias análises das possibilidades futuras (clonagem, genética, etc.).  

(2) Famílias, amo vocês, Luc Ferry, análise de alternativas à crise de valores pós-moderna

(2) Formação econômica do Brasil – Celso Furtado – outro livro fundamental para entender a formação econômica do Brasil

(2) (*)Futuro Proibido – diversos autores – ficção científica pós-moderna, com varias idéias verossímeis e assustadoras sobre o futuro da pós-modernidade

(2) Heroína e Rock & Roll, Nikki Sixx  - diário do líder da banda Mötley Crüe sobre as suas experiências (limítrofes) com heroína injetada.   

(2) (*)Lolita, Vladimir Nabokov  - romance que inaugurou a literatura pós-moderna. Imperdível, pela ausência de valores que mostra.

(2) Mal-Estar na Modernidade – Sergio Paulo Rouanet – Pós-modernidade, principalmente o capítulo com o mesmo nome, calcado em Freud.

(2) Macunaíma – Mario de Andrade – obra literária marco da Modernidade no Brasil

(2) O direito dos povos – John Rawls – o maior jurista da atualidade, com várias alternativas de aplicação do direito como forma compensatória.

(2) O castelo dos destinos cruzados, Ítalo Calvino – romance pós-moderno sobre o esvaziamento da linguagem escrita

(2) O fim da autoridade – Alain Renault – crise da autoridade no mundo pós-moderno.

(2) O fim da modernidade, Gianni Vattimo – pós-modernidade

(2) O futuro da Religião, Richard Rorty e Jacques Derrida – entrevista com dois papas da pós-modernidade, com análise de alternativas

(2) O mundo é Plano, Thomas L.Friedman – economia globalizada

(2) O que é uma vida bem sucedida, Luc Ferry – alternativas à vida pós-moderna

(2) Os donos do poder, Raimundo Faoro – para quem quiser entender o Brasil do século XX

(2) Os estabelecidos e os outsiders, Norbert Elias – introdução sociológica experimental

(2) (*) Os meios de comunicação – Marshall Mcluhan  - um dos mais importantes livros sobre a época que se iniciava

(2) (*)O tempo das tribos – Michel Maffesoli – alternativas Pós-modernas

(2) Papel Máquina – Jacques Derrida – pós-modernidade

(2) (*) Pé na Estrada – Jack Kerouak – romance beat pós-moderno

(2) Raízes do Brasil – Sergio Buarque de Holanda – para quem quiser entender a formação social do Brasil

(2) Tratado de Ateologia – Michel Omfray – religião na pós-modernidade

(2) (*) Vigiar e Punir – Michel Foucault – livro fundamental para entender modernidade e pós-modernidade

 (3) (*) A fogueira das vaidades – Tom Wolfe – romance pós-moderno

(3) A sombra das maiorias silenciosas – Jean Baudrillard – análise sociológica

(3) Budapeste – Chico Buarque de Holanda – romance pós-moderno brasileiro

(3) Caos, Hakim Bey – o tipo de livro quebra-tudo, que não deixa nada a não ser caos na sua esteira

(3) De luxe, Dana Thomas  - para entender a moda na pós-modernidade

(3) Diário, Chuck Pahlaniuk  - romance pós-moderna, por um dos seus papas

(3) Fahrenheit 451 – Ray Bradbury – ficção pós-moderna

 (3) Ficar ou não ficar – Tom Wolfe – vários estudos sobre comportamento pós-modernos, sendo o primeiro imperdível.

(3) O choque das Civilizações, Samuel Huntigton – como está o convívio do ocidente com as demais civilizações após séculos de brigas e convivência?

 (3) O discurso do ódio – Andre Gluksman – estudos sobre os mecanismos sociais que disparam os distúrbios de comportamento.

Roberto Procopio


dez 28 2008

Carnavais, Malandros e Heróis II

Este livro é tão bom que não cabe num texto curto (o primeiro post sobre ele está aqui) e, por isso, volto a ele, com importantes detalhes (sic!) que não comentei no texto anterior.

Na sociedade brasileira (hierarquizada) cada um tem que saber o seu lugar, e é por isso que, vez por outra, se vê as tais das carteiradas: “ponha-se no seu lugar”, “cada macaco no seu galho”, “você sabe com quem você está falando?” etc.

O autor, Roberto DaMatta, remete a distancia que mantemos da nossa sogra, e até os epítetos desairosos sobre ela que viraram prática geral (Feliz foi Adão que não teve Sogra, Adoro a sogra da minha mulher, etc.) a um interdito contra a possibilidade de um “incesto” envolvendo a sogra, citando uma frase que capta a essência do distanciamento que nos impomos: “gosto tanto da minha sogra (que me deu esta mulher maravilhosa), que a quero muito distante de mim!”

O bigode, segundo ele, passou a ser mais usado após a abolição da escravatura, como símbolo de distanciamento social dos negros, que se tornaram, pelo menos na letra da lei, cidadãos como qualquer outro, pelo menos conforme a lei. O mesmo com relação aos outros símbolos de status, como bengala, chapéus, cavanhaque, etc.     

A distinção entre indivíduo (o povo) e a pessoa (os privilegiados, os que têm relacionamentos, família, nome, etc.), fundamental para a hierarquização aludida acima.

Embora ache que, vez por outra, há uma forçada de barra por parte do autor no sentido de encaixar a realidade ao modelo teórico esboçado por ele, penso que o livro é leitura obrigatória para todos que pretendem entender um pouco mais a realidade brasileira.

Roberto Procopio 


dez 28 2008

“Cidades para um mundo pequeno”

Do arquiteto inglês Richard Rogers, escrito em linguagem fácil e não profissional, fartamente documentado com fotos e sketches, é um documento importante sobre a participação da arquitetura como instrumento da pós-modernidade, ao mesmo tempo em que mostra as opções para uma arquitetura de reação frente a um mundo atual que se desumaniza. O título do livro, bem sugestivo, demonstra o esgotamento do projeto iluminista e racionalista moderno que pressupunha um mundo e uma Natureza de riquezas inexauríveis e a ser explorado pelo e em benefício única e exclusivamente do ser humano. Fincadas todas as bandeirinhas, o custo da degradação do meio ambiente torna-se cada vez mais intolerável, chamando a atenção de todos para a necessidade de se redimensionar os processos humanos no sentido de um melhor equilíbrio com o meio circundante.

Algumas idéias expostas no livro são extremamente cativantes e claras, como, por exemplo, a da arquitetura que, na pós-modernidade, eliminou os espaços de convívio público, que foram transferidos para os shopping centers. Rogers cita dados impressionantes sobre a relação inversa entre a fluidez do tráfico nas grandes cidades, mais um dos objetivos da arquitetura urbana pós, e a diminuição do nível de relacionamento humano nas áreas afetadas. Outro conceito importante é a da arquitetura que hoje se preocupa em construir prédios mono funcionais, ou seja, com apenas uma única função, o que, é claro, acarreta uma muito maior necessidade de deslocamentos intra urbanos, queima de combustíveis fósseis, etc.

O livro é um bom exemplar sobre o custo da arquitetura pós-moderna, abrindo um sério e competente debate sobre o assunto.

Roberto procopio


dez 28 2008

“Vidas desperdiçadas”

Do pensador inglês-polonês Zygmunt Bauman, o livro analisa o fim do mundo como espaço de remoção para longe dos detritos da produção capitalista, o lixo, que, na visão de Bauman tanto serve para designar a montanha de dejetos que a industrialização promove, bem como os excluídos sociais, aqueles que perderam a sua função num mundo pós-moderno. Historicamente, os outcasts, os proscritos eram enviados para as regiões longínquas à matriz colonial, regiões como a Austrália, o Canadá, Estados Unidos, Brasil, etc., de certa forma se integrando como agentes da expansão do capitalismo colonial e industrial. Esta ejeção para fora do espaço não é mais viável, pois não há mais áreas desocupadas viáveis para os proscritos, os banidos social e economicamente e o mundo pós-moderno tem que conviver com eles, com este resto, este restolho, este lixo humano, que não tem outra função a não ser incomodar os ainda inseridos na sociedade pós, da classe média à classe dominante.

A análise de Bauman é sempre cáustica, botando a mão na ferida, ao dizer, por exemplo que, se há 30 anos preocupávamo-nos com a reeducação dos internos em instituições prisionais, já que eles poderiam ser ocupados produtivamente na economia formal ou informal, hoje isto já não ocorre, e a única coisa que importa à sociedade do lado de fora é o tamanho e a espessura do muro que nos separa deles. Outro ponto importante: com a perda de espaço de representatividade numa economia globalizada, os governos nacionais cada vez mais se interessam em criar aparatos de segurança extremamente visíveis e que se colocam em estado de prontidão contínua frente ao perigo real ou criado dos inimigos do estado, os terroristas globalizados, que é o que hoje vemos em todas as áreas públicas das principais metrópoles mundiais.

O livro, como praticamente todos do grande filósofo europeu, é imperdível e leitura recomendada no site a todos os que queiram entender melhor o que é a pós-modernidade.

Roberto Procopio


dez 28 2008

Heroína e Rock and Roll

Escrito pelo líder da banda Mötley Crüe, Nikki Sixx, o livro é um diário pessoal de Nikki cujas anotações começam em Dezembro de 1986 e terminam no mesmo mês do ano seguinte. No diário desfilam as experiências de Nikki com todo tipo de droga, principalmente heroína (injetada), álcool, cocaína, assim como todo o seu drama pessoal de um relacionamento com pai e mãe esgarçado, já que o primeiro o abandonou quando ele tinha três anos de idade e a mãe entregou-o ao cuidados dos avós maternos. Abundam também as bandas que eram sucesso (Whitesnake, Prince), bem como o convívio quase fraternal entre Nikki e Slash, o guitarrista da banda então em ascensão Guns and Roses. É o tipo de livro que cobre o espectro sexo, drogas e rock and roll e mostra o céu e o inferno da vida do baixista, que, após vários relapsos na droga, conseguiu se livrar delas e constituir uma vida mais equilibrada, conseguindo o prazer e o equilíbrio principalmente através da música que compunha. Os traficantes rondando o músico, que chegava a gastar 3 mil dólares por dia em drogas (em 1986) mostram a dificuldade de abandonar o vício, inclusive acompanhando-os nas turnês que promoviam pelos EUA. Do ponto de vista do projeto gráfico, ou seja, todo o design do livro, misturando fotos do músico se drogando, fazendo sexo, e uma série de páginas (na realidade todas) em cores preta, branca e vermelha, com desenhos extremamente incômodos de toda a parafernália de apoio ao vício (seringas, cachimbos, álcool, lâminas, etc.) sendo mostrada invadindo o corpo do músico, penso que este é um dos livros mais atraentes (e repulsivos) que li (vi), mas fica a idéia da tragédia pessoal de todos que se envolveram nesta estrada. Há, também, muitas curiosidades, que são as excentricidades de Nikki, que comprou um Porsche zero apenas porque o seu amigo ia comprar um, que recebeu um cheque de U$680,000 de direitos autorais pelo correio, que detestava outros membros do grupo e competia com outras bandas pelo pódio no mercado americano, etc. É um excelente livro para quem quiser se aprofundar no mundo dos bastidores do sexo, drogas e rock and roll.

Roberto Procopio     


dez 28 2008

Namoro

Uma das vantagens da observação do “diferente” é que ela nos possibilita reavaliarmos o normal. Explico-me: em outro texto (O beijo gay) comentei sobre a naturalidade com que vi casais de jovens homossexuais se assumindo publicamente, inclusive se beijando de um modo bem natural. Fiquei, contudo, encafifado com o seguinte: não me lembro de ter visto nos últimos anos casais de jovens namorados caminhando de mãos dadas como se via há uns 15 anos ou mais. Será que eu estou cego e não vejo o quê todos vêem?

Isto me lembrou da minha única ida à Alemanha, em 1998. Não vi pessoas sorrirem, mas vi apenas pessoas que ou estavam sérias, compenetradas ou que gargalhavam. Mas não as vi sorrir, e penso que o sorriso é uma expressão da alma, da sua satisfação consigo mesma, sem necessidade de se mostrar. Assim como ocorre com o namoro de mãos dadas, que não é nem a seriedade de duas pessoas (namorados) caminharem juntas lado a lado, nem o beijo em público, recatado ou não. Assim, deixo aqui duas perguntas:

- não se namora mais de mãos dadas? Só vejo casais mais maduros fazendo isso.

- por quê?

Roberto Procopio  


dez 28 2008

O beijo gay

Quando estive na avenida Paulista numa sexta-feira emenda de feriado fiquei surpreso (e contente) em ver alguns casais gays (homossexuais) andando de mãos dadas pelo passeio da avenida, bastante naturais e tranqüilos, curtindo a vida e o passeio como todos os demais casais (aliás, não vi mais casais de jovens namorados heterossexuais circulando de mãos dadas). Achei muito legal, pois todos têm direito às suas escolhas religiosas, políticas, culturais e sexuais, penso eu, preservados os limites do outro, que é o tema da famosa regra de ouro: “não faça para os outros o quê não queres que façam para ti”. Não vi a regra de ouro ser infringida, já que ninguém estava sendo incomodado pela liberdade do casal.

Corta a cena: almocei num restaurante tipo delivery e vi um casal de namorados heterossexuais se beijando à minha frente e achei normal, já que a coisa não passou dos limites da regra de ouro. Mais à frente, no Conjunto Nacional, vi a mesma cena se repetindo com um casal gay, ou seja, eles estavam se beijando, e também achei normal, já que também eles não passaram do limite, limite que, penso, para os dois casos, seria o exibicionismo, o exagero.

Penso que as opções sexuais de cada um vão ser cada vez mais aceitas por todos e isso é muito bom, e penso que, aos poucos, o caráter de excepcionalidade da comunidade gay será normalizado, normatizado (isto é,virará lei civil) e saberemos conviver com os diferentes. Pelo menos esta é a minha visão.

Roberto Procopio 


dez 28 2008

Visita ao MASP

Visitei o Museu de Arte de São Paulo, que não visitava há pelo menos uns 10 anos. Aproveitei uma manhã de sexta e fui lá. Foi muito bom e já combinei com a Raquel Espigado, a marqueteira e capitalista do site, que vamos marcar nossas reuniões em locais como este. Os próximos serão: Pinacoteca do Estado, MAM (Museu de Arte Moderna), Museu de Arte Sacra, e assim por diante. Chega de nos reunirmos em shopping centers!!

Quanto ao MASP gostei de tudo que vi, mas, principalmente, uma obra de Salvador Dali recentemente incorporada ao acervo e da qual gostei muito e que está exposta logo à saída do elevador do Segundo Andar. A idéia do MASP de fazer mostras parciais foi muito boa (não sei se é recente, pois, como disse, não vou lá há muito tempo) e consegui em três horas ver tudo (ou quase) tudo que queria e que já havia selecionado no catálogo completo do MASP que tenho  e que ganhei de um amigo (não , infelizmente, este item não está disponível na Biblioteca Harold Chimp) e que serve para acompanhar minhas visitas lá, que, espero, serão mais freqüentes a partir de agora. Do que mais gostei foi – pasmem! – de ver a obra recuperada de Candido Portinari e uma obra (Ateliê) de Almeida Júnior, em frente das quais poderia ter ficado parado extático por uns 30 minutos.

O pessoal do museu é muito atencioso e atento, mas acho um risco danado deixar obras tão valiosas (Rembrandt, Vangogh, Picasso, Modigliani, Tarsila do Amaral, Toulouse-Lautrec, etc ) expostas a algum pirado, já que a segurança, quando agir, agirá post facto, isto é, depois da merda ter acontecido. Acho o horário também um absurdo, já que o MUSEU só abre às 11, fechando às 18hs, o que parece um resquício de burocracia, já que o Museu é ligado administrativamente ao Governo do Estado de São Paulo. Outro absurdo: R$15,00 reais por um ingresso é muito caro, penso que deveria ser, no máximo, R$7,00.

Ao visitar o museu lembrei-me de seus fundadores e idealizadores, Assis Chateaubriand e o marchand Petro Maria Bardi, mas isto é uma outra estória, que fica para outra vez.

Roberto Procopio

 


dez 27 2008

Dogville

Dogville é realmente barra pesada e um filme tipo razzia, ou seja, que procura não deixar espaço para nada, ou seja, para qualquer esperança quanto ao ser humano. Parece-me, contudo, que esta é a característica pessoal do Diretor Lars Von Trier, uma pessoa claramente amarga e que, como fica claro em todos os  depoimentos, tem grande dificuldade de relacionamento, especialmente com homens, como ele mesmo reconhece no DVD de apoio e que contém as entrevistas pessoais. Não conheço nada da vida pessoal dele, mas penso que ele, pelo menos à época do filme, mostra-se como um homossexual enrustido, ou seja, ainda “no closet”, como se diz. A carga que ele exige do elenco é enorme, principalmente de Nicole Kidman, que se entrega de corpo e alma à filmagem, mas fica evidente que a cena da violência sexual (estupro?) em série que sua personagem sofre exigiu muito dela. Devemos lembrar que todos ficaram praticamente confinados no local até que o filme chegasse ao ideal que o diretor queria, e que ninguém conseguia entender, já que a peça estava pronta ou se formando apenas na cabeça dele, muito antipático e fraco de relacionamento.

 O Filme  segue uma linha que está se firmando e que dispensa o cenário sofisticado e paisagens dos filmes modernos e de bilheteria, e é exatamente contra isso, contra a fácil montagem, nos dias de hoje, de cenários artificiais simulando natureza, cidades, que o diretor se insurge, como que dizendo: já que é para fingir que o cenário e a paisagem são reais, melhor não ter nada, apelando assim ao talento e desempenho dos atores, como se fosse uma peça de teatro, e que atores há no filme!: Lauren Bacall, Nicole Kidman, Ben Gazarra, Paul Bettany, etc.    

 Penso que o grande perigo do filme é nós nos colocarmos na situação da Grace (Nicole Kidman) entendendo que qualquer esforço que fizéssemos também seria fadado a fracassar, mas, repito, a visão é exclusiva do diretor, um notório pessimista que procura, sabe-se lá porque, desancar a sociedade americana.  

Uma outra leitura, esta mais otimista, é ver o filme como um decalque, uma visão estereotipada da sociedade, mas que, instando-nos à reflexão, exige de nós uma postura mais humana frente ao outro, à Face, como se diz.

 

 Roberto Procopio


dez 27 2008

Carnavais, malandros e heróis

Um livro sensacional, que recentemente li e que estava na minha lista de “leituras necessárias” há pelo menos uns dois anos. Valeu a pena a espera e lê-lo com sofreguidão, com emoção, já que o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta atinge, pelo livro, a altura de um Sergio Buarque de Holanda e seu “Raízes do Brasil”, de Gilberto Freyre e “Casa Grande e Senzala” e de Raymundo Faoro e seu “Os donos do Poder”, todos estes livros disponíveis na biblioteca Harold Chimp.

Fundamentalmente o livro analisa a importância do carnaval como elemento necessariamente inserido na totalidade da cultura brasileira, pela sua crítica descompromissada e jocosa da sociedade séria, ou seja, aquela do nosso cotidiano de trabalho, família, lar, igreja, governo, etc., assim equilibrando o convívio dos despossuídos, os que se tornam nobres e importantes apenas no carnaval, os empregados domésticos, os excluídos, etc., com os dominantes, os que oprimem os demais no dia-a-dia (o livro é de 1976). As análises que o antropólogo faz da contraposição na sociedade brasileira das funções da rua (selva, necessidade de explicitar a hierarquia a toda hora, desorganização) e do lar (aconchego, hierarquia, organização) é muito prazerosa de se ler. A explicação da “carteirada”, ou seja, o famoso “sabe com quem está falando” mereceu um capítulo à parte e é central para a explicação do nosso dia-a-dia na selva urbana. A comparação entre o carnaval, a parada militar e a procissão religiosa é também significativa e elucidativa do nosso dia a dia, explicando-o. A comparação entre o nosso carnaval e o carnaval americano de Nova Orleans é fantástica. A idéia geral é a de que o carnaval, bem como a parada, não são exceções e sim um reforço da regra de convívio social, um cimento social para o restante do calendário. Um livro que não pode deixar de ser lido por todos que se interessam a entender melhor a sociedade brasileira onde vivemos.

Roberto Procopio        


dez 27 2008

Nudge: o empurrão para a escolha certa

O livro, bastante recente, de autoria de Richard H. Thaler e Cass R.Sunstein, trata, de modo bastante fácil ao nosso entendimento, das questões ligadas às difíceis escolhas da vida pós-moderna, já que, se não escolhermos adequadamente o que queremos para o nosso consumo, para o nosso bem estar, para nossa vida pessoal e profissional, é bem provável que aceitemos, sem o perceber, o que a publicidade e o marketing nos empurrar, apelando para os nossos sentidos. Um exemplo vai ajudar: se somos responsáveis por um supermercado, como podemos ajudar os consumidores que lá adentram a fazer escolhas certas, no sentido de adequadas, para a nossa saúde, para o nosso bem-estar? O tema, sem dúvida, é espinhoso, pois é bem possível que para muitas pessoas a escolha certa seja a de ingerir um bocado de chocolates, de Big Macs, cervejas, refrigerantes gasosos, etc., deixando as assim chamadas escolhas certas (frutas, verduras, refrigerantes sem calorias, etc.) de lado, na prateleira.

Os autores, economistas do comportamento da Universidade de Chicago, a mesma do recentemente falecido papa do liberalismo econômico, Milton Friedman, reconhecem que a tarefa que se propõem é espinhosa, mas penso que eles têm um ponto a favor, ao propor uma série de mecanismos com os quais podemos identificar até que ponto estamos sendo manipulados (ou não) pelo marketing pós-moderno. É uma boa leitura para todos nós que somos “acted upon”, ou seja, somos apassivados na relação comercial pós-moderna, já que alguém vai nos dar um empurrão, mas, é claro, a polêmica que o livro causa é um de seus maiores méritos, pois coloca-nos para refletir sobre os mecanismos apassivadores da sociedade pós-moderna.

Roberto Procopio  


dez 26 2008

Dogma do Amor revisitado

No filme Dogma do Amor, já comentado por mim aqui, uma das seqüências menos verossímeis é quando vemos um corpo de um homem jogado numa cesta de lixo nas ruas da poderosa ilha de Manhattan, em Nova Iorque. Impossível de acontecer isto no futuro, mesmo que seja em 2021, ano em que o filme é ambientado. No diário de  Nikki Sixx, líder e baixista do conjunto Motley Crue, o mesmo relata que ele próprio, dado por morto por seu traficante que havia lhe injetado drogas de má qualidade e que lhe causaram uma pesada overdose, não vê outra saída a não ser, para não se complicar, simplesmente abandoná-lo numa cesta de lixo em Londres, evadindo-se dali o mais rapidamente possível. O ano em que isso ocorreu? 1986, ou seja, há 22 anos! Quanto ao Dogma do Amor, podemos arriscar novo palpite?

Roberto Procopio  


dez 26 2008

O erro de Deus (segundo David Hume)

Um dos maiores expoentes do iluminismo, o escocês David Hume alertou sobre os quatro erros de Deus ao fazer o mundo, sendo um deles o de não ter criado apenas uma escala de prazer para incentivo ou desestímulo às ações humanas, ou melhor, uma gradação de prazer, sem dor no universo animal e humano. O argumento não se sustenta: estou lendo o livro Heroína e Rock and Roll, escrito pelo líder do Motley Crue, banda de sucesso nos anos 80, na qual Nikki Sixx relata em seu diário as sucessivas vezes em que recorreu à heroína para aliviar-se da dor que a ausência do uso desta droga propiciava, ou seja, mostrando que o quê começou como apenas uma escala de prazer, que seria o ideal de Hume, passou a representar exatamente o seu contrário, uma escala de dor que se eliminava (num entorpecimento) em uma ausência de dor e não mais prazer. A síndrome da abstinência desbanca aqui a pretensão iluminista de Hume.

Roberto Procopio 


dez 26 2008

A caixa preta de Darwin

Escrito por Michel Behe é um dos meus livros preferidos, por colocar em cheque a teoria da evolução de Darwin, apresentando, como alternativa, de modo fácil e compreensível para o leigo (como eu) a idéia de um design inteligente a presidir a movimentação das espécies. Vamos recordar um pouquinho e lembrar que o quê Darwin inaugurou foi um sério debate sobre a idéia religiosa e científica (à época) que dizia que toda a criação é um ato da vontade divina, que fez o mundo, seus seres, plantas, etc. de um ato único, a partir do nada (ab nihilo, como se diz em latim). Um fiz porque assim o quis. Para Charles Darwin, conforme o seu livro “A origem das espécies”, existe uma interação entre ambiente e espécies e, da interação das últimas ao ambiente, ou seja, da sua adaptabilidade ao ambiente (flora,fauna, reino mineral) vai depender a sua sobrevivência e perpetuação, regra válida para todo o reino animal, inclusive para o ser humano. O assim chamado neo-darwinismo, evolução das idéias originais do biólogo inglês afirma que as mutações genéticas de caráter randômico garantem a possibilidade desta interação entre natureza e espécies, tudo não passando, assim, na opinião destes fervorosos cientistas, de uma ação do acaso, sem qualquer intervenção divina.

Os adeptos do design inteligente, e Michel Behe é um dos mais proeminentes, contra-atacam o darwinismo ao levantar a questão sobre como se formam os assim chamados mecanismos complexos mono funcionais, que estão presentes em toda a parte, já que os mecanismos deste tipo (usam muito, como analogia, a idéia da ratoeira) perderiam a sua funcionalidade ao perderem uma das partes, mostrando, assim, que, ou são montados de uma vez só, o que é impossível, ou são montados por partes, em etapas, para adquirir a mono-funcionalidade apenas na conclusão deste processo de montagem, daí desbancando a idéia de uma evolução ou adaptabilidade que se faz por etapas todas elas em resposta a uma funcionalidade imediata e ditada pela necessidade da adaptação a um novo desafio do meio.

Simplifiquei bem a exposição, mas, quem quiser, vale à pena conferir no próprio livro!

Roberto Procopio


dez 26 2008

A teoria da classe ociosa (The theory of the leisure class)

De Thorstein Veblen, um dos mais importantes economistas do comportamento, o livro foi publicado em 1900, mesmo ano que Freud publicou o livro marco inaugural da Psicanálise, “Interpretação dos sonhos”. O objetivo de Veblen, tido como mais irônico do que realmente é, é o de mostrar que o comportamento ostentatório dos milionários americanos da virada do século XIX não tinha contrapartida com nada anteriormente visto, já que detinham tanto dinheiro que não conseguiam gastar ou ostentar sozinhos, precisando de uma entourage que os acompanhasse e ostentasse a fortuna deles. Veblen traça um paralelo desses hábitos com os hábitos de tribos primitivas que também avaliavam o poder pela quantidade de riqueza que o líder pudesse apresentar, sendo aí também necessária a aliança com funcionários e aliados para que ostentassem o máximo possível em nome do chefe do grupo. É um livro marco da Economia e Veblen um precursor de John Kenneth Galbraith, famoso economista assessor presidencial de John Kennedy. A teoria da classe ociosa está disponível em inglês na Biblioteca Harold Chimp.

Roberto Procopio


dez 26 2008

A fogueira das Vaidades (The Bonfire of Vanities)

O autor é do americano Tom Wolfe e o livro serviu de base para filme homônimo estrelado por Tom Hanks. Basicamente é a estória de um financista extremamente bem sucedido (Sherman McCoy) e que, para manter o seu ato funcionando, ou seja, para se manter no topo, compra todo o pacote da vida a que se julga ter direito (amante, apartamento luxuosíssimo em Manhattan, ao custo mensal financiado de U$22,500!, filha nas melhores escolas, mulher decoradora famosa, carros da última moda, etc.) até que as coisas começam a dar errado. Penso que, mais do que ninguém, Tom Wolfe, jornalista do New York Times que resolveu virar escritor (de sucesso) e que detém uma erudição sobre a vida moderna difícil de ser equiparada por outros, passa, neste romance de 800 páginas, o que é ficar no topo do mundo executivo, descrevendo a ascensão e queda de Sherman, que só vai encontrar a si mesmo, seu eu mais profundo, quando luta pela sua sobrevivência pessoal, mostrando que, e esta é uma das regras do jogo, no mundo corporativo, você sobe e desce sozinho, pois ninguém vai dar a mão a um “looser” que não soube respeitar as regras do jogo ou fingir que as respeitava.

Embora já com uns 20 anos desde a primeira edição, é um livro muito bom para entender a pressão e o dia-a-dia do mundo corporativo, onde tudo vai bem enquanto você não for pego.

Roberto Procopio


dez 26 2008

O que é o tempo?

Esse é um assunto que tem me incomodado bastante, ou seja, saber até que ponto podemos entender o conceito de tempo, principalmente a partir das formulações de Einstein (que só conheço por cima, é claro!) sobre a dimensão do espaço-tempo. Na minha humilde ignorância, penso que o tempo é uma medida da mudança das coisas em relação a elas mesmas (movimento e corrupção) e em relação às outras coisas (movimento e corrupção recíprocas), todas, é claro, pertencentes ao Universo e não apenas à Terra. Fico confuso quando penso no conceito de tempo aplicado à singularidade do Universo, ou seja, aquele ponto menor do que uma cabeça de alfinete, ou seja, de tamanho infinitesimalmente pequeno e que compreendia uma densidade infinitesimalmente grande, ou seja, condensando, comprimindo nele toda a energia e matéria do Universo. Havia aí tempo? Penso que não. Assim como, penso, não há sentido em se atribuir uma escala de medição de tempo, como a nossa de dias, meses, anos e mesmo anos luz, aos instantes (sic) que se seguiram ao assim chamado big-bang, a grande explosão ou descompressão que iniciou o Universo conforme conhecido, há 15 bilhões de anos. Há, também, que se colocar o tempo, ou a sua medição, como socialmente orientada, já que, para nós ocidentais de mentalidade racionalista e científica, que tudo pretendemos explicar, é importante a adoção de uma escala do tempo que sirva para medir eventos passados e futuros, o mesmo não fazendo o menor sentido para culturas como as indígenas, aborígenes, etc. que se servem de um calendário visual, natural, não analógico como o nosso, para determinar as suas atividades diárias de colheita, caça e culturais, tudo se inserindo numa mesma matriz cultural, de forte ligação entre o dia-a-dia e o supra-terrestre e, bem importante, por se tratarem de sociedades tradicionais que já encontraram a sua homeóstase, ou seja, o seu equilíbrio, não têm a necessidade de projetos futuros a não ser cumprir os rituais de grupo. Assim, um relógio não faz o menor sentido numa aldeia, a menos que sirva apenas para marcar o interfaceamento com os brancos, os caraíbas. Outro dia desses assisti um programa na CNU sobre uma tribo guarani no interior do estado de São Paulo, no qual o cacique dizia que estavam conseguindo se isolar dos brancos e só usavam dispositivos eletrônicos como o fax e o telefone para se comunicar com os mesmos, já que assuntos com a FUNAI e outros órgãos assim o requeriam. Disse, muito a propósito, que estava muito satisfeito já que as crianças guaranis que estavam nascendo já não precisavam aprender o português, sinal de um adequado isolamento. Quanto ao tempo do homem branco, penso que podemos até medi-lo arbitrariamente, mas jamais entendê-lo em sua essência (aliás, o quê entendemos em sua essência?).

Roberto Procopio