dez 27 2008

Dogville

Dogville é realmente barra pesada e um filme tipo razzia, ou seja, que procura não deixar espaço para nada, ou seja, para qualquer esperança quanto ao ser humano. Parece-me, contudo, que esta é a característica pessoal do Diretor Lars Von Trier, uma pessoa claramente amarga e que, como fica claro em todos os  depoimentos, tem grande dificuldade de relacionamento, especialmente com homens, como ele mesmo reconhece no DVD de apoio e que contém as entrevistas pessoais. Não conheço nada da vida pessoal dele, mas penso que ele, pelo menos à época do filme, mostra-se como um homossexual enrustido, ou seja, ainda “no closet”, como se diz. A carga que ele exige do elenco é enorme, principalmente de Nicole Kidman, que se entrega de corpo e alma à filmagem, mas fica evidente que a cena da violência sexual (estupro?) em série que sua personagem sofre exigiu muito dela. Devemos lembrar que todos ficaram praticamente confinados no local até que o filme chegasse ao ideal que o diretor queria, e que ninguém conseguia entender, já que a peça estava pronta ou se formando apenas na cabeça dele, muito antipático e fraco de relacionamento.

 O Filme  segue uma linha que está se firmando e que dispensa o cenário sofisticado e paisagens dos filmes modernos e de bilheteria, e é exatamente contra isso, contra a fácil montagem, nos dias de hoje, de cenários artificiais simulando natureza, cidades, que o diretor se insurge, como que dizendo: já que é para fingir que o cenário e a paisagem são reais, melhor não ter nada, apelando assim ao talento e desempenho dos atores, como se fosse uma peça de teatro, e que atores há no filme!: Lauren Bacall, Nicole Kidman, Ben Gazarra, Paul Bettany, etc.    

 Penso que o grande perigo do filme é nós nos colocarmos na situação da Grace (Nicole Kidman) entendendo que qualquer esforço que fizéssemos também seria fadado a fracassar, mas, repito, a visão é exclusiva do diretor, um notório pessimista que procura, sabe-se lá porque, desancar a sociedade americana.  

Uma outra leitura, esta mais otimista, é ver o filme como um decalque, uma visão estereotipada da sociedade, mas que, instando-nos à reflexão, exige de nós uma postura mais humana frente ao outro, à Face, como se diz.

 

 Roberto Procopio


dez 26 2008

Dogma do Amor revisitado

No filme Dogma do Amor, já comentado por mim aqui, uma das seqüências menos verossímeis é quando vemos um corpo de um homem jogado numa cesta de lixo nas ruas da poderosa ilha de Manhattan, em Nova Iorque. Impossível de acontecer isto no futuro, mesmo que seja em 2021, ano em que o filme é ambientado. No diário de  Nikki Sixx, líder e baixista do conjunto Motley Crue, o mesmo relata que ele próprio, dado por morto por seu traficante que havia lhe injetado drogas de má qualidade e que lhe causaram uma pesada overdose, não vê outra saída a não ser, para não se complicar, simplesmente abandoná-lo numa cesta de lixo em Londres, evadindo-se dali o mais rapidamente possível. O ano em que isso ocorreu? 1986, ou seja, há 22 anos! Quanto ao Dogma do Amor, podemos arriscar novo palpite?

Roberto Procopio  


dez 22 2008

Asas do Desejo (Der Himmel Uber Berlin)

Do diretor alemão Wim Wenders, também na categoria dos filmes complicados, Asa do Desejo (ou o céu sobre Berlin, em alemão) é, na minha opinião, a reversão da teoria platônica da separação do mundo das idéias (das formas, na nossa concepção ocidental) e do mundo material, que jamais se conectam. O enredo é passado nos dois mundos e acompanhamos a frustração dos dois anjos (isso mesmo!) que acompanham a Berlim do pós-guerra, que não conseguem mudar um só fato do cotidiano, tentando, sem sucesso, tocar, cheirar, em suma, sentir o que é ser humano, aspirando por tudo que faz parte do nosso mundo material. A cena mais forte é a de um suicida que se atira de uma das torres de uma catedral, caindo para a morte sem que o anjo possa fazer nada para impedi-lo (e bem que ele tentou!). Como curiosidade adicional, se é que o filme disse precisasse, a estrela do filme é Peter Falk, o protagonista da série de policial Columbo, famosa há uns 30 anos.

Aviso e alerto que não se trata aqui de um filme com enredo corrente, e sim um filme que requer muita queima de neurônio para pensar sem garantia de chegarmos a lugar nenhum.

Roberto Procopio  


dez 22 2008

Dogma do Amor (It´s all about love)

Para mim, o filme, embora também bastante ininteligível, como acontece neste tipo de filme, ou seja, filmes complicados, cheios de conteúdo pós-moderno, com muita coisa para pensar e refletir. Para não tirar o prazer de quem ainda não assistiu, vou falar de algumas passagens que, penso, servirão para aguçar o apetite de quem gosta de filme complicado.

- homem morto na escada rolante: “um personagem ao outro? Você o conhece? Não? Então passe por cima e pronto”;

- na passagem do cortejo de carros da grande bailarina por Nova Iorque, vê-se um cadáver jogado no cesto de lixo esperando a coleta;

- homens em Uganda empinados como balões;

- forte nevasca em Nova Iorque, só que no verão;

O filme, do diretor  Thomas Vinterberg, com Joaquin Phoenix, Sean Penn e Claire Danes nos papéis principais é uma visão do diretor a qual ele mesmo procura não explicar na entrevista que dá sobre a obra e que faz parte do dvd, ou seja, é uma obra dele para ele mesmo, mas eu gostei muito, principalmente pela visão que traz sobre o humano supérfluo, lixo, que é o que se fala hoje nos textos da pós-modernidade (Zygmunt Baumann).

Quem gostar de filme complicado, não deixe de ver.

Roberto Procopio  


dez 16 2008

Filhos do Matrix?

Não é estranho este pessoal que barra o acesso dos outros a eles ao utilizar óculos escuros, fone de ouvido e terno escuro, praticamente dizendo “eu não estou nem aí para você!?” Não passam a idéia de que não querer contato e de que são superiores, já que estão mais ligado a algum lugar qualquer do mundo, provavelmente um lugar mais exótico ou mais excitante do que o aqui e agora que vemos?  Será mesmo assim ou eles apenas estão tentando fazer passar os seus atos, mostrarem-se importantes? Acho que eles assistiram todos os filmes do Matrix e não conseguiram desligar. O que acham?

RP


dez 15 2008

A arquitetura da destruição

Filme documentário, de Peter Cohen, e que apresenta uma idéia, no mínimo, sui generis: o projeto de Adolf Hitler não deu errado, mas sim foi extremamente bem sucedido, já que o que o fracassado pintor austríaco promoveu, e o fez muito bem, foi uma arquitetura da destruição. As idéias de Peter Cohen são coerentes e há um livro dele com o mesmo título e assunto (o qual não li):

1)      A maior influência pessoal sobre Hitler foi exercida por Richard Wagner, notório anti-semita e que desenvolveu, a partir da mitologia hindu-germânica, a idéia de que há beleza na destruição, alguma coisa bastante patente nas principais óperas de Wagner, Parsifal e a quadrilogia do Anel dos Nibelungos.

2)      Hitler jamais teria demonstrado contrariedade com relação aos reveses e mesmo seis meses antes da derrota final dos alemães, aprovava projetos arquitetônicos para a sua cidade adotiva de Linz.

3)      Hitler se inspirava na arquitetura Greco-romana, principalmente na romana, mais grandiloqüente, inclusive preparando e projetando cenários de destruição em prédios que recém inaugurara;

4)      O projeto dele não se restringia a eliminar os judeus e outras minorias, indo, na realidade até um muito maior espectro da população alemã, a qual, segundo Hannah Arendt , deveria exterminar. É só lembrar que após a criação das SA paramilitares, as mesmas foram dizimadas pelas SS, numa roda de destruição que não teria fim, onda após onda de destruição se interpondo.

5)      Certamente Hitler se via como um enviado para purgar o mundo de seus males, mas nunca imaginou que conseguiria escapar da purgação.

A personalidade de Hitler era completamente esquisita e não podemos deixar de lembrar que ele, um pintor fracassado, tendo seus trabalhos sido recusados por importante escola de Belas Artes, e ele pode muito ter planejado uma vingança pela utilização simultânea do poderio bélico e arquitetura do Terceiro Reich, esta última a cargo de seu mais fiel companheiro, Rudolf Hess. Quem puder, assista ao filme e confira.

RP


dez 12 2008

“Clube da Luta” entre linhas

O filme mostra o esgotamento dos valores da sociedade, cujo valor mesmo aparente é apenas o consumo, e é por isso que o Tyler (Brad Pitt) vende sabonete feito de sobra das gorduras nas clínicas de lipoaspiração, querendo dizer que o processo acaba com todos nós virando também objetos de consumo, que é o que passa a ocorrer quando mexemos com o nosso corpo (lipoaspiração, tatuagens, piercing, botox, musculação);
 Não há dois personagens, apenas um, já que  Jack e Tyler (os personagens protagonizados por  Edward Norton Brad Pitt respectivamente)  são um só, um o consciente e o outro o irracional, que só entrou em cena de modo muito indireto e é alguma coisa que só percebemos no fim do filme, quando vemos o personagem principal lutando consigo mesmo no pátio onde se reuniam inicialmente, assim como já havia feito na sala de seu chefe, o que já foi uma tremenda “deixa” do diretor;
 Tyler (Brad Pitt) aparece em breves flashes, dois ou três (logo no início, quando o médico fala sobre os pacientes com câncer nos testículos, bem como no depoimento de um destes pacientes com câncer testicular), que você só consegue ver através da visualização frame a frame, pois é apenas um flash que mal dá para perceber, mostrando que alguma coisa já estava para acontecer;
 O filme mostra (na cena onde ele aparece na reunião do pessoal que tem câncer testicular) o esgotamento da linguagem, quando o uso de expressões vazias, por ser insuficiente, acaba detonando uma reação emocional, e o marido cuja mulher teve filhos com outro chora (de revolta) imediatamente após ter tido que estava muito feliz, por não ter encontrado uma linguagem que expresse a sua emoção numa sociedade tão hipócrita como ele, que tenta dizer ou mostrar que está bem, quando está um caco.
Outro ponto importante é a manipulação do desejo individual, quando Jack (Edward Norton) está sentado no vaso sanitário e tem um catálogo de compras na mão, o que mostra que as compras estão substituindo a pornografia ou o sexo como objeto de desejo, e penso que é por isso que ele mudou quando ele conhece Marla Singer (Helena Bonham Carter) que fazia o mesmo que ele, ou seja, visitava grupos de pacientes terminais.
 A visita tanto dele quanto dela a estes grupos é em função , penso, de eles procurarem ver se as pessoas que estavam com a morte decretada pela doença evidenciavam alguma esperança, se mostrariam ter encontrado alguma razão ou explicação para a vida, coisa que eles não tinham até então conseguido.
É por isso que ele volta a se interessar por sexo e pela violência, já que não encontrou mais nada a não ser uma sociedade que apenas valoriza o poder, que basicamente é uma teoria do prevalecimento dos valores do macho dominante, ou seja, faço isto porque posso e quero, não porque tenha alguma razão maior.
 Até assumir a liderança do clube da luta, lutando consigo mesmo, que é o que a gente fica sabendo no final, ele era um teleguiado, passando, contudo, quando assume o poder, que só pode ser um poder à margem e proscrito, a liderar os outros, em suma nada mudando. A confusão em sua vida inicial, ou seja, antes de fundar o Clube da Luta, era tanta, que ele se perguntava, ou melhor, perguntou ao pessoal do atendimento telefônico da empresa de catálogos qual seria o mobiliário que melhor o definiria.
Penso que a idéia básica é desmascarar o conflito que há na sociedade, saindo do nível da hipocrisia, que é o que ocorre no lar (por isso ele mesmo explodiu o seu apartamento), no trabalho (por isso ele caiu fora), e foi morar numa casa abandonada, e chegando no nível da explicitação do conflito, que é o nível da luta armada, de todos contra todos, mas, pelo menos assim, descarregando as emoções e criando uma irmandade (controversa, não há a menor dúvida). Note que não há mulheres no clube da luta, o que, penso, ajuda a validar a idéia da sociedade do macho dominante, ou seja, que preserva os seus valores.
Ao final, penso que o que o filme mostra é que o único valor real que ficou é o poder amparado pela tecnologia, que é mostrada à exaustão.