abr 3 2009

O eureca de Einstein

Boa parte da genialidade do cientista alemão, suíço e americano, após ter um período apátrida em sua vida, era trazida por duas características de sua personalidade, as quais preservou durante toda a sua vida: não aceitar verdades empacotadas ou dogmas científicos e sempre estimular a sua criatividade. Costumava absorver uma quantidade enorme de informação e leu Kant aos 13 anos de idade, por recomendação de  um amigo mais velho. Dominou o cálculo diferencial na mesma idade, embora não fosse a matemática o seu ponto forte, sempre solicitando apoio aos conhecidos e à ex-esposa Marczi quando precisava resolver problemas sobre os quais tinha certezas intuitivas ainda não demonstradas matematicamente.

Dizia que a intuição era o seu forte, e entendia que a intuição era resultado de processos racionais de certa forma automatizados na mente humana e os quais não era necessário explicar. Conseguia o seu “achei” euclidiano tocando violino, embora fosse também capaz de, durante uma sofisticada demonstração em aula, resolver um problema que guardava na mente, mas, sem dúvida, mais uma resolução do tipo eureca, ou seja, com a mente concentrada em outra atividade.

Resumindo, podemos dizer que a receita do gênio da Ciência era uma forte dose de intuição aliada a um anti-dogmatismo visceral, mais tarde tornado anti-militarismo, e a uma mente que se estimulava e estimulava todos à sua volta a desenvolverem a sua criatividade.

 Roberto Procopio   


fev 25 2009

Remédio Veneno

É bastante válida a asserção de que a diferença entre remédio e veneno é apenas a da dosagem em que a droga é utilizada. O símbolo médico caduceu, que contrapõe duas serpentes, como num espelho, é bastante elucidativo neste aspecto: o que cura também mata. Dois idiomas atuais e que têm origem comum no antigo germânico, o alemão e o inglês, têm significados diferentes (falsos cognatos) para a mesma palavra “Gift”, que, se no inglês significa dádiva, presente, dom, etc., no alemão significa “veneno”.

A maior parte das drogas sintéticas de uso em todo o mundo originou-se de tentativas dos laboratórios europeus e americanos, mas principalmente dos alemães, de produzirem medicamentos que ajudassem os viciados em qualquer substancia química a sair do vício. O mercado, sempre atrás de lucro, deu outra destinação ao que era, originalmente, repleto de boas intenções e , nos dias de hoje, grande parte da emergência do uso de drogas deve-se à perda de controle de medicamentos destinados a outros fins. O remédio vira veneno e está a dois passos de todos, seja via uma prescrição adulterada, seja via o arrombamento de armários em hospitais e clínicas, criando um mercado paralelo de bilhões de dólares.

Cria-se assim, a partir dos medicamentos que se juntaram às drogas ditas naturais (maconha, cocaína, álcool, morfina), o Planeta Droga, abrindo os receptores cerebrais a estímulos artificiais que fazem a depleção dos neurônios na busca desenfreada da felicidade quimicamente propiciada, com o futuro sendo desprezado em função de altíssimas taxas de descontos, piores do que as do cartão de crédito. Mas, como se diz, em cada cabeça uma sentença.

Roberto procopio  

 


fev 13 2009

Comportamento moral

Geralmente associamos a ação moral, que entendo ser uma ato de desprendimento e mesmo de perda pessoal para ajudar uma outra pessoa em necessidade, como eminentemente humana, própria a nós, primatas da espécie Homo sapiens sapiens (sic!). O critico literário Harold Bloom outorga a Shakespeare a “invenção do humano”, no sentido de que nós, humanos, temos uma percepção rarefeita de alguma coisa maravilhosa acima de nós e que os místicos denominam de “portas” para o que está além da nossa percepção sensorial, comunicada por aquele sentimento inebriante e oceânico de que nos falava o escritor Romain Rolland e que tanto instigou a busca sem sucesso de Freud.

Antes de Shakespeare, segundo Bloom, nada distinguia um humano de outros animais, numa Inglaterra que se submergia em conflitos intestinos e que abandonava a sua ralé à fome, privação e a uma condição sub-humana, carnificina que inspirou Thomas Hobbes a escrever o seu libelo Leviatã, Shakespeare, ao integrar as vidas dos pobres e dos humildes à realidade da “upper crust” nobiliárquico, teria nos comunicado e avisado a humanidade de todos. 

Parece, contudo, que o comportamento moral, de desprendimento, não é peculiar a nós, já que está presente também nos primatas das mais diversas espécies, desde os chimpanzés aos bonobos, e  em menor grau, nos orangotangos, gorilas, etc. E, é claro, também no meu cachorro e no seu cachorro, já que, pergunta-se, não é um comportamento moral, de desprendimento e risco total, aquele do cachorro que, para defender a sua dono ou o seu dono, ou seja, um indivíduo de uma outra espécie, engalfinha-se com um agressor qualquer que a molesta? Isso, contudo, não reduz a beleza de ser humano, apenas, mais uma vez apelando à moral, pede que, embora “caniços pensantes” (Pascal), sejamos, antes de tudo, humildes em reconhecer a nossa pequenez frente a um mundo que, frente a uma razão que, ao mesmo tempo cresce e se apequena, não explica tudo que pretendia explicar no alvorecer do primado da razão.

Voltando ao bardo inglês, há certamente muito mais razões entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia! Platão poderia completar: a ignorância, ou o que desconhecemos, é sempre a maior parte, o que de certa forma reforça a beleza do ato moral.

Roberto procopio   

 


jan 19 2009

Morte anunciada

Liguei para o meu banco para fazer um pagamento de boleto bancário e a atendente atenciosa me informou que a partir do último dia 12, ou seja, há três dias, esse pagamento só poderia ser feito por um procedimento automático, o que dispensaria o concurso e ajuda dela. No Rodoanel encontramos atendentes também bastante solícitos (as) que falam das vantagens do “Passe Fácil”, aquele sistema que dispensa o pagamento na cabine, etc. O atendimento automático da NET já corta muito do atendimento humano para um atendimento automatizado, simulando até que razoavelmente, um interlocutor humano. Quanto ao pedágio e ao banco, não se trata de uma morte anunciada de mais um emprego? É realmente estranha essa pós-modernidade e essa globalização: fazem-nos encenar a própria morte do nosso emprego!

Roberto Procopio 


jan 1 2009

“Ficar” lésbica.

Uma leitora do site, a Bernadete, esteve recentemente numa cidade do interior do Estado de São Paulo onde a moda é “ficar lésbica”, não sei se permanentemente ou “de passagem”, exatamente o sentido do verbo “ficar”, pelo menos na sua acepção pós-moderna (ver “Ficar ou não Ficar”, de Tom Wolfe, disponível na Biblioteca Harold Chimp). O meu interesse aqui não é a preferência sexual de ninguém, mas sim a palavra ficar. Quanto à palavra lésbica, ela provem da ilha de Lesbos, na Grécia, fecunda em poetas, sendo Safo a mais conhecida, com fragmentos de poemas que sobreviveram até os nossos dias (tive o prazer de ouvir o grande Antonio Medina declamar em grego um dos fragmentos de poesias de Safo). Pelos poemas do assim chamado lirismo erótico de Safo, e dirigidos a outras mulheres, a ilha ficou conhecida de todos nós, dando-nos a palavra lésbica, enquanto que o nome da poetisa originou a palavra sáfica, também relativa ao amor entre mulheres.

Será que a ilha de Lesbos encarnou nesta cidadezinha do interior? Penso que, quanto a este aspecto, já temos uma cidade antecessora à cidadezinha do interior paulista, já que São Francisco, na Califórnia, passou a ser conhecida como a cidade gay. Resta apenas saber se, quanto a nossa cidadezinha de interior, é um “ficar” lésbica ou assumir definitivamente lá, nesta cidade, a sua opção sexual. Se for um “ficar”, ou seja, se for temporário, penso que fica claro o caráter de fazer andar a fila das experiências, e, nesse sentido, o livro de Tom Wolfe é muito bacana, já que ele faz uma análise das relações passageiras e modismos da pós-modernidade, da qual é especialista.

Roberto Procopio    


dez 28 2008

Ainda sobre a morte fora do espaço e do tempo

Volto ao tema, pois o acho elucidativo da crise atual da civilização ocidental.  O consumo excessivo de álcool foi o que teria provocado a morte da estudante no cruzeiro marítimo, os assim chamados (pelas operadoras de navios) de “cruzeiros universitários”. Se já é comum o excesso de consumo de álcool e drogas em qualquer festa universitária de qualquer lugar no mundo, mas principalmente Estados Unidos e Brasil, o que dizer de um lugar aberto, “deles”, sem vigilância, sem inspeção rigorosa de entrada de bebidas e drogas? Acredito ainda que, além da abertura dada pela visão do mar, seja de dia seja de noite, para um “liberou geral”, o navio em movimento enseja um maior consumo de tudo, já que dá a idéia de uma conquista do mar, de uma onipotência humana sobre o elemento. Que opção resta aos cordeiros, aqueles que seguem a liderança, e que, por incrível que pareça, são a maioria, senão a de aderir ao comportamento ditado como normal naquelas circunstâncias? Já que a bebida tem um caráter ritualístico, sacrifical mesmo, não seria demais imaginar que presenciamos uma oferenda grupal de um bando de irmãos freudiano, num ritual totêmico para apaziguar a todos pela ritualística morte do pai, ritual de passagem para a maioridade. Quanto à ausência de fiscalização mais rigorosa, me remete a hipocrisia geral prevalecente na sociedade, dos pais aos que deveriam fiscalizar este tipo de cruzeiro, pois é muita ingenuidade imaginar que um grupo enorme de jovens (1.000?) deixado soltos vão zelar pelo próprio comportamento em mar aberto e apenas com Netuno por testemunha. Não posso deixar de lembrar que em muitas línguas latinas e germânicas a palavra esquife vale tanto para navio como para caixão. 

Roberto Procopio     

 


dez 28 2008

A morte fora do espaço e do tempo

Penso que as festas raves têm algumas características interessantes, idiossincráticas mesmo:

1)      O solo é um terreno onde as pessoas podem pisar o pé no chão, sentir o contato com a mãe Terra, aí adquirindo um sentido mítico enorme;

2)      O comportamento é o do grupo todo não determinado individualmente, o que pode ajudar a explicar os excessos, já que não há freio individual;

3)      Há um despojamento da personalidade individual em favor do pertencimento ao grupo, que decide os comportamentos de todos;

4)      Há uma sensação de estar ausente do espaço e do tempo e das regras da vida cotidiana, adquirindo um caráter de ir “contra as regras”;

5)      As festas duram dois ou três dias, ou até mais, uma eternidade nos dias atuais, também aí incentivando o excesso de álcool e drogas;

6)      É um rito iniciático, de passagem para muitos, cujo abandono que as drogas propiciam confere o mesmo caráter que os rituais indígenas.

Fico a me perguntar que ritos de passagem abandonamos para que fossem substituídos por outros tão perigosos e mortais, já que deixamos os estágios de comportamento tribal há muito tempo, e é por isso que nos reconhecemos como civilizados.

Se pensarmos que tipo de promessa a mais nova onda dos cruzeiros raves trazem, já que são realizados em mar aberto, sem a vigilância ostensiva da polícia, apenas com o mar como testemunha, dá para imaginar os estragos que podem provocar nos que se apresentam para serem iniciados, que é o que parece que aconteceu pela mais recente morte de mais uma vítima da pós-modernidade e que morreu sozinha em seu camarote, sufocada pelo próprio vômito . Por incrível que pareça, já se escuta um certo alívio na sociedade hipócrita pós-moderna ao atribuir apenas ao álcool (e não às drogas) a morte da jovem de 20 anos, como se os abusos do álcool, uma droga lícita, legalizada, não fossem também indicativos de distúrbios graves entre o sonho e a realidade da vida pós-moderna, propiciando a fuga da realidade. Como disse o delegado que preside o inquérito: “a moça morreu por pertencer a uma juventude que quer tudo a toda hora”. Não poderia ter se expressado melhor.

Roberto Procopio


dez 26 2008

O erro de Deus (segundo David Hume)

Um dos maiores expoentes do iluminismo, o escocês David Hume alertou sobre os quatro erros de Deus ao fazer o mundo, sendo um deles o de não ter criado apenas uma escala de prazer para incentivo ou desestímulo às ações humanas, ou melhor, uma gradação de prazer, sem dor no universo animal e humano. O argumento não se sustenta: estou lendo o livro Heroína e Rock and Roll, escrito pelo líder do Motley Crue, banda de sucesso nos anos 80, na qual Nikki Sixx relata em seu diário as sucessivas vezes em que recorreu à heroína para aliviar-se da dor que a ausência do uso desta droga propiciava, ou seja, mostrando que o quê começou como apenas uma escala de prazer, que seria o ideal de Hume, passou a representar exatamente o seu contrário, uma escala de dor que se eliminava (num entorpecimento) em uma ausência de dor e não mais prazer. A síndrome da abstinência desbanca aqui a pretensão iluminista de Hume.

Roberto Procopio 


dez 26 2008

Em terra pós-moderna quem tem DDA é rei

DDA é déficit de atenção, distúrbio que leva a pessoa portadora desse distúrbio a não se concentrar em nada, sempre desviando a atenção de um dado assunto, nunca conseguindo focalizar muito a atenção por muito tempo. Pessoas com elevado DDA (tenho isso em pequeno grau) não conseguem ler um livro até o fim, já que são hiper-ativas, sempre se envolvendo em coisas novas, novas atividades, etc. Se até há pouco tempo, antes do advento da internet de uso por quase todos, ou seja, desde 1995, o DDA era considerado um prejuízo, uma exceção a uma regra de pessoas focalizadas em suas atividades diárias, pessoais e profissionais, nos dias de hoje uma pessoa que tenha déficit de atenção, passará despercebida na multidão ou em grupos, será considerada o modelo a seguir, já que o comportamento desfocado dela é a regra e o paradigma, cada um de nós sendo instados pela época em que vivemos a mudar de atividades e de interesses com muito mais freqüência do que há 20 anos (ou até menos do que isso).  Fico imaginando o distúrbio que isso provoca na pesquisa científica e na aquisição de conhecimento, já que há um embate, uma disputa entre as mídias, uma sendo o livro, que solicita compromisso, planejamento, disponibilidade, etc. e outra sendo a internet, que instiga justamente o contrário, a falta de compromisso de longo prazo, a prevalência do oportunismo versus o planejamento, a falta de disponibilidade para longos projetos (os científicos, por exemplo).  Se não soubermos aproveitar o melhor desses dois mundos, cairemos em mais uma das armadilhas da pós-modernidade, que só requer de nós o compromisso com o que é visível e imediato.

Roberto Procopio


dez 25 2008

Hip-hop

Ouvi um dia desses, por sugestão do Ivan, um CD de um conjunto americano de rockabilly chamado Stray Cats, muito bom, por sinal. Assim como o rockabilly, que preserva as tradições musicais dos anos 50, quando o rock começou a aparecer, tem gente que curte e adere ao modo de vida hip-hop, punk, hippie e assim por diante, num fenômeno social de comportamento grupal que é bastante presente na sociedade ocidental pós Guerra, e eu não tenho nada a ver com isso, tratando-se é claro de uma escolha e encontro de cada um. Atrai-me, contudo, o fascínio que este modo de vida, por exemplo, o do hip-hop, exerce sobre as pessoas e penso que estes movimentos têm um gostinho especial que só eles podem curtir, ou seja, o de fazer a roda do tempo social parar, já que eles adotam um modo de vida, trajes, músicas, etc. praticamente congelados no tempo, como se tivessem feito a roda do tempo deixar de girar. Acho que é isso que dá significado ao nome do conjunto Stray Cats, que, em português significa, gatos desgarrados, gatos de rua, que não têm uma morada, uma casa, um lar, e também não tem que tolerar tudo que vem no pacote, ou seja, a idéia de progresso que marca a civilização ocidental, de que as coisas têm que mudar, que o futuro é melhor que o passado, e assim por diante. Quem puder e gostar, vale à pena ouvir os Gatos de Rua, ou seja, entrar com eles numa cápsula de espaço-tempo, para se sentir, pelo menos por uns instantes, fora das injunções da vida pós-moderna.

Roberto Procopio

 


dez 24 2008

Caranguejos?

Sempre tive a impressão de que nós brasileiros somos bastante rápidos na entrega de detalhes de nossas vidas aos estrangeiros que aqui aportam, já de cara dizendo quantos filhos temos, se somos casados ou não, quais líderes estrangeiros admiramos, conjuntos idem, e assim por diante. Atribuo isso, e já o vimos em algum outro lugar, à nossa necessidade de validação por outros, já que, na realidade, viemos da Europa e perdemos os laços com a nossa casa matriz, que procuramos sempre reforçar. Penso, por outro lado, que esta nossa entrega é também meio maliciosa já que pode também estar ligada a aquele nosso lado oportunista, de matriz colonial portuguesa, e que procurava relacionamentos rápidos, para deles tirar proveito e lucro e poder voltar para a matriz colonial, nobre e rico, mas com pouco trabalho árduo, físico, demorado, essencialmente baseado num relacionamento comercial superficial, uma coisa que, penso, perdura até hoje como traço característico de nossa vida social, interesseira e voltada ao lucro comercial rápido. Como temos que ficar por aqui mesmo, já que nosso Portugal é aqui, penso que nos tornamos ainda mais oportunistas do que os nossos pais portugueses, cobrando ao estrangeiro, e de nós mesmos, um preço ainda maior deste degredo com relação ao modelo original, que era o de caranguejos a arranhar a costa, conforme a fértil imaginação do nosso Sérgio Buarque de Holanda, o pai do Chico.

Roberto Procopio


dez 21 2008

Experimentos II

Há quarenta e poucos anos, o psicólogo Stanley Milgran, da Universidade de Yale, conduziu alguns testes a respeito da resposta humana a ordens superiores. O experimento requeria que determinada pessoa, obedecendo a ordens superiores, aplicasse choques elétricos sucessivamente maiores em estudantes voluntários que respondessem erradamente à determinada pergunta, até um limite de dor humanamente intolerável. O que o aplicador dos choques não sabia é de que tudo era uma simulação, já que os gritos da pessoa sobre a qual estariam sendo aplicados os choques eram gravados e ela não recebia descarga elétrica nenhuma, apenas fingia que recebia. Nestes testes conduzidos por Milgran 65% dos aplicadores de choque foram até o fim do experimento, ou seja, obedeceram às ordens de aplicar muita dor em determinadas pessoas (450 volts). Testes semelhantes conduzidos mais recentemente tiveram um percentual de 79% de adesão ao choque máximo (170 volts). Quem quiser ler um pouco mais sobre isso, por favor, consulte, o site específico (em inglês):

www.stanleymilgran.com

Fico imaginando se o teste fosse auto infligido, ou seja, se o próprio aplicador da descarga elétrica fosse o respondente das perguntas; será que ele se auto-aplicaria os choques?  Ou seja, como resultado parcial, podemos apenas dizer que comportamento de grupo é complicado (me lembro aqui daqueles soldados tontos que saquearam os donativos em Santa Catarina e que provavelmente receberam ordens de algum líder do mal).

RP


dez 21 2008

Pedofilia

Em função do advento da internet e o interesse que o assunto do combate à pedofilia traz, cada ano o uso de computadores integrados em rede superando em muito o uso registrado no ano anterior, cabem algumas perguntas quanto à questão da pedofilia: será que o uso da internet estimulou e estimula  o aparecimento de pedófilos, ou seja, será que eles estavam no closet e só apareceram em função da suposta proteção que a rede de computadores trazia (traz)? Se a quantidade de pedófilos era proporcionalmente igual antes e depois do aparecimento da internet, o que faziam os pedófilos? Cometiam os mesmos crimes que antes? Onde estão os registros disto? A pergunta final é: há mais pedófilos hoje do que há, digamos, 20 anos, quando os primeiros micro-computadores não conectados em rede, começaram a ser usados por consumidores caseiros? Se a resposta for positiva, e penso que é, não vejo como negar que há um incentivo tecnológico à pedofilia, mais uma vez caracterizando o caráter frio da tecnologia e a sua característica de condução sistêmica do comportamento humano.

RP   

 


dez 17 2008

Montreal

Em 1969 a Polícia de Montreal, na província de Quebec, Canadá, resolveu entrar em greve. Estavam em greve também os taxistas que faziam o trajeto ao aeroporto. A princípio ninguém se preocupou muito pois tratava-se de uma greve localizada, em um dos países mais adiantados e desenvolvidos do mundo, com analfabetismo zero, renda per capita de primeiríssimo mundo, etc. Dali a apenas três horas iniciou-se o que ninguém acreditava ser possível acontecer : saques de lojas, confrontos entre gangues, roubos a bancos, assaltos à mão armada, etc. Ou seja, se não há polícia, que significa a prontidão do estado para coibir os impulsos mais perversos humanos, em poucas horas, ou mesmo minutos no mundo pós-moderno, a sociedade volta ao estado de cada um por si. Sendo a natureza humana o que é, dá para pensar nas utopias propostas por muitos (Marx, Platão, Thomas More, etc.). A mais recente que li é de um autor anônimo, da assim chamada vanguarda literária americana (Literatura do Caos) e que até que é boazinha, mas, novamente, não guarda semelhança com uma realidade do homem lobo do homem.

RP      


dez 17 2008

Espelhos

Por que os shoppings têm tantos espelhos? Será que é casual? Penso que não e devem servir para reforçar o nosso narcisismo num lugar tão especialmente interessado em nós, ou seja, um lugar de compras que nos vê exatamente o que somos para o mundo pós-moderno, compradores, consumidores de bens e serviços, sendo o shopping o templo pós-moderno, de arquitetura essencialmente planejada para nós abrirmos nossa carteira, retirarmos nosso cartão de crédito e cedermos à tentação das compras. Acho que olhar no espelho deve dar uma sensação do tipo: você merece Roberto, não se preocupe em comprar pois você facilmente conseguirá pagar isto mais à frente, etc. É interessante como não há relógios disponíveis em shoppings, é como se estivéssemos numa cápsula atemporal , onde o tempo não passa ou não existe. Ele só existe a partir do momento que sairmos e virmos a besteira que fizemos, comprando o que não precisávamos, nos endividando mais, etc. Acho que a função do espelho é despertar o Narciso que há em cada um de nós, lembrando que o da lenda se afogou de tanto olhar na água da fonte que refletia a sua imagem. Boa analogia, não?

RP    


dez 16 2008

O show ou a foto?

Por que muitas pessoas que freqüentam shows de artistas famosos parecem mais preocupadas em tirar fotos do show ou filmar o show do que curtir o momento, a música? O mesmo parece ocorrer nos museus, daqui do Brasil e de todos os lugares, onde a preocupação de registrar o feito parece mais importante do que curtir ou apreciar a obra de arte e a gente nem consegue se aproximar da obra tendo em vista o emaranhado de repórteres caseiros. Fico na dúvida: é mais importante o registro de que estivemos lá ou apreciar o show, a obra de arte, etc.? Dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Afinal, por que fomos ao show ou ao museu? Para ver e curtir ou para dizer (e provar) aos outros que fomos? Isso está me parecendo comportamento inspirado nas celebridades.

RP

 


dez 16 2008

Qual a melhor foto?

Costumo viajar a cada dois ou três meses para o sul de Minas, a fim de descansar e ler, juntando mais material para as palestras. Acho estranho ver nas cidades históricas de Minas os turistas (paulistas, mineiros, cariocas, principalmente) tirando fotos de si mesmos, sem pedir ajuda aos outros, como era comum e normal há poucos anos. A coisa fica ainda mais complicada quando se trata de casais, já que, penso, não fica legal. Já ouvi alguém dizer que a melhor maneira de tirar foto é quando a própria pessoa tira a foto de si mesma, mas não consigo entender como ela consegue enquadrar o local que foi visitar, uma Igreja, uma praça, um chafariz. Não é melhor pedir para alguém fazer este pequeno favor? OU será que está tão difícil assim o contato com o outro, pedir um pequeno favor, o que pode até ocasionar um novo encontro, conhecer novas pessoas.

RP

 


dez 16 2008

O dia dos mortos

Há 23 anos moro em rua próxima a um cemitério na zona oeste de São Paulo. Quando mudei para cá, e durante muito tempo, no dia de Finados, 02/11, as ruas próximas de casa ficavam apinhadas de carros, congestionando os bairros da Vila Sônia e Jardim Colombo, requerendo ajuda do DSV, CET, PM, etc.,  que se preparavam como que para uma batalha campal. Era sair de casa, pois era insuportável o barulho de carros, pessoas vendendo de tudo, inclusive flores, etc. No último dia de Finados (2008), o movimento de carros e freqüentadores do cemitério foi, no máximo, uns 20% do que era nos tempos áureos de visitação e a única razão que eu consegui associar para explicar o fenômeno foi a de que

1) era o dia do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, quando Felipe Massa disputava o campeonato;

2) São Paulo jogava com o Inter no Morumbi;

3) Santos e Palmeiras se enfrentavam na Vila Belmiro, em partida televisionada pela Globo.

Explica?

RP

 


dez 16 2008

Descontextualização e solidariedade de grupo

Uma das características do comportamento pós-moderno, principalmente dentre os mais jovens, é a dos relacionamentos (amizades) contextualizados, configurados em formatações basicamente um a um e que têm significado apenas dentro de determinados contextos, que podem ser de divertimento, cultural, esportivo, religioso, etc. e que não são misturados entre si. Basicamente, são comportamentos individualizados e que encontram contexto quando em grupos que não se conhecem. Isso equivale a dizer que os relacionamentos são contextualizados, ou seja, valem apenas dentro de determinadas áreas de ação ou interesse (divertimento, educação, cultura, esportes, religião, etc.), mas não em outras. Isso representa uma forte ruptura com os padrões do passado, quando a turma ou o grupo era uma entidade única e de presença descontextualizada, ou seja, valia para todos os contextos e oportunidades, provavelmente provocando ou ocasionando relacionamentos mais sólidos do que os atuais, já que eram ancorados em identidades e escolhas de um maior espectro, já que envolviam escolhas mútuas, na realidade chancelas, mais amplas do que as atuais. Uma alternativa a isto são as tribos, grupos com interesses homogêneos, mas que, ao que parece, se unem dentro de um pequeno espectro de interesses, notadamente cultural (hip-hop, punks, patricinhas, etc.) ou esportivo (torcidas organizadas). A diferença entre um e outro modo de reunião ou agrupamento de interesses, na minha opinião, é a de que , no caso das tribos urbanas da atualidade, existe uma entrega a um modelo já pré-formatado de vida, inclusive definindo o seu estilo de vida, seu life-style, como se diz, ao passo que nos grupos anteriores de identidade, a mesma era dinâmica, incerta e cambiante, definida mais pelos membros do grupo do que por formatos pré-concebidos, o que parece ser o caso das tribos. A solidariedade, nesta última, passa pelo formato mas não vai além disso. Por favor, quem quiser, que agregue o que quiser.     

RP


dez 16 2008

Hoje X Amanhã

No livro “O Valor do Amanhã”, o filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca relata várias experiências de comportamento animal que fornecem uma excelente ilustração ou analogia para a nossa atualidade pós-moderna. O economista parte de algumas leituras especializadas em várias áreas e que basicamente mostram o seguinte: os animais das mais variadas experiências em laboratório são confrontados com dois tipos de escolha, uma delas sendo a de obter mais rapidamente uma quantidade menor de alimentação ou água, a outra sendo a de conseguir com um pouco mais de tempo uma quantidade maior de alimentação ou água. Raramente escapamos de ver privilegiada pelos seres irracionais a situação primeira, ou seja, o comportamento animal prefere menos mais rapidamente, o que não deixa de ser uma troca de baixo nível entre o hoje e o amanhã, invertendo a lógica que deu origem ao capitalismo, que era de “no pain, no gain”.

É uma bela analogia às experiências com drogas, não é mesmo?, na qual o que ocorre é simplesmente a troca do futuro por uma prazer imediato. É uma boa leitura.

RP