Dogville
Dogville é realmente barra pesada e um filme tipo razzia, ou seja, que procura não deixar espaço para nada, ou seja, para qualquer esperança quanto ao ser humano. Parece-me, contudo, que esta é a característica pessoal do Diretor Lars Von Trier, uma pessoa claramente amarga e que, como fica claro em todos os depoimentos, tem grande dificuldade de relacionamento, especialmente com homens, como ele mesmo reconhece no DVD de apoio e que contém as entrevistas pessoais. Não conheço nada da vida pessoal dele, mas penso que ele, pelo menos à época do filme, mostra-se como um homossexual enrustido, ou seja, ainda “no closet”, como se diz. A carga que ele exige do elenco é enorme, principalmente de Nicole Kidman, que se entrega de corpo e alma à filmagem, mas fica evidente que a cena da violência sexual (estupro?) em série que sua personagem sofre exigiu muito dela. Devemos lembrar que todos ficaram praticamente confinados no local até que o filme chegasse ao ideal que o diretor queria, e que ninguém conseguia entender, já que a peça estava pronta ou se formando apenas na cabeça dele, muito antipático e fraco de relacionamento.
O Filme segue uma linha que está se firmando e que dispensa o cenário sofisticado e paisagens dos filmes modernos e de bilheteria, e é exatamente contra isso, contra a fácil montagem, nos dias de hoje, de cenários artificiais simulando natureza, cidades, que o diretor se insurge, como que dizendo: já que é para fingir que o cenário e a paisagem são reais, melhor não ter nada, apelando assim ao talento e desempenho dos atores, como se fosse uma peça de teatro, e que atores há no filme!: Lauren Bacall, Nicole Kidman, Ben Gazarra, Paul Bettany, etc.
Penso que o grande perigo do filme é nós nos colocarmos na situação da Grace (Nicole Kidman) entendendo que qualquer esforço que fizéssemos também seria fadado a fracassar, mas, repito, a visão é exclusiva do diretor, um notório pessimista que procura, sabe-se lá porque, desancar a sociedade americana.
Uma outra leitura, esta mais otimista, é ver o filme como um decalque, uma visão estereotipada da sociedade, mas que, instando-nos à reflexão, exige de nós uma postura mais humana frente ao outro, à Face, como se diz.
Roberto Procopio