Se atualmente nos definimos como tementes a Deus, agnósticos ou ateus, com praticamente nenhum resquício da existência ou prática disseminada de religiões animistas e politeístas entre os povos civilizados do Ocidente, nossos antepassados remotos, que faziam de cavernas suas casas, viviam a maior parte de suas frágeis vidas de, no máximo, 25 anos de idade no temor de manifestações naturais, as quais não conseguiam explicar ou entender, tais como relâmpagos, inundações, ruídos nas florestas, etc., sem, contudo, conseguir ainda idealizar uma relação com o divino ou sobre natural, que ainda não existia como conceito ou idéia em suas mentes. Se vivemos nosso período civilizado (de civitas, cidade em Latim) há não mais do que nove ou dez mil anos (as primeiras casas de barro foram construídas há 8.000 anos em Jericó), passamos o restante dos anteriores, aproximadamente, 140 mil anos de nossa existência como espécie homo sapiens sapiens (sic!) no assim chamado modo de vida social caçador coletor, que é o modo de vida no qual os portugueses encontraram nossos silvícolas quando descobriam o Brasil e que, praticando uma agricultura rudimentar, mas basicamente vivendo da caça e pesca, deslocando-se sempre que necessário, encontravam-se no estágio animista da religião, assim atribuindo alma (anima em Latim) às coisas em volta: se um arbusto mexe, é que há uma entidade viva dentro dele; se um rio flui, idem; se um raio cai, a mesma coisa. É interessante notar que vários idiomas nórdicos e germânicos dão ao deus supremo o nome de Thor, o mesmo nome do relâmpago, o que mostra a idéia de que o raio era um castigo divino pelas culpas terrestres, tudo isso já num estágio politeísta pagão e imediatamente posterior ao animismo mais primitivo.Boa parte deste estágio inicial animista, se é que assim podemos chamar, já que chamar de estágio pressupõe a idéia de um progresso na escalada humana quanto a este quesito, foi de um primitivismo ainda sem a consciência de um poder sobrenatural, seguido por um primitivismo animista e que atribuía vida (alma dando vida, e esta é a origem e o significado da palavra alma, como em Alma Mater, mãe nutridora.) às coisas. Não é preciso dizer que ainda neste estágio não havia o desenvolvimento da linguagem escrita, que era ainda apenas falada.
O Positivismo de Augusto Comte, um dos fundadores da Sociologia no século XIX, imbuído do espírito racional e da valorização da realidade sensível e palpável que animava todos os ramos da Ciência, e bem dentro da idéia de que um dia a Razão solaparia completamente a Religião nas mentes dos homens - e, é claro, ele não estava sozinho ao pensar assim - atribuía uma determinada evolução na percepção humana da realidade circundante, que, de religiosa e supersticiosa inicialmente, passaria a científica e não religiosa, sendo o Positivismo uma tentativa temporariamente bem sucedida, mas finalmente frustrada, de se impor como uma religião racional, com influências as mais difusas possíveis, hoje desaparecidas. Deixou, no entanto, em paralelo às idéias do alemão Karl Marx em seus estágios econômicos de desenvolvimento dialético ao qual corresponderiam sucessivos estágios da compreensão do mundo natural, finalmente precipitando, com o comunismo a redenção do Homem da Religião (“ópio do povo”, segundo Marx), também a idéia de se estar, com o uso da Razão, instaurando a sociedade humana ideal, uma chegada ao fim da História, já que tudo seria explicado e entendido, alguma coisa também recentemente aventada por Francis Fukuyama, que, nos calcanhares de Hegel, que já havia aludido à idéia, brincou (e se arrependeu posteriormente) com a idéia. O entendimento, ainda então bastante forte, de que haveria estágios sucessivos na percepção e ação humana com relação ao mundo natural e aos seus fenômenos, que, de religiosa, passou a científica, já que os fenômenos naturais que, originalmente, eram tidos como manifestações das coisas ao nosso redor, sejam do reino animal, vegetal ou mineral, passariam a ser paulatinamente explicados e incorporados ao conhecimento humano científico, que culminaria por explicar completamente o mundo natural, sofre, contudo um forte baque ao se apresentar, a partir de Freud, a força de uma instancia até então pouco conhecida e discutida, a força instintiva e irracional do Homem, seu Id, o que remetia ao lado animal do humano, que, não há como negar, faz parte, com os bonobos, chimpanzés, orangotangos e gorilas, da família dos primatas, tendo sua deriva de um tronco comum (com os chimpanzés e os bonobos) ocorrido há cinco milhões de anos, segundo os neodarwinistas.
O desenvolvimento das Ciências Físicas, Químicas e Biológicas, a partir da Idade Moderna, que se deu em 1492 com o descobrimento da América, e que é bem representado na equiparação, por Renée Descartes, em seu Discurso sobre o Método, dos animais à máquinas, é nada mais do que a tentativa antiga do Homem de se apoderar da tocha do conhecimento científico, roubando à Religião seu espaço antigo e medieval de domínio sobre corpos e mentes. Os esforços de Ícaro e de Prometeu bem mostram isso. A descoberta no século XVII por Copérnico de que a Terra não era o centro do Universo e, posteriormente, a revelação por Charles Darwin de que o Homem descendia dos macacos (primatas) jogou, definitivamente, uma pá de cal na possibilidade de qualquer entendimento entre os foros científico e religioso, tentativa que o paleontólogo francês Teilhard de Chardin intentou, sem sucesso, realizar na metade do século XX. A revelação no início do século XX , por Hubble, de um Universo que não se restringia à nossa Via Láctea, juntou humilhação à vergonha humana de se pretender único e centro do Universo, embora, hoje, a teologia do Vaticano se esforce, principalmente a partir dos escritos de Joseph Ratzinger, a demonstrar a humildade da criação ao nos colocar num canto sem importância do Universo. A vingança religiosa veio como uma tapa com luva de pelica, quando o principal concorrente de Darwin na idéia da evolução natural, Alfred Russell Wallace, se tornou espiritualista (espírita) desconcertando o meio científico como um anjo caído do pedestal da ciência.
Pode-se, contudo e, grosso modo, definir os estágios religiosos como animistas como tendo iniciado há 40 mil anos, que são próprios aos povos primitivos e que atribuem força e energia divina à natureza e seus seres e coisas, sem ainda conseguir extrair nada além, tentando apaziguar estas forças de um modo ainda bastante infantil e não ordenado, sem o assentamento ainda de uma cultura estabelecida. Os primeiros traços humanos pictóricos nas cavernas européias, mostrando animais como touros e cavalos, podem significar uma tentativa de domínio e inicio de uma religião humana e cultura, já que, a partir daí , animais passaram a ser usados como sacrifícios de sangue, principalmente os animais de tração e alimentação, como bois, cabras, ovelhas, etc. Para Freud, isso significa a expiação humana pela morte grupal do pai realizada pelos filhos e que está no inconsciente de todos nós, alguma coisa bem retratada na crucificação de Cristo, o Cordeiro de Deus, que substituiu a todos os humanos num sacrifício ritual. Em seguida, e em função do que anteriormente dissemos, e isso é bastante explícito na noção panteísta grega e romana, os deuses que animam a vida na Terra adquirem nomes e poderes diferenciados, numa hierarquia terrestre e celeste, embora ainda a característica mais conspícua dessa situação seja a de uma forte interferência e interação entre o panteão de deuses pagãos (Zeus, Eros, Vulcano, Minerva, etc.) e os homens. Odes aos povos grego e romano, como a Odisséia e a Ilíada e a Eneida, assim como a própria ode de Camões ao povo luso, Os Lusíadas, mostram bem o nível de interferência e mesmo intromissão dos deuses pagãos gregos e romanos no dia-a-dia dos mortais, conferindo mesmo, a uns e outros semi-deuses, filhos de conjunção carnal entre deuses pagãos e humanos, por exemplo a Hércules, o dom da imortalidade. Se o estágio inicial da religião era animista, no seu estágio seguinte passou a ser politeísta, ainda confundindo muito manifestações naturais e deuses locais, como deuses do parto, deuses de determinados rios, ventos, etc., em paralelo aos deuses mais poderosos habitantes do céu. Este estágio coincide ou se forma com a fundação das primeiras cidades em vários pontos diferentes do planeta, mas tem origem, principalmente, em rituais camponeses, que até hoje se incorporam às tradições ocidentais (Carnaval, Festas Juninas, etc.) sendo para nós ocidentais, o Vale do Nilo e a Mesopotâmia os mais importantes, já que deram origem à tradição religiosa ocidental, que, se de matriz cultural grega, é judaico-cristã nos seu aspecto religioso, havendo, é claro, uma imbricação muito grande entre Grécia e Oriente, como suspeitavam Platão e Heródoto.
Ao politeísmo pagão grego, romano e egípcio, adoração a vários deuses maiores e menores, longínquos e locais, também presente no Egito dos Faraós e em praticamente todas as religiões que haviam deixado o estágio animista de caçador coletor, tornando-se pagãs, bastando lembrar os esforços de Akhenaton para fazer de Rá o Deus único, alguma coisa que não escapou a percepção de Freud, sucedeu-se, com Abrão e Moisés, a consagração a um só Deus, Javé, registro primeiro de uma religião monoteísta, ou seja, que venera e aceita um só Deus, finalmente adotada no século IV DC como religião oficial do império romano do Ocidente e, posteriormente, no século V DC, no Império Romano do Oriente, em Constantinopla. Assim, ao politeísmo egípcio e grego, através da tradição judaico cristã, sucedeu o monoteísmo fundado por Abraão, e do qual se originaram as religiões hebraica (a partir de Sara) e muçulmana (a partir de Agar, a segunda mulher de Abraão).
As provas de fogo do monoteísmo hebreu, além do episódio da adoração ao bezerro de ouro, foram a cisão representada por Jesus Cristo, não reconhecido como o Messias, assim como vários outros judeus que posteriormente apareceram e não se confirmaram aos judeus como o Salvador. Para o catolicismo (“para todos” em grego, e em contraposição à idéia do judaísmo de uma religião para um povo escolhido e diferente dos demais), o desafio maior partiu das, assim chamadas, heresias, que discutiam a pessoalidade da trindade divina e a origem de cada uma delas, bem como a Trindade cristã, sendo a pelagiana, a ariana e a monofisista as principais heresias aos dogmas cristãos, combatidas e derrotadas por Santo Agostinho em Concílios. Sempre perigoso, o maniqueísmo, de origem remota persa e que questionava o poder da divindade ao propor a origem simultânea do bem e do mal, só foi realmente debelado no século XIII DC.
A reforma protestante, adiada para o início do século XVI pelos esforços ingentes de São Tomás de Aquino e demais escolásticos, representou golpe duro na solidez e hegemonia católica, ao propor, através de Lutero e Calvino, principalmente, a idéia da superfluidade da instituição e intermediação da Igreja, já que, nas palavras de Lutero, onde houvesse uma Bíblia haveria uma igreja, ou seja, a Palavra divina, ou Logos, poderia ser interpretada pelos fiéis sem a necessidade da interferência do clero religioso, ressalvada a importância enorme do pensamento de Agostinho no pensamento dos dois luminares do protestantismos, principalmente através da doutrina da graça, do livre-arbítrio e do mérito da lavra de Agostinho. De grande auxílio a Lutero e aos seus ideais foi o surgimento da prensa de Gutenberg, o que permitiu a produção de centenas de milhares das chamadas bíblias de Lutero, em alemão e não mais em latim, escapando à Igreja o domínio da interpretação. A venda da bíblia de Lutero se deu às centenas de milhares de exemplares. Análises sobre causalidade e determinismo, já presentes em todas as obras dos estudiosos da época, continuaram a solicitar as melhores mentes e ainda se incorporaram à dificuldade apresentada pela não formulação por Einstein da teoria do campo unificado, que tentaria conciliar o determinismo da física dos eventos macros, com a probabilidade da Física Quântica de Niels Bohr. Ao que se aponta, o calcanhar de Aquiles da doutrina católica e protestante reside na análise da onisciência divina frente ao livre-arbítrio humano: se Deus sabe que alguém vai errar, por que não o demove do erro?
À doutrina de um Deus único e presidindo aos atos humanos, que é a essência da doutrina monoteísta cristã e hebraica, que a tradição maometana incorporou, a formulação panteísta de Baruch Spinoza, pensador banido do judaísmo, mas extremamente admirado por inúmeros cientistas modernos (Einstein e Russel, entre os mais eminentes), contrapôs a idéia de uma força inteligente, responsável por todas as leis e acontecimentos naturais, mas impessoal.
Nas religiões orientais como o hinduísmo e o budismo, desenvolveu-se a idéia de que o Todo está em tudo e que a vida terrestre não passa de uma vida de ilusão do Véu de Maia (ilusão em sânscrito), já que tudo faz parte de uma realidade única e inalterável e que, para escapar a roda do eterno retorno, formulação que Nietzsche incorporou à sua doutrina, assim como Schopenhauer, é apenas necessário que, entre encarnações, tenhamos consciência disto. Assim como ocorreu, tardiamente e de forma fraca no Ocidente, com o positivismo, o Oriente, principalmente China e Japão, adotaram “religiões civis”, como as prescritas pelas práticas de Confúcio, e que serviram para estabilizar socialmente contingentes enormes de pessoas vivendo em sociedades estáveis e hierarquizadas, alguma coisa até hoje lá preservada.
Do ponto de vista de vida após a morte, e do espectro de um Céu ou um Inferno nos aguardando, bem como da série de manifestações divinas na vida terrestre (dilúvio, Sodoma e Gomorra, a paternogênese, que é o nascimento a partir de uma virgem, etc.) há uma identidade muito grande entre todas as religiões, provavelmente, decorrentes de um inconsciente coletivo (Jung), que responde por nossas formulações irracionais e primitivas, inconscientes e que se manifestam em ações que a psicanálise tenta explicar. O livro sagrado dos Mayas, o Popol Vuh, é repleto de situações de similitude com as demais religiões.
Assim, para finalizar um tema tão árido, e, é claro, deixando uma série de buracos, podemos dizer que, se o Ocidente é dividido entre as religiões e denominações cristãs (católica apostólica romana, católica ortodoxa (árabe, russa, grega, etc.) e as diversas denominações protestante), praticamente não sobrando qualquer resquício das religiões animistas dos aborígenes, bem como pela muçulmana, que se espalhou como brasa dentre os povos africanos e do médio oriente a partir do surgimento do profeta Maomé, o Oriente é de orientação budista e confuciana, bem como taoista, com algum espaço preservado a religiões levadas pelos indo-europeus à Índia e configurada no sistema de castas do Bramanismo.