jan 19 2009

Com alma ou sem alma?

Uma das polêmicas mais importantes que já adentrou o círculo humano de debates foi quando os europeus, começaram a conquistar e colonizar o globo, o que aconteceu a partir da navegação portuguesa rumo às Índias Orientais (Ceilão, Índia Ocidental), Costa da África, etc. e, posteriormente, tanto pelos espanhóis como pelos portugueses ao continente americano. Se os nativos africanos entranhados nas matas e savanas, salvadas as exceções da conquista religiosa muçulmana, fé religiosa que se espalhou com facilidade pelo continente africano, eram tidos como selvagens pelos colonizadores, o mesmo não ocorria com os habitantes das Índias Orientais, já que os mesmos, de extração árabe e de fé muçulmana, já pugnavam com os portugueses pelo domínio do comércio mundial. A escravidão já corria solta nas ilhas da Madeira e dos Açores e os portugueses não tinham duvidas de que os indivíduos de pele escura que traziam para a agricultura da cana de açúcar e para as lides domésticas lhes eram inferiores em costumes e religião. Mas cabia uma pergunta: esses indivíduos tinham alma? A pergunta que não queria calar, e que cada vez mais passou a incomodar, passou a se tornar uma interrogação ainda maior quando da conquista e colonização das Américas, materializada na escravidão dos aborígenes, os nossos silvícolas, os quais, rezava a regra, só poderíamos submeter se tivessem alma, o que, entendia-se, daria uma carta branca para portugueses, espanhóis e franceses fazer deles o que quisessem, já que não seriam mais do que animais a nós semelhantes mas diferentes quanto a este aspecto fundamental. Filósofos de renome , como o alemão Hegel, por exemplo, se conspurcaram para sempre ao afirmar a inexistência de alma nos silvícolas, daí ensejando a exploração e as barbaridades cometidas pela civilização ocidental que aqui chegava.

O debate encarniçado é retratado de forma simples e acessível no livro “Aprender Antropologia”, de François Laplantine, disponível, sem custo pela Biblioteca Harold Chimp.

Roberto Procopio      


dez 26 2008

O que é o tempo?

Esse é um assunto que tem me incomodado bastante, ou seja, saber até que ponto podemos entender o conceito de tempo, principalmente a partir das formulações de Einstein (que só conheço por cima, é claro!) sobre a dimensão do espaço-tempo. Na minha humilde ignorância, penso que o tempo é uma medida da mudança das coisas em relação a elas mesmas (movimento e corrupção) e em relação às outras coisas (movimento e corrupção recíprocas), todas, é claro, pertencentes ao Universo e não apenas à Terra. Fico confuso quando penso no conceito de tempo aplicado à singularidade do Universo, ou seja, aquele ponto menor do que uma cabeça de alfinete, ou seja, de tamanho infinitesimalmente pequeno e que compreendia uma densidade infinitesimalmente grande, ou seja, condensando, comprimindo nele toda a energia e matéria do Universo. Havia aí tempo? Penso que não. Assim como, penso, não há sentido em se atribuir uma escala de medição de tempo, como a nossa de dias, meses, anos e mesmo anos luz, aos instantes (sic) que se seguiram ao assim chamado big-bang, a grande explosão ou descompressão que iniciou o Universo conforme conhecido, há 15 bilhões de anos. Há, também, que se colocar o tempo, ou a sua medição, como socialmente orientada, já que, para nós ocidentais de mentalidade racionalista e científica, que tudo pretendemos explicar, é importante a adoção de uma escala do tempo que sirva para medir eventos passados e futuros, o mesmo não fazendo o menor sentido para culturas como as indígenas, aborígenes, etc. que se servem de um calendário visual, natural, não analógico como o nosso, para determinar as suas atividades diárias de colheita, caça e culturais, tudo se inserindo numa mesma matriz cultural, de forte ligação entre o dia-a-dia e o supra-terrestre e, bem importante, por se tratarem de sociedades tradicionais que já encontraram a sua homeóstase, ou seja, o seu equilíbrio, não têm a necessidade de projetos futuros a não ser cumprir os rituais de grupo. Assim, um relógio não faz o menor sentido numa aldeia, a menos que sirva apenas para marcar o interfaceamento com os brancos, os caraíbas. Outro dia desses assisti um programa na CNU sobre uma tribo guarani no interior do estado de São Paulo, no qual o cacique dizia que estavam conseguindo se isolar dos brancos e só usavam dispositivos eletrônicos como o fax e o telefone para se comunicar com os mesmos, já que assuntos com a FUNAI e outros órgãos assim o requeriam. Disse, muito a propósito, que estava muito satisfeito já que as crianças guaranis que estavam nascendo já não precisavam aprender o português, sinal de um adequado isolamento. Quanto ao tempo do homem branco, penso que podemos até medi-lo arbitrariamente, mas jamais entendê-lo em sua essência (aliás, o quê entendemos em sua essência?).

Roberto Procopio


dez 22 2008

Memória tautológica?

Fico pensando no seguinte e não consigo uma resposta: vamos imaginar que eu veja na TV ou em qualquer lugar uma atriz conhecida, a Malu Mader, por exemplo. Para eu poder reconhecer a imagem que eu vejo na TV como sendo a imagem de Malu Mader é necessário que eu tenha arquivado na minha memória um registro disso, ou seja, um registro de que aquela imagem é da Malu Mader. Mas, pergunto: como sei que o meu registro de memória é referente à Malu Mader? Uma imagem da Malu não seria suficiente, pois precisaria de uma referencia de apoio para dizer que aquela imagem é o registro correto. Que referencia de apoio é esta? Um nome? Acho insuficiente. Fico na dúvida e me auxilie quem puder: o que me garante a integridade da informação original? Help!!

Roberto Procopio


dez 21 2008

A canção sonhada

Assisti a um documentário muito interessante sobre a nação guarani no canal CNU. Um dos caciques explicava de onde se originavam as músicas cantadas pelo coral de crianças guaranis, meninos e meninas de não mais do que 10 anos de idade, aliás, músicas muito melodiosas, lembrando um pouco as que reconhecemos da África do Sul. As músicas guaranis se originam a partir dos sonhos das crianças, que as memorizam e as cantam para os mais velhos, que, então, dão acompanhamento a elas. Legal, não? Me lembra um pouco aquela estória do conhecimento como uma luta contra o esquecimento (anamnese)  e penso que é disso que se trata, já que a música brota naturalmente nos sonhos. Outro ponto legal do documentário: aqui, dizia ainda o mesmo índio, não precisamos nos preocupar com as crianças: elas saem na mata, nos rios, lagos e se viram, arrumam o que fazer. Bem contrário à rotina das nossas crianças, as quais, desde cedo, submetemos a uma rotina estressante, dirigida, sem qualquer espaço para a criatividade ou inventividade. Ou seja, não dá prá uma cultura entender a outra, ou incorporar a outra.

RP


dez 16 2008

Línguas sintéticas e línguas analíticas

Declinações são mudanças nas terminações de determinados tipos de palavras, sendo próprias a algumas línguas, que, por se valerem delas, são chamadas de línguas sintéticas.  As línguas que não usam declinações são conhecidas como analíticas. São exemplos de línguas analíticas  o português, o inglês, o francês, o espanhol, o italiano, dentre muitas outras. São exemplos de línguas sintéticas, ou seja, que utilizam declinações, o latim, o grego, o sânscrito, o russo, o polonês, o alemão, dentre outras. Todas as línguas citadas acima, sintéticas ou não, são de origem indo-européia, ou seja, têm origem no indo-europeu, ou indo-ariano, idioma apenas falado, sem suporte de alfabeto que o registrasse e o documentasse para a posteridade, e que era língua declinada, ou seja, valia-se de declinação nas terminações de alguns tipos especiais de palavras. Ou seja, já há pelo menos mais de 5.000 anos, o homem, em seu estágio pré-civilizacional, que era o de caçador/coletor, se vale de língua declinada, o que, de certo modo, invalida a argumentação de que as línguas evoluíram no tempo, já que a estrutura das línguas sintéticas é bastante mais sofisticada do que a correspondente às analíticas e explica como era natural que na região do Lácio, onde o latim se originou, e a qual compreendia Roma, cerca de V AC, camponeses falassem uma língua tão sofisticada como era o latim que então se formava.      

Que tipos especiais de palavras são as que variam nas línguas sintéticas? São as palavras com função de substantivos, nomes próprios, adjetivos, artigos definidos e indefinidos, alguns numerais, etc. As preposições são invariáveis. As palavras destes tipos variam em função do caso a que pertencem, ou seja, em decorrência da função sintática que desempenham na frase, conforme explicado a seguir. Normalmente, há 6 casos tradicionais, cada um correspondendo a um caso gramatical nas línguas analíticas (o português, por exemplo). Os casos podem estar no singular ou no plural: o caso nominativo é o caso do nosso sujeito, o vocativo é o mesmo vocativo nosso, caso genitivo é o caso do adjunto adnominal português, que indica propriedade ou posse. Os demais casos são, tradicionalmente, o caso dativo, correspondente ao objeto indireto, o caso instrumental ou ablativo, correspondendo ao adjunto adverbial, e, finalmente, o caso acusativo, que é o caso do objeto direto, que é o caso lexicogênico do português, isto é, é o caso que deu origem às terminações das palavras portuguesas e que fazem o plural com o “s”.

Embora cada idioma possa ter mais ou menos casos dos que acima estão explicitados, o grego, por exemplo, tem o caso dual, cada língua tem quantidade bastante variável de declinações, o que facilita ou complica o aprendizado das mesmas. Idiomas complexos como o sânscrito (também de origem indo-européia e estabelecido no Hindustão), têm 8 diferentes declinações, e é tido como uma das línguas mais sofisticadas que jamais existiram, o que significa que há que se memorizar ou aprender 8 tabelas diferentes de declinações, cada uma com as suas terminações específicas, sendo desinência o nome que se dá à parte variável da palavra, assim composta de uma parte invariável ou fixa, que é conhecida como raiz, e por outra que é a própria desinência. O russo tem seis declinações diferentes e o latim 5, sendo 3 as declinações do grego e também as do alemão. Como fator adicional de complicação, idiomas como o russo, assim como o latim, não se utilizam de artigos definidos, o que representa um grau a mais de dificuldade no aprendizado destes idiomas.      

Para terminar e agregar um pouco mais de sal ao tempero, diga-se que as línguas sintéticas têm maior flexibilidade ou liberdade na colocação das palavras nas frases, pois o maior valor sintático está na palavra e não na posição que ela ocupa na frase. No caso das línguas analíticas, há uma maior rigidez neste aspecto, com a manutenção do padrão SVP, ou seja, de sujeito, verbo e predicado. No caso das línguas sintéticas, cabe ao leitor descobrir se a palavra é sujeito, verbo ou predicado, atentando não para a posição da palavra na frase, mas sim à sua desinência, único indicativo de sua função sintática. Para finalizar, mencione-se a dificuldade que é se procurar em dicionário as palavras de línguas declinadas, pois apenas os casos nominativo e genitivo são referenciados, devendo o leitor, para encontrar a palavra, saber reduzi-la de volta ao caso nominativo, o que nem sempre é simples, tendo em vista a grande irregularidade das declinações. Quanto ao uso do dicionário, os verbos latinos são encontrados nos dicionários não a partir do infinitivo, como ocorre no português, mas da forma seguinte: primeira pessoa do presente do indicativo, segunda pessoa do presente do indicativo, primeira pessoa do presente perfeito, supino, infinitivo. 

RP

  


dez 16 2008

Frenologia

A frenologia estuda a formação e dimensão da caixa craniana e do cérebro e foi uma importante disciplina ou área de interesse na virada do século XIX. Fundamentalmente, ela se sintetiza na idéia de que há uma relação entre tamanho cerebral ou capacidade do cérebro e inteligência. Várias teorias de cunho racista foram elaboradas para acomodar o que seriam os achados da dita ciência e várias maneiras de definir nossa caixa craniana foram surgindo, caixas dolicocéfalas, braquicéfalas. Existiriam fortes associações entre determinados formatos cranianos e a prática de atividades altruístas, assim, ao contrário, associações entre a mente criminosa e o tipo de caixa craniana. A frenologia foi aos poucos sendo desacreditada pelas provas contrárias que a realidade impunha: como explicar que um cérebro tão pequeno (1.050cc), como o da inventora Marie Curie, tinha possibilitado a expansão de seu gênio científico? Como explicar a debilidade mental ou a baixa inteligência em pessoas com cérebros volumosos, cerca de 20% superiores em massa e volume ao cérebro de tamanho médio (1.350 cc)? Para quem se interessar, há dois livros que tratam do assunto, o primeiro sendo “A Falsa Medida do Homem”, de Stephen Jay Gould (renomado paleontologista e responsável pela teoria da homeóstase dos antigos hominídeos) e “A Guerra do Fim do Mundo”, de Mario Vargas Llosa, que toca incidentalmente no assunto e o incorpora à narrativa da Guerra de Canudos, o tema principal do livro.

RP 

 


dez 16 2008

Limites

Outro dia destes fiz o seguinte: procurei num dicionário o significado da palavra corvo e recebi como resposta o seguinte: ave negra das famílias dos corvídeos e que atinge até 60 cm de comprimento. Segui adiante e procurei a palavra ave, ou seja, substantivo genérico se comparado à palavra corvo, e obtive o seguinte: vertebrado ovíparo, coberto de pelos, de respiração pulmonar, etc. Agora fui atrás de vertebrado e achei o seguinte: animal que tem vértebras. Com relação a animal achei o seguinte: ser organizado dotado de movimento e sensibilidade. Quanto a ser encontrei: tudo o que possui existência. Quando procurei o significado de existência, encontrei: o fato de existir. Existir: viver. Viver: ter vida ou existência.

Paro por aí, pois daqui para diante não há como progredir e as definições se utilizam uma das outras: ser é existir, existir é ser. Este é um limite do conhecimento humano, encontrável em qualquer dicionário de esquina.   

RP


dez 16 2008

Os Mapuche

Os mapuche (assim mesmo, sem s no fim) são o povo pré-colombiano do atual Chile e que ofereceram a maior resistência à dominação espanhola. A preocupação inicial espanhola foi  assegurar o acesso da prata e ouro mexicanos, através do trabalho de Cortez, deixando a penetração no difícil território inca (atual Perú e Bolivia) ao espírito aventureiro de Francisco Pizarro, que, com dificuldade, conseguiu a autorização real para realizar a exploração da região dos Andes. O episódio do assassinato do rei inca Atahualpa pelos espanhóis, a mando de Fernando Pizarro, irmão do ilustre conquistador espanhol, mostra a que eles vieram, não atribuindo a si mesmos qualquer culpa no cartório europeu. O Chile, que não oferecia promessas claras de minério fácil, foi deixado para o espírito aventureiro de Pedro de Valdívia, fundador de Santiago de Chile. O livro de Isabel Allende, “Inês de minha alma”, narra a saga de Pedro de Valdívia e seu infortúnio com os mapuche: Pedro recebeu em sua casa um menino de uns 7 anos e que falava uma língua desconhecida. Aculturado e aceito pelos espanhóis, trabalhou como ajudante na casa de Valdívia durante cerca de 10 anos, para, em determinado dia, sumir.

Quando voltou a se mostrar, capturou seu ex patrão, a quem jamais tinha demonstrado qualquer traço de infidelidade ou desgosto, e torturou-o durante três dias consecutivos. O menino era um mapuche e foi designado para morar aquele tempo todo com Pedro, ganhar-lhe a confiança, para depois traí-lo. O corpo de Pedro de Valdivia jamais foi encontrado e o episódio mostra a resistência tenaz dos mapuche aos espanhóis colonizadores, que lhes igualavam, ou mesmo superavam, em inteligência, coragem e espírito ardiloso.

RP       


dez 16 2008

Injustiça?

É bastante freqüente acusarmos o idioma inglês de invadir os espaços lingüísticos de outros países e se sobrepor, com suas palavras, aos outros idiomas, numa dominação cultural que é vista como odiosa por muitos, e que é já um fenômeno mundial. Não há dúvidas de que isso é resultado do predomínio da cultura ocidental de molde americano e espírito anglo-saxão, notadamente de valores consumistas e que são os que se destacam nesta invasão. O mesmo ocorreu no Brasil com o idioma francês no início do século XX, que, antes por sua expressão cultural que por sua expressão econômica, se impôs ao nosso dia-a-dia de brasileiros através de palavras como chofer, restaurante, menu,  boate, frisson, garçom, etc. , aparentemente sempre com boas associações, quais sejam, de divertimento. Não podemos nos esquecer de mencionar que na questão da análise da predominância que o francês teve, crucial importância teve a fundação da Universidade de São Paulo, na década de 1930, toda ela de inspiração francesa, com o seu corpo docente inicial de professores franceses. Durante muito tempo, ensinou-se o francês em nossas escolas secundárias, quase que em pé de igualdade com o inglês, o que se coadunava a uma Modernidade que foi basicamente de inspiração cultural francesa. Um livro muito interessante, e que faz um cômputo das palavras estrangeiras de uso corrente no Brasil é o “Palavras sem Fronteiras”, de Sergio Correa, onde o francês, ao menos até 10 anos atrás, ligeiramente se sobrepôs ao inglês como língua que mais emprestou vocábulos ao português do Brasil.

Cometemos, contudo, uma grande injustiça ou mal entendido no caso do idioma inglês, que temos que separar da cultura consumista americana, uma injustiça bastante grande, pois a língua de Shakespeare é o que se pode chamar de permeável, ou seja, recebe e deixa passar vocábulos, retransmitindo-os às demais línguas do mundo todo. Recebemos de volta através do idioma inglês palavras que, em sua maioria, não são de origem do antigo germânico, ramo do indo-europeu do qual deriva o atual inglês: a palavra delete, por exemplo, é palavra de origem latina (deleo) que, adaptada no idioma anglo-saxão, nos é devolvida para o uso diário em informática, Outro caso: technology é de origem grega (technê + logos), sendo-nos, novamente, devolvida com matiz de idioma anglo-saxão. Diria que, basicamente, é o inglês historicamente formado a partir de recebimentos do latim (há estatística que apresenta 50% das palavras inglesas, principalmente as mais eruditas, como de origem latina), a partir do período da dominação romana de boa parte da ilha e que perdurou até o século V DC, do francês, durante boa parte dos séculos XIII e XIV, já que o francês, por uma série de casamentos entre as casas reais européias, era a língua oficial da nobreza (muitos nobres ingleses não conheciam, ou faziam questão de não conhecer, o idioma pátrio, o que lhes evitava o aborrecimento de ter de conversar com a ralé), o restante vindo, a partir do século IX das invasões nórdicas, dos vikings.         

Assim, no fundo, o que temos é a devolução via inglês, de uma série de vocábulos latinos, gregos, franceses ao uso diário, com uma pitada anglo-saxônica.  Um livro que trata disto com bastante profundidade é o livro “A Aventura das Línguas no Ocidente”.

RP  


dez 16 2008

O marajá e a formiga

 Um famoso conto da literatura hindu conta que, certa vez, um marajá queria construir a mais espetacular residência para si, enorme, espaçosa, luxuosa, com tudo que o conforto poderia propiciar. Assim que a obra estava por terminar, ele começava a se inquietar e acaba agregando alguma novidade, fazia uma expansão em outra ala, tornando o trabalho uma obra sem fim. Uma noite, teve um sonho: sonhou que viu um menino de seus sete anos de idade com um pequeno e enigmático sorriso nos lábios. Quando o marajá se aproximou do menino, este se revelou como Buda, o iluminado. O menino Buda, sem nada dizer, apontou para um pelotão de formigas que, quase imperceptivelmente cruzava o salão majestoso e luxuoso onde estavam. Após alguns minutos, o pelotão acabou de cruzar o salão e o menino apontou para a última formiga do esquadrão de formigas e disse: na encarnação anterior esta formiga era um marajá que queria construir uma grande casa para morar e sempre vivia expandindo o seu projeto, nunca terminando-o. Hoje ela é a menos importante formiga de um pelotão de formigas. Quando acordou do seu sonho, o marajá mandou interromper a obra e destruí-la imediatamente.

RP      


dez 16 2008

O livre pensador e o acadêmico

O livre pensador é aquele sujeito que sai falando sobre um monte de assuntos sobre os quais o seu conhecimento é bastante tênue, já que ele se dedica a muitas áreas de conhecimento e não pode ser profundo em nenhuma delas. Uma das vantagens do livre pensador é a de que ele pode iniciar um debate, causar nos seus interlocutores o maior fuzuê, e sair belo e faceiro, deixando-os todos com um novo problema a resolver. Quanto ao livre-pensador, para ele fica tudo na mesma, pois ele não se vê (aliás, nem acredita) que consiga chegar a conclusão nenhuma, não sendo punido por seus atos de infantil provocação. Já o acadêmico, muito ao contrário, este tem que andar consistido, meditar muito, ouvir muito e falar pouco, pois tudo que ele fala – pior, tudo que ele escreve! - tem que ser sopesado, meditado, sofrido, para que, afinal, ele consiga, dizer ou afirmar alguma coisa, pois qualquer erro seu, mesmo que seja um banal erro de português numa conversa sem formalidade alguma, será usado contra ele.  A Sociedade precisa da sociedade dos dois, já que, se dependêssemos apenas do acadêmico, as coisas evoluiriam muito mais vagarosamente do que poderíamos esperar, ao passo que, se dependêssemos apenas e tão somente do livre-pensador, nunca chegaríamos a lugar algum, pois a última coisa que este último tem é compromisso com a meta. Uma outra maneira de encarar este debate é a de que o livre-pensador é de espírito autodidata, ao passo que o acadêmico evolui num ambiente mais controlado e afunilado.

RP


dez 16 2008

O Futuro, a quem pertence?

Na minha juventude - e já se vão 30 anos! – os grupos empresariais poderosos no Brasil eram os das grandes construtoras, umbilicalmente aliados aos governos militares que governavam o país, e incentivados pelo enorme volume de recursos estrangeiros que aqui ingressou, principalmente destinado a investimentos em infra-estrutura energética, de transporte e habitacional, estes últimos destinados principalmente à classe média e rica. Nomes como Norberto Odebrecht, Sebastião Camargo, Mendes Júnior, Olacyr Moraes, freqüentavam a coluna econômica com bastante freqüência e eram o paradigma do modelo de crescimento, cidadãos que já impunham uma rotina às capitais com seus helicópteros flutuando pelos espaços das grandes cidades do Brasil. Esgotada esta fonte, seriam os bancos que passariam a desempenhar, a partir da década passada, papel paradigmático na fantasia de todos sobre os desvarios dos poderosos, e nomes como Magalhães Pinto, Amador Aguiar, Olavo Setúbal, Aluisio Magalhães, dentre outros, passaram a freqüentar as páginas econômicas, desbancando os construtores de barragens e dos metrôs. Hoje, os bancos são tocados ainda de forma familiar, como um negócio de família, cedendo aqui e acolá espaço às casas financeiras internacionais. Com a presente crise financeira, discute-se a sobrevivência destes bancos, e mais ainda dos bancos internacionais e já se apontam as seguradoras como as empresas a se seguir no futuro, em função da cada vez maior exposição individual de todos nós aos grandes provocadores de tragédias pessoais do mundo pós-moderno: os carros, o álcool, o fumo, as drogas ilícitas. Será? Quem viver verá!

RP       


dez 16 2008

Nosso alfabeto

Um taxista me perguntou um dia destes : “qual a origem da escrita?”. Uma pergunta certamente difícil de responder, mas para a qual adianto algumas informações e que podem ajudar alguns interessados em ir mais profundamente às fontes.

 A nossa escrita é de origem romana, ou seja, utilizamos praticamente os mesmos caracteres que eram utilizados pelos romanos na sua época áurea, e falamos aqui de alguma coisa que teve início cerca de 400 AC, já que o Latim, língua dos romanos, originada no Lácio, região onde se situava a Roma antiga, data de cerca de 500 ou 600 anos AC, havendo controvérsia quanto à autenticidade de registros originais do aparecimento desta língua. Os caracteres romanos, a sua vez, têm origem em caracteres gregos, com pequenas diferenças, como por exemplo, a letra “a” corresponde ao “alfa” grego, “b” ao “beta”, etc. Isso não significa que a língua latina tenha se originado do idioma grego, e sim que o alfabeto latino (ou romano) teve origem diretamente do alfabeto grego. Tanto o grego como o latim, assim como o antigo alemão, o antigo eslavo, dentre muitas outras línguas, tiveram origem no indo-europeu ou indo-ariano, língua apenas falada e reconstruída por alguns especialistas, já que não há registro escrito desta língua primordial e que originou tantas outras, cujos povos que dela se utilizaram, ocuparam praticamente toda a Europa e Américas, bem como boa parte da atual Índia, com o sânscrito.

Alguns países como, por exemplo, a Finlândia e a Hungria, bem como todos os países árabes, têm idiomas com origens diferentes da nossa, ou seja, não são originados a partir da matriz indo-européia, embora possam, por vezes, se utilizar de caracteres romanos. O finlandês, por exemplo, é de origem urálica, ou seja, da região dos montes Urais, na Ásia, assim como o húngaro, de origem asiática, a partir das conquistas dos hunos de Átila em cerca de 500 DC, a quem os húngaros reverenciam como o fundador da sua pátria. O árabe, com alfabeto próprio, é língua do tronco semita, tendo por característica, como ocorre com todas as línguas de origem semita (de Sem, filho de Noé), como o aramaico e o hebraico, o fenício, não escreverem as vogais, mas tão somente as consoantes, sendo por isso conhecidos como alfabetos consonantais. Assim, por exemplo, a palavra Brasil, seria escrita apenas BRSL, cabendo ao leitor do texto interpretar qual a palavra que o escritor quis passar. A coisa fica um pouco facilitada quando se lembra que há todo um sistema de palavras raízes nos idiomas semitas e que de certa forma funcionam como diretórios raiz e subdiretórios, facilitando um pouco a coisa, a partir do conhecimento de algumas palavras raiz chaves. Lembramos que as palavras das línguas semitas são escritas no sentido contrário ao nosso, ou seja, no sentido da direita para a esquerda, o mesmo ocorrendo com os seus livros, lidos, pelo menos na nossa visão, de trás para frente, ou seja, o que é a nossa contracapa é capa deles. O sentido da direita para a esquerda na escrita é explicado pelo fato de ser o árabe uma língua que se valeu muito de inscrições lapidares (em pedras), onde é mais fácil – experimente!  – bater o cinzel com a mão direita e segurá-lo com a esquerda contra a pedra sobre a qual inscreveremos alguma frase ou datas. Coube ao alfabeto grego a grande inovação de acrescentar vogais aos caracteres fenícios, atual Líbano, que importou para fazer sua escrita, deixando à história descobrir os traços de antigas escritas anteriores, Linear A e Linear B, na ilha de Creta e datadas de cerca de 1.500 AC. A linear B foi decifrada por um inglês há cerca de 50 anos, ao passo que a Linear A continua um mistério a ser decifrado por um Champollion moderno.

Podemos assim dizer que o nosso alfabeto (escrita) português é de origem romana, o qual se originou do alfabeto grego antigo, praticamente o mesmo até hoje, e este último do fenício, o qual, a sua vez, tem forte conotação ideogramática, ou seja, cada caractere corresponde a imagens de coisas (básicas ou essenciais) reais: o Beth aramaico, que acabou gerando o nosso B, significa Casa nas línguas semitas, e originalmente é a representação imagética de uma casa, o mesmo ocorrendo com todos os demais caracteres semitas, provavelmente influenciados pelo contato com os povos egípcios há mais de 4.000 anos.

RP


dez 16 2008

A troca de nossas partes

Já fazemos há um bom tempo uma série de transplantes: de coração, fígado, baço, rim, córneas, pulmão, tecidos corporais de um lugar do corpo para outro, e aí por diante. Quanto ao corpo em si utilizamos botox, retiramos gordura (lipoaspiração), colocamos próteses de silicone, peniana, etc. Para aumentar a felicidade tomamos pílulas de bem estar com vários princípios ativos destinados a assegurar o nosso bom-humor e não nos deixar entrar em ciclotimia, que é a alternância de humor. Penso que no futuro não muito distante, aquele tempo de nosso netos, teremos a possibilidade de fazer implantes ou transplantes de pernas, braços, etc. Fico apenas na dúvida quanto a um ponto: faremos, quem sabe, um dia transplante de cérebros de um corpo para outro? Se assim for, como denominar melhor esta troca: é o corpo que troca de cérebro ou é o cérebro que troca de corpo? Estranho hein?

RP     


dez 15 2008

A negociação

Uma das negociações mais importantes de toda a história da humanidade foi a que tratou das reparações da Primeira Guerra Mundial, quando os países vencedores (EUA, Grã Bretanha, França e Itália) determinaram aos vencidos (Alemanha e Turquia) os termos das reparações de guerra, ou seja, como seriam pagos pela Alemanha os estragos causados pela guerra que iniciou. O resultado desta negociação é conhecido como o Tratado de Versailles, aquela cidadezinha que abriga o palácio de mesmo nome e que fica perto de Paris. Os alemães perderam tudo: seu direito de navegação, boa parte de sua frota, várias regiões mineiras estratégicas ao esforço de guerra e à industrialização, tendo sido, além disso, sobrecarregados com valores monetários a serem ressarcidos aos vencedores impossíveis de serem cumpridos. Para a França, capitaneada nas negociações pelo primeiro-ministro Clemenceau, foi a oportunidade de reparar ao país a honra perdida no último conflito entre os dois países, datado de 50 anos, quando a França foi fragorosamente humilhada pelos germânicos. Para a Inglaterra, representada por Lloyd George, em razão do esforço de guerra e dos empréstimos que precisou fazer junto ao governo americano, foi a transferência de seu poderio econômico, já a esta época eclipsando, aos Estados Unidos, que assim, passaram a assumir o papel de xerifes do mudo, lembrando que, como é costume, o costumeiro insulamento americano os levou, matreiramente ou não, a adentrar tardiamente no conflito. Para a Alemanha, conforme previsto por John Maynard Keynes, assessor do Tesouro Britânico e que, em função de sua discordância com os termos impostos aos alemães, se retirou antecipadamente da negociação, abandonando a sua delegação, representou o aparecimento do caldeirão nazista, que, justamente em função da carga colocada sobre os ombros alemães, encontrou terreno fértil para progredir na sua insânia de localizar e apontar um inimigo externo para os seus problemas. O episódio todo está narrado por Keynes no livro “Economic COnsequences of Peace”, as conseqüências econômicas da paz.

RP