jun 28 2009

Lanterna na Popa

Tenho lido alguns livros sobre a mais recente crise financeira mundial; fico impressionado não pela incapacidade de especialistas como Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia de 2008, Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve Americano, e Fareed Zakaria, âncora da CNN e articulista da Newsweek, fazerem previsões sobre o futuro, alguma coisa que nunca é fácil, mas sim pela dificuldade de explicarem o que ocorreu no passado próximo, tendo em vista o nível de detalhe em que entram e a complexidade das fórmulas explicativas, que parecem um milheiro de exceções em meio a uma dezena de regras.

Lembro-me do livro autobiográfico da autoria do economista Roberto Campos, o famigerado Bob Fields queridinho dos governos militares, e que se intitula “Lanterna na Popa”. A frase é de Samuel Coleridge e significa a dificuldade que todos temos em tentar explicar fatos recém ocorridos, explicação que só conseguimos dar de forma bastante frágil e insegura, quando os fatos já passaram por nós, surpreendendo-nos; é como se estivéssemos em um pequeno barco em mar aberto, onde, segurando tremulamente uma lanterna na popa, vislumbramos de modo incerto e tentativo o que atingiu o barco. 

Roberto Procópio 


jun 28 2009

Expressões, gestos e emoção.

Há muito tempo um amigo de trabalho fez uma brincadeira comigo, que só muitos anos depois vim a descobrir e decifrar sobre o que ele estava falando.  Dizia que havia determinado estágio na involução humana - isto mesmo involução e não evolução – em que determinados indivíduos tinham uma postura corporal que os fazia passar o braço esquerdo por sobre a cabeça, repousando a mão esquerda sobre o lado direito da cabeça. Dizia ele que isto era o que havia de mais primitivo na postura humana.

Fiquei com aquele comentário dele registrado em mim por um bom tempo e só vim descobrir e decifrar o enigma depois de uns cinco anos: percebi que o Bardus, esse é o seu nome, referia-se a mim, pois quando estou pensando e extremamente concentrado tenho por hábito passar o braço esquerdo para o lado direito, por cima da cabeça, etc. Quando li recentemente o livro de Darwin que trata do assunto e se intitula “A expressão das emoções no Homem e nos animais”, percebi que este tipo de gesto meu é bastante comum em chimpanzés e bonobos, dentre muitos outros gestos e posturas assemelhados que temos com vários tipos de animais, o que tem levado a uma expansão do conceito de humano, não mais atinente apenas a nós, mas a todos aqueles que conseguem se importar com o outro.

Afinal, o que mais humano e emotivo do que o olhar de um cachorro de estimação, ou o canto de um pássaro quando voltamos para casa, ou a encostada que nosso gato nos dá, com a lateral de seu corpo, demonstrando, diz Darwin, que está desarmado se oferecendo em carinho para nós?  

Roberto Procopio


jun 28 2009

Expressões, gestos e emoção.

Há muito tempo um amigo de trabalho fez uma brincadeira comigo, que só muitos anos depois vim a descobrir e decifrar sobre o que ele estava falando.  Dizia que havia determinado estágio na involução humana - isto mesmo involução e não evolução – em que determinados indivíduos tinham uma postura corporal que os fazia passar o braço esquerdo por sobre a cabeça, repousando a mão esquerda sobre o lado direito da cabeça. Dizia ele que isto era o que havia de mais primitivo na postura humana.

Fiquei com aquele comentário dele registrado em mim por um bom tempo e só vim descobrir e decifrar o enigma depois de uns cinco anos: percebi que o Bardus, esse é o seu nome, referia-se a mim, pois quando estou pensando e extremamente concentrado tenho por hábito passar o braço esquerdo para o lado direito, por cima da cabeça, etc. Quando li recentemente o livro de Darwin que trata do assunto e se intitula “A expressão das emoções no Homem e nos animais”, percebi que este tipo de gesto meu é bastante comum em chimpanzés e bonobos, dentre muitos outros gestos e posturas assemelhados que temos com vários tipos de animais, o que tem levado a uma expansão do conceito de humano, não mais atinente apenas a nós, mas a todos aqueles que conseguem se importar com o outro.

Afinal, o que mais humano e emotivo do que o olhar de um cachorro de estimação, ou o canto de um pássaro quando voltamos para casa, ou a encostada que nosso gato nos dá, com a lateral de seu corpo, demonstrando, diz Darwin, que está desarmado se oferecendo em carinho para nós?  

Roberto Procopio


jun 28 2009

“Odeio Televisão!”

É esta a frase pichada que leio quase todos os dias numa grande avenida de São Paulo e que me levou a refletir bastante sobre ela. Em primeiro lugar, embora não seja um grande espectador de TV – devo assistir uma média de uma hora diária de televisão – penso que há muita coisa boa na televisão brasileira que devemos sim acompanhar, não vendo a mesma apenas como um órgão massificador e estupidificante de pessoas, o que, em boa parte, ela é. Não consigo assistir o Faustão, por exemplo, sem ter a impressão de que há um idiota sentado à frente do aparelho. 

Penso que a frase tem uma face oculta, já que quem odeia está, em função deste ódio, preservando uma relação de proximidade com a TV. Não se pode odiar o que não está próximo, não é mesmo? Ou seja, parodiando César Becaria, a função da proximidade é manter o ódio, demonstrando que, pela proximidade, há uma atração pelo objeto odiado. Se me afasto, deixo de odiar. Se odeio, é por que estou e me conservo sempre próximo ao objeto amad….ooops  odiado.

Roberto Procopio


jun 28 2009

Gaia

A Raquel comentou que o filho dela de 4 anos aprende na escola a respeitar o planeta a partir da associação entre o consumo excessivo de água e um planeta que chora. Achei esta história super bacana e que mostra que nem tudo está perdido! Em primeiro lugar, pelo próprio fato em si, mostrando que ainda temos muito a aprender com os mais jovens. Em segundo lugar, por representar uma volta à idéia de uma unicidade em tudo que fazemos, mostrando que somos partícipes em tudo , ou quase tudo, que ocorre no planeta em termos de ecologia. Em terceiro lugar, achei o tipo de abordagem de uma sensibilidade enorme, pois parece-me que as crianças, ao contrário da maior parte de nós, adultos, preserva uma sensação de uma pertença a alguma coisa maior, que é a idéia da Terra (Gaia para os gregos antigos), como Mãe Natureza, idéia tão forte que se preserva nos rituais camponeses que ainda experimentamos no nosso dia-a-dia (festas juninas, o próprio carnaval, procissões tipo círio de Belém, bem como, ensina-nos Wysnick no livro Veneno Remédio, o próprio futebol, com origem em rituais franceses bem antigos).

Ou seja, se a associação desperdício de água com lágrimas da Mãe Natureza não nos faz mais sentido como adultos, parece-me que perdemos algo de precioso que as crianças ainda compreendem e que, bem sutilmente como tudo que fazem, nos ensinam. Afinal, o homem adulto não é o filho da criança?

Roberto Procopio 


jun 28 2009

Zygmunt Bauman

Comecei a ler os livros de Zygmunt Bauman apenas há um ano e ele já é um dos autores que mais li em toda a minha vida. Como sou compulsivo com o que faço, guardadas as devidas proporções, seguindo um pouco o exemplo de John Maynard Keynes, que fazia o mesmo, anoto tudo o que leio, ou seja, listo os nomes dos livros e autores que li desde 1998. O pirado do Paulo Coelho, diz-nos o seu biógrafo Fernando Morais, fazia o mesmo. Do Bauman li 10 livros, e penso que só perde, no quesito autores que li, para o Freud e o Marx, de quem li um pouco mais, embora não seja seguidor de nenhum deles.

O que admiro no Bauman é a sua capacidade para, como Leonardo da Vinci, de uma única observação, fazer um tratado ou um discurso sobre o objeto vislumbrado, real no caso do grande artista plástico florentino, social e das relações humanas no caso do sociólogo, como Joseph Conrad, polonês e inglês. Esta capacidade de Bauman é equivalente na Sociologia, e ele é muito mais do que sociólogo, como se isso não bastasse, ao poder de observação de um Charles Darwin na Biologia e de um Isaac Newton na Física Mecânica. No caso de Einstein, o gênio alemão (suíço , americano, apátrida), ele tinha as suas idéias a partir de processos intuitivos mentais, raramente valendo-se de ferramental científico que o induzisse a elas.

Admiro ainda em Bauman algumas coisas: ele parece que adquiriu aquilo que já era hábito no Albert Einstein menino, o de falar apenas coisas que ele tivesse mentalmente repassado, ou sussurrado para si mesmo, ao menos três vezes. Nada em Bauman parece excessivo e tudo vem na hora certa, qualidade que também vi no pouco que li de Joseph Ratzinger. Ainda sobre o pensador polaco, admiro nele sua capacidade de valorizar a obra e o pensamento de outros filósofos, especialmente os contemporâneos. Ler Bauman é ler Levinas, Rorty, Baudrillard, Beck, etc. citados inúmeras vezes e dos quais Bauman extrai e amplia para uma série de conclusões juvenis, ou seja, conclusões como se fosse um jovem que estivesse vivendo o que fala, quando já está bem adentrado nos 80 anos de sua vida, 83 para ser mais preciso.

Para finalizar, embora em alguns de seu livros sobre a Pós-Modernidade possamos entendê-lo como sendo de uma objetividade cruel, em alguns deles, a partir de Emmanuel Levinas, ele trata bastante e bem da questão da moralidade humana, da preocupação com o Outro, que é quando se resolvem (pela ansiedade perene) os dilemas da vida humana.

Roberto Procopio          


jun 28 2009

Spinoza

Li seu principal livro há alguns anos e impressionei-me principalmente com o exemplo de vida do sábio holandês de origem espanhola. Seu pai Baruch Spinoza emigrou da Espanha para a Holanda, para assim escapar aos excessos da Inquisição na península Ibérica, mas o filho desenvolveu desde cedo um espírito altivo e independente, não se apegando a nenhuma fé religiosa específica, desenvolvendo um conceito próprio de divindade, uma divindade impessoal, pensamento anátema para os judeus, que o excomungaram da fé hebraica.

A excomunhão no judaísmo é bem mais barra-pesada do que no catolicismo, uma cerimônia de grande humilhação ao anatemizado, à qual Spinoza respondeu com um ascetismo pessoal à toda prova, colocando-se acima de qualquer julgamento e ação, dedicando-se ao seu ofício de especialista em lentes ópticas.

O ascetismo pessoal de Spinoza, e a sua crença numa força superior não pessoal, sensibilizaram muitos ocidentais, principalmente entre os cientistas, e o credo de Spinoza foi adotado por eminentes cientistas da física e da matemática do século XX como Albert Einstein, Bertrand Russell e Robert Oppenheimer.

Para mim, de Spinoza fica a impressão de uma pessoal sem amargura e que encontrou a paz interior, vivendo uma vida simples e sem apego a bens materiais.

Roberto Procopio   


jun 28 2009

Mesa redonda

No mais célebre romance espanhol, Dom Quixote de La Mancha, aparece um problema até então inusitado: Dom Quixote e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, contrariamente às mesas alongadas da hierarquia medieval e que prescreviam um lugar para cada qual, sempre conforme a nobreza de seu título, defrontam-se com uma mesa redonda e não sabem como resolver o dilema da acomodação da hierarquia cavaleiro/escudeiro, anteriormente, nos romances medievais, de fácil solução.

Após pensar cofiando a sua célebre barbicha, Dom Quixote tem a grande idéia e diz: Sancho não te preocupe, de agora em diante, sempre que encontrarmos este tipo de mesa, onde eu sentar sempre será a tua cabeceira!  O episódio, como tudo que acontece no romance de Miguel de Cervantes, guarda um pouco de tragédia e destino por detrás do aspecto hilário, já que desvela o grau e importância dos sistemas nobiliárquicos na península ibérica e que até hoje resiste nos países latinos, além de na própria península, em sistemas de sutil diferenciação econômica e social, como se, escamoteados sob uma pseudo mesa redonda, se alongam em cabeceiras de poder inacessíveis aos Sancho Panças latinos.

Roberto Procopio   


jun 10 2009

O baixo clero tinha razão!

A ópera Carmina Burana é a combinação da música de Carl Orff com os textos escolhidos pelo maestro austríaco e que foram escritos por clérigos beneditinos dos séculos XIII adiante, sendo de autoria em parte conhecida, em parte desconhecida. O baixo clero era constituído por candidatos às funções sacerdotais mais elevadas e que tinham menos obrigações litúrgicas, vivendo em uma zona intermediária de onde poderiam ascender, permanecer ou serem ejetados de volta à vida secular ou civil. Os textos são profanos, ou seja, tratam de assuntos que não poderiam ser discutidos, o amor, a paixão, as emoções, a beleza de um colo de uma donzela, etc., e são inauguradores do movimento romântico posterior à Idade Média.

Todavia, o tema mais polêmico não era o vislumbre de um decote mais ousado e sim a incerteza de uma vida comandada pela roda da Fortuna, desconectada de uma lógica ou causação divina, conforme mandava o ordenamento católico.

Li recentemente o livro de Paul Krugman sobre a recente crise financeira mundial, no qual o Prêmio Nobel de Economia de 2008 lambasta o ex-presidente do FED americano, Alan Greenspan, pela crise que assola o mundo, ocorrida três anos após a saída de Greenspan do FED, e que, segundo Krugman, deveu-se à não intervenção do ex Guardião das Finanças Mundiais para conter as bolhas dos mercados imobiliários e de ações que já se formavam há muito tempo, e que eram do conhecimento de todos os especialistas.

Não sei quem tem razão na história, mas uma coisa concluo com o baixo clero beneditino que escreveu as Canções da Casa Pequena : a glória é efêmera e, se há alguns anos Greenspan era tido como o mago das Finanças mundiais, hoje já há quem , como Krugman, o compare a um sortudo que nada fez para merecer o prestígio e a fama que granjeou como presidente do Banco Central americano.

Roberto Procopio  


jun 7 2009

O caminho do Inferno…

Está pavimentado de boas intenções, diz o provérbio. Isso parece especialmente correto no caso das, assim chamadas, drogas de substituição, medicamentos criados pela indústria farmacêutica mundial e que se destinam, em princípio, a desintoxicar os dependentes químicos, propiciando um tipo de passe-fácil para a saída da dependência. Países como a Austrália, diz uma especialista, já têm mais de25% da população de jovens como consumidores contumazes de drogas legais e ilegais. Mas parece que, ao lado do pé de anjo, tem um casco fendido e cheiro de enxofre, já que praticamente todas as drogas de saída foram eventualmente incorporadas como drogas de consumo freqüente pelos viciados em entorpecentes, que as assimilam e misturam em coquetéis com outras drogas e álcool, potencializando efeitos inesperados e desconhecidos.

Assim, um das grandes crises existenciais das autoridades mundiais no combate às drogas é o ter de conviver com o mal menor, ou seja, relevar uma e outra droga de relativamente baixo poder de intoxicação, temendo que outra mais pesada e forte se incorpore ao hábito de grandes contingentes de usuários. Isso do lado da União Européia, que adota uma política de convivência com a drogam, que á a de tentar evitar um mal maior, estratégia que não tem nada a ver com a americana, que é a de pura e simplesmente eliminar as fontes de tráfico.

Estudos atuais apontam para o crescente consumo de álcool entre jovens do sexo feminino no Brasil e uma taxa potencial de erradicação (nunca definitiva) do fumo de apenas 30%. Drogas como o ecstasy promovem a rápida depleção dos poderosos estimulantes cerebrais como a serotonina, por exemplo, e o consumo continuado desta substancia, simplesmente exaure as minas de serotonina, deixando os consumidores arreados cerebralmente e em busca desesperada por mais prazer serotônico (sic!).

Como dizia Dante na Divina Comédia, no capítulo do Inferno: “quem aqui entrar, abandone toda a esperança”, motto que pode bem ser adotado por usuários, principalmente os que entram por diversão e que, ao final, acabam encontrando o que jamais esperavam, a depressão e o vazio.

Roberto Procopio   


abr 30 2009

Tecnologia Ajuda?

Na maior parte das vezes, sim, mas lembro-me aqui de uma vez em que eu quis assinar uma destes pacotes de TV a cabo, mais ou menos há uns 2 anos. Eu trabalhava em Alphaville e morava (como ainda moro) em São Paulo, capital, o que me obrigava a usar um telefone de Alphaville para fechar uma instalação em São Paulo.

Primeira tentativa: voz robótica do outro lado: “prezado cliente (sic!), identificamos que a área de onde o senhor está ligando não é atendida pelos nossos serviços. Obrigado”.

Não acreditei e fui para a segunda tentativa, imaginando que, ao menos, teria uma área de escape, alguma opção no menu para que eu pudesse explicar a algum ser humano do outro lado que, embora eu estivesse ligando de Alphaville , a instalação seria na capital. Novamente, a mesma decepção.

Ou seja, para a pergunta acima, a resposta é: ajuda sim, sempre que não quisermos não vender, colocando uma blindagem tecnológica frente a empresa e um “simples” cliente.

Roberto Procopio

  


abr 29 2009

O salto no escuro

Passados cerca de cinco mil anos desde que as primeiras civilizações estabeleceram-se em vários pontos do globo, o ser humano continua não conseguindo responder as perguntas mais básicas. Penso que isto faz parte do plano original, do design do Criador, seja Ele pessoal ou impessoal, e mesmo que entendamos este design ou plano de uma forma caótica, incompreensível.

Sempre que procuramos encontrar um sentido, uma teleologia nas manifestações terrestres, nos deparamos com uma interrogação: por que isto ocorre? como isto ocorre? etc. Nem a Filosofia, destinada a encontrar um objeto que , por definição, escapa ao caçador, nem a Ciência, voltada à busca de um objeto único acima de quaisquer sujeitos e interpretações, conseguiram desinquietar o ser humano, o mesmo ocorrendo com as Ciências Sociais, que teve seus esforços malogrados sempre que procurou um Homem racional e cem por cento explicável e previsível. Quanto à Religião, ela perde pontos sempre que se afasta do conceito de altar e de porta para realidades necessariamente incompreensíveis, e que têm sua riqueza e justificação justamente neste formato de lidar com um objeto inalcançável, assim valorizando os aspectos litúrgicos religiosos.

Assim, a Religião e a Filosofia têm uma certa semelhança, já que as duas, por definição, têm objetos inalcançáveis, embora o salto no escuro da primeira seja mais longo do que o da segunda.

Roberto Procopio            


abr 28 2009

A resposta definitiva!

Nestes últimos dez anos, a partir de algumas inquietações ligadas à minha saúde que declinava – mas que agora só se apruma - procurei a resposta definitiva para as minhas inquietações existenciais.  Consultei os livros religiosos ocidentais e orientais e meso americanos, os sábios da Mesopotâmia e da Grécia Antiga, os retóricos e estóicos romanos, os neo-platônicos do Império do Ocidente que declinava, bem como seu cronista maior, Edward Gibbon, do império do Oriente que surgia, li filósofos religiosos como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, que tratam da doutrina revelada, reli os céticos como Maquiavel e Hobbes, os iluministas que iniciavam a jornada da Razão que se iniciava, bem como os que se encontravam entre dois mundos sem saber em qual se atirar, misturando misticismo e intelecto, enveredei pelos conformados e inconformados dos séculos XIX e XX, bem como li com cautela os que anunciavam novos tempos para sociedade moderna a partir dos descobrimentos geográficos e científicos, para a biologia e a genética em formação. Dei uma passadinha bem de leve na física clássica de Copérnico, Galileu e Newton e na da relatividade de Einstein e na quântica de Niels Bohr. Li inúmeros livros de divulgação científica (não especializados) sobre tudo que viesse à frente e, afinal, tudo que me aparecia à frente. Só achei que tinha que ser um pouco mais seletivo quando comprei a biografia do José Genuíno e um livro sobre as histórias das formigas na Inglaterra, embora o último seja muito mais interessante que o anterior.

História Geral e do Brasil, Filosofia, Literatura, Sociologia, Economia, Psicologia e Psicanálise, Biologia, Religião, Administração, Teoria do conhecimento, Línguas, Genética, Física e Química, penso que ficou muito pouco de fora, o que deu alguma coisa como a leitura de 700 livros de mais de 450 autores diferentes nos dez últimos anos. È claro, ainda falta muito e poderia dizer que ainda falta tudo (ou nada).

Assim, depois de tanto esforço e dedicação – sempre prazerosos - já consigo responder às perguntas inquietantes da existência humana que me afligiam no inicio da empreitada! Digo alto e em bom tom a todos que queiram ouvir a verdade do conhecimento adquirido:

“EU NÃO SEI!”

Não consegui encontrar o elo perdido entre Ciência e Religião, entre História e Mito, entre Determinismo e Acaso, entre Psicologia e Psicanálise, entre Etologia e Comportamento Humano, entre os Bonobos, os Chimpanzés e nós, seres humanos, entre Verdade e Certeza, entre Veneno e Remédio, entre Natureza e Ambiente, entre Beleza e Feiura, entre vida e morte, entre Revelação e Sabedoria, entre Oriente e Ocidente, entre o Quarto e o quinto império de Vieira, entre os vários infinitos, entre Doença e Sanidade, apenas para mencionar algumas das minhas não conclusões. Mas, afinal, não é melhor assim, do que precisar levantar o véu da Ilusão e não conseguir entendê-lo?

Roberto Procopio


abr 27 2009

A gripe suína

Não dá para dizer que a gripe suína é um fenômeno do mundo globalizado, mas podemos  associar a sua velocidade de propagação a um mundo rápido como o de hoje, onde as inteirações econômicas e culturais entre países distantes são muito maiores do que há, digamos, duas ou três décadas.

A vacina apropriada para combater a nova “influenza” deve demorar alguma coisa como seis meses até ficar pronta e testada, o que mostra que as dificuldades propiciadas e originadas pelo mundo tecnológico em que vivemos são imprevisíveis e de caráter chocante, ou seja, a qualquer hora, alguma novidade surpreendente e chocante pode abalar o globo, seja no aspecto econômico, como a recente e atual crise financeira, seja no aspecto social e cultural, como mostram os atentados terroristas nos centros financeiros do mundo (Nova Iorque e Londres), seja no aspecto – como vemos agora – de uma epidemia local que pode virar pandemia, ou seja, adquirir o caráter de uma dispersão generalizada e grave de uma doença.

Como manifestação simbólica surpreendente, vemos a gripe originada de um animal anátema para várias religiões e símbolo de sujeira, lembrando-nos da fragilidade da condição humana, com a potencialidade de atingir rapidamente todo as capitais do mundo civilizado globalizado.  

Roberto Procópio    


abr 23 2009

A Fonte de Adriano

Na expedição com duração de cinco anos do navio britânico Beagle pela America do Sul, África, Oceania e Caribe, uma das mais importantes tarefas, além de mapear todos os portos, baías, reentrâncias das costas visitadas, a fim de garantir a supremacia militar e comercial britânica, que até então se apoiava, em boa parte, em pouco confiáveis e imprecisos mapas espanhóis, franceses e portugueses, foi a de devolver ao território sul-americana, atual costa Argentina, três indígenas locais e que haviam passado os sete últimos anos na corte Inglesa.

A idéia era a de infundir nos três (na realidade quatro, já que um deles morreu em território inglês) os valores da elevada civilização inglesa, que conhecia então o ápice de seu poderio bélico e comercial, que prevaleceu por todo o século XIX. Todos os três haviam recebido lições de etiqueta, haviam aprendido o idioma, que falavam de forma perfeita, adotando os hábitos refinados da nobreza e burguesia local, bem como nomes ingleses. A expectativa era grande: conseguiriam estes novos cidadãos ingleses passar aos seus os valores superiores da cultura européia? Não há dúvida, um espetacular e audacioso experimento de engenharia social.

Chegando à costa onde deveriam aportar, era assim grande a ansiedade, logo desfeita ao se ver que um dos três, ao ver as pessoas conhecidas que havia deixado, tirou todas as roupas que vestia e mergulhou no mar em direção à costa e aos seus. Todos os três abandonaram seus hábitos ingleses e se misturaram imediatamente à sua tribo, deixando os britânicos de queixo caído.

Não lembra um pouco esta estória do nosso craque de futebol, Adriano, o Imperador?        


abr 20 2009

Milton Friedman ou Keynes?

O Luiz Roberto comprou recentemente num sebo virtual o livro Capitalismo e Liberdade, o qual já analisamos aqui, mas que, em essência, apresenta a tese do papa do neo liberalismo de que o mercado é sempre soberano para fazer os seus ajustes à realidade das forças econômicas, de nada adiantando as intervenções governamentais, como, por exemplo, as que se seguiram após o crack da Bolsa de Nova Iorque em 1929.

As teses de Friedman são as preferidas dos republicanos americanos e dos ingleses thatcheristas, isto é, os seguidores da ex-primeira ministra Margaret Thatcher, a dama de ferro do período da desregulamentação da economia inglesa na década de 80, e são diametralmente opostas às do economista inglês John Maynard Keynes, e que propõe um estado razoavelmente intervencionista e com capacidade de estimular a economia através de gastos públicos e orçamentos ligeiramente desequilibrados e inflacionários.

Parece , ainda segundo o Luiz Roberto, que o livro de Friedman está ganhando momentum na bolsa virtual dos livros, o que deve deixar  o finado Friedman duplamente satisfeito, seja por ver funcionando as forças de oferta e demanda do mercado livre, seja por ver de novo seu nome de volta ao topo de vendas e preço.

Nesta queda de braço, fica apenas a curiosidade a ser satisfeita pelos dados do futuro: quem vencerá?

Roberto Procopio

 


abr 17 2009

As drosófilas

Embora admire muito o trabalho científico, nas mais diversas áreas do conhecimento, reservo-me o direito de ser bastante cético com relação ao comportamento extremado de alguns cientistas, que, em função de suas descobertas, Prometeus e Ícaros modernos, imaginam ter ascendido a alturas próprias aos deuses, esquecendo que o anjo decaído, Lúcifer, foi punido justamente em função do pecado da inveja, que é o que parece acometer alguns dos nada humildes cientistas modernos. Esse sentimento de plenipotenciários do conhecimento, é, não há dúvida, ainda um resquício de um fervor racionalista e que herdamos das Luzes da Idade Moderna, que ruiu nas hecatombes dos séculos XX e XXI.

Não há dúvida que foram marcados tentos importantes, por exemplo, com a descoberta da existência e estrutura helicoidal do DNA (humano e dos demais seres vivos), assim como o seu mapeamento no projeto Genoma e nos apressados projetos da iniciativa privada da Celera Genomics e que almejavam, estes últimos, patentear seqüenciamentos genéticos, dilema politicamente resolvido na administração de Bill Clinton. Questões éticas à parte, fiquei maravilhado em saber que a coisa não é tão simples assim, e que há ainda muito a se fazer para entender como funcionam os genes. Fiquei especialmente pasmo ao saber que existem genes ou códigos genéticos responsáveis pela construção do corpo, por exemplo, de uma drosófila, aquela mosca que ronda as frutas e que se tornou uma espécie da escolha para experiências de laboratório e que, se movidos para outros organismos, por exemplo para uma abelha, exercem a mesma função nesta última, ou seja, dá apoio à construção ou formação de uma abelha. Maravilhoso não?

Aos que tanto insistem que há uma programação genética por detrás disso tudo, como se isso respondesse a tudo, pergunto: se há uma programação, quem é o programador?

Roberto Procopio

    


abr 16 2009

A origem da Religião

Se atualmente nos definimos como tementes a Deus, agnósticos ou ateus, com praticamente nenhum resquício da existência ou prática disseminada de religiões animistas e politeístas entre os povos civilizados do Ocidente, nossos antepassados remotos, que faziam de cavernas suas casas, viviam a maior parte de suas frágeis vidas de, no máximo, 25 anos de idade no temor de manifestações naturais, as quais não conseguiam explicar ou entender, tais como relâmpagos, inundações, ruídos nas florestas, etc., sem, contudo, conseguir ainda idealizar uma relação com o divino ou sobre natural, que ainda não existia como conceito ou idéia em suas mentes. Se vivemos nosso período civilizado (de civitas, cidade em Latim) há não mais do que nove ou dez mil anos (as primeiras casas de barro foram construídas há 8.000 anos em Jericó), passamos o restante dos anteriores, aproximadamente, 140 mil anos de nossa existência como espécie homo sapiens sapiens (sic!) no assim chamado modo de vida social caçador coletor, que é o modo de vida no qual os portugueses encontraram nossos silvícolas quando descobriam o Brasil e que, praticando uma agricultura rudimentar, mas basicamente vivendo da caça e pesca, deslocando-se sempre que necessário, encontravam-se no estágio animista da religião, assim atribuindo alma (anima em Latim) às coisas em volta: se um arbusto mexe, é que há uma entidade viva dentro dele; se um rio flui, idem; se um raio cai, a mesma coisa. É interessante notar que vários idiomas nórdicos e germânicos dão ao deus supremo o nome de Thor, o mesmo nome do relâmpago, o que mostra a idéia de que o raio era um castigo divino pelas culpas terrestres, tudo isso já num estágio politeísta pagão e imediatamente posterior ao animismo mais primitivo.Boa parte deste estágio inicial animista, se é que assim podemos chamar, já que chamar de estágio pressupõe a idéia de um progresso na escalada humana quanto a este quesito, foi de um primitivismo ainda sem a consciência de um poder sobrenatural, seguido por um primitivismo animista e que atribuía vida (alma dando vida, e esta é a origem e o significado da palavra alma, como em Alma Mater, mãe nutridora.) às coisas. Não é preciso dizer que ainda neste estágio não havia o desenvolvimento da linguagem escrita, que era ainda apenas falada.

O Positivismo de Augusto Comte, um dos fundadores da Sociologia no século XIX, imbuído do espírito racional e da valorização da realidade sensível e palpável que animava todos os ramos da Ciência, e bem dentro da idéia de que um dia a Razão solaparia completamente a Religião nas mentes dos homens - e, é claro, ele não estava sozinho ao pensar assim - atribuía uma determinada evolução na percepção humana da realidade circundante, que, de religiosa e supersticiosa inicialmente, passaria a científica e não religiosa, sendo o Positivismo uma tentativa temporariamente bem sucedida, mas finalmente frustrada, de se impor como uma religião racional, com influências as mais difusas possíveis, hoje desaparecidas. Deixou, no entanto, em paralelo às idéias do alemão Karl Marx em seus estágios econômicos de desenvolvimento dialético ao qual corresponderiam sucessivos estágios da compreensão do mundo natural, finalmente precipitando, com o comunismo a redenção do Homem da Religião (“ópio do povo”, segundo Marx), também a idéia de se estar, com o uso da Razão, instaurando a sociedade humana ideal, uma chegada ao fim da História, já que tudo seria explicado e entendido, alguma coisa também recentemente aventada por Francis Fukuyama, que, nos calcanhares de Hegel, que já havia aludido à idéia, brincou (e se arrependeu posteriormente) com a idéia. O entendimento, ainda então bastante forte, de que haveria estágios sucessivos na percepção e ação humana com relação ao mundo natural e aos seus fenômenos, que, de religiosa, passou a científica, já que os fenômenos naturais que, originalmente, eram tidos como manifestações das coisas ao nosso redor, sejam do reino animal, vegetal ou mineral, passariam a ser paulatinamente explicados e incorporados ao conhecimento humano científico, que culminaria por explicar completamente o mundo natural, sofre, contudo um forte baque ao se apresentar, a partir de Freud, a força de uma instancia até então pouco conhecida e discutida, a força instintiva e irracional do Homem, seu Id, o que remetia ao lado animal do humano, que, não há como negar, faz parte, com os bonobos, chimpanzés, orangotangos e gorilas, da família dos primatas, tendo sua deriva de um tronco comum (com os chimpanzés e os bonobos) ocorrido há cinco milhões de anos, segundo os neodarwinistas.   

O desenvolvimento das Ciências Físicas, Químicas e Biológicas, a partir da Idade Moderna, que se deu em 1492 com o descobrimento da América, e que é bem representado na equiparação, por Renée Descartes, em seu Discurso sobre o Método, dos animais à máquinas, é nada mais do que a tentativa antiga do Homem de se apoderar da tocha do conhecimento científico, roubando à Religião seu espaço antigo e medieval de domínio sobre corpos e mentes.  Os esforços de Ícaro e de Prometeu bem mostram isso.  A descoberta no século XVII por Copérnico  de que a Terra não era o centro do Universo e, posteriormente, a revelação por Charles Darwin de que o Homem descendia dos macacos (primatas) jogou, definitivamente, uma pá de cal na possibilidade de qualquer entendimento entre os foros científico e religioso, tentativa que o paleontólogo francês Teilhard de Chardin intentou, sem sucesso, realizar na metade do século XX. A revelação no início do século XX , por Hubble, de um Universo que não se restringia à nossa Via Láctea, juntou humilhação à vergonha humana de se pretender único e centro do Universo, embora, hoje, a teologia do Vaticano se esforce, principalmente a partir dos escritos de Joseph Ratzinger, a demonstrar a humildade da criação ao nos colocar num canto sem importância do Universo.  A vingança religiosa veio como uma tapa com luva de pelica, quando o principal concorrente de Darwin na idéia da evolução natural, Alfred Russell Wallace, se tornou espiritualista (espírita) desconcertando o meio científico como um anjo caído do pedestal da ciência.   

Pode-se, contudo e, grosso modo, definir os estágios religiosos como animistas como tendo iniciado há 40 mil anos, que são próprios aos povos primitivos e que atribuem força e energia divina à natureza e seus seres e coisas, sem ainda conseguir extrair nada além, tentando apaziguar estas forças de um modo ainda bastante infantil e não ordenado, sem o assentamento ainda de uma cultura estabelecida. Os primeiros traços humanos pictóricos nas cavernas européias, mostrando animais como touros e cavalos, podem significar uma tentativa de domínio e inicio de uma religião humana e cultura, já que, a partir daí , animais passaram a ser usados como sacrifícios de sangue, principalmente os animais de tração e alimentação, como bois, cabras, ovelhas, etc. Para Freud, isso significa a expiação humana pela morte grupal do pai realizada pelos filhos e  que está no inconsciente de todos nós, alguma coisa bem retratada na crucificação de Cristo, o Cordeiro de Deus, que substituiu a todos os humanos num sacrifício ritual. Em seguida, e em função do que anteriormente dissemos, e isso é bastante explícito na noção panteísta grega e romana, os deuses que animam a vida na Terra adquirem nomes e poderes diferenciados, numa hierarquia terrestre e celeste, embora ainda a característica mais conspícua dessa situação seja a de uma forte interferência e interação entre o panteão de deuses pagãos (Zeus, Eros, Vulcano, Minerva, etc.) e os homens. Odes aos povos grego e romano, como a Odisséia e a Ilíada e a Eneida, assim como a própria ode de Camões ao povo luso, Os Lusíadas, mostram bem o nível de interferência e mesmo intromissão dos deuses pagãos gregos e romanos no dia-a-dia dos mortais, conferindo mesmo, a uns e outros semi-deuses, filhos de conjunção carnal entre deuses pagãos e humanos, por exemplo a Hércules, o dom da imortalidade. Se o estágio inicial da religião era animista, no seu estágio seguinte passou a ser politeísta, ainda confundindo muito manifestações naturais e deuses locais, como deuses do parto, deuses de determinados rios, ventos, etc., em paralelo aos deuses mais poderosos habitantes do céu. Este estágio coincide ou se forma com a fundação das primeiras cidades em vários pontos diferentes do planeta, mas tem origem, principalmente, em rituais camponeses, que até hoje se incorporam às tradições ocidentais (Carnaval, Festas Juninas, etc.) sendo para nós ocidentais, o Vale do Nilo e a Mesopotâmia os mais importantes, já que deram origem à tradição religiosa ocidental, que, se de matriz cultural grega, é judaico-cristã nos seu aspecto religioso, havendo, é claro, uma imbricação muito grande entre Grécia e Oriente, como suspeitavam Platão e Heródoto.   

Ao politeísmo pagão grego, romano e egípcio, adoração a vários deuses maiores e menores, longínquos e locais, também presente no Egito dos Faraós e em praticamente todas as religiões que haviam deixado o estágio animista de caçador coletor, tornando-se pagãs, bastando lembrar os esforços de Akhenaton para fazer de Rá o Deus único, alguma coisa que não escapou a percepção de Freud, sucedeu-se, com Abrão e Moisés, a consagração a um só Deus, Javé, registro primeiro de uma religião monoteísta, ou seja, que venera e aceita um só Deus, finalmente adotada no século IV DC como religião oficial do império romano do Ocidente e, posteriormente, no século V DC, no Império Romano do Oriente, em Constantinopla. Assim, ao politeísmo egípcio e grego, através da tradição judaico cristã, sucedeu o monoteísmo fundado por Abraão, e do qual se originaram as religiões hebraica (a partir de Sara) e muçulmana (a partir de Agar, a segunda mulher de Abraão). 

As provas de fogo do monoteísmo hebreu, além do episódio da adoração ao bezerro de ouro, foram a cisão representada por Jesus Cristo, não reconhecido como o Messias, assim como vários outros judeus que posteriormente apareceram e não se confirmaram aos judeus como o Salvador. Para o catolicismo (“para todos” em grego, e em contraposição à idéia do judaísmo de uma religião para um povo escolhido e diferente dos demais), o desafio maior partiu das, assim chamadas, heresias, que discutiam a pessoalidade da trindade divina e a origem de cada uma delas, bem como a Trindade cristã, sendo a pelagiana, a ariana e a monofisista as principais heresias aos dogmas cristãos, combatidas e derrotadas por Santo Agostinho em Concílios. Sempre perigoso, o maniqueísmo, de origem remota persa e que questionava o poder da divindade ao propor a origem simultânea do bem e do mal, só foi realmente debelado no século XIII DC.

A reforma protestante, adiada para o início do século XVI pelos esforços ingentes de São Tomás de Aquino e demais escolásticos, representou golpe duro na solidez e hegemonia católica, ao propor, através de Lutero e Calvino, principalmente, a idéia da superfluidade da instituição e intermediação da Igreja, já que, nas palavras de Lutero, onde houvesse uma  Bíblia haveria uma igreja, ou seja, a Palavra divina, ou Logos, poderia ser interpretada pelos fiéis sem a necessidade da interferência do clero religioso, ressalvada a importância enorme do pensamento de Agostinho no pensamento dos dois luminares do protestantismos, principalmente através da doutrina da graça, do livre-arbítrio e do mérito da lavra de Agostinho. De grande auxílio a Lutero e aos seus ideais foi o surgimento da prensa de Gutenberg, o que permitiu a produção de centenas de milhares das chamadas bíblias de Lutero, em alemão e não mais em latim, escapando à Igreja o domínio da interpretação. A venda da bíblia de Lutero se deu às centenas de milhares de exemplares. Análises sobre causalidade e determinismo, já presentes em todas as obras dos estudiosos da época, continuaram a solicitar as melhores mentes e ainda se incorporaram à dificuldade apresentada pela não formulação por Einstein da teoria do campo unificado, que tentaria conciliar o determinismo da física dos eventos macros, com a probabilidade da Física Quântica de Niels Bohr. Ao que se aponta, o calcanhar de Aquiles da doutrina católica e protestante reside na análise da onisciência divina frente ao livre-arbítrio humano: se Deus sabe que alguém vai errar, por que não o demove do erro?

À doutrina de um Deus único e presidindo aos atos humanos, que é a essência da doutrina monoteísta cristã e hebraica, que a tradição maometana incorporou, a formulação panteísta de Baruch Spinoza, pensador banido do judaísmo, mas extremamente admirado por inúmeros cientistas modernos (Einstein e Russel, entre os mais eminentes), contrapôs a idéia de uma força inteligente, responsável por todas as leis e acontecimentos naturais, mas impessoal.

Nas religiões orientais como o hinduísmo e o budismo, desenvolveu-se a idéia de que o Todo está em tudo e que a vida terrestre não passa de uma vida de ilusão do Véu de Maia (ilusão em sânscrito), já que tudo faz parte de uma realidade única e inalterável e que, para escapar a roda do eterno retorno, formulação que Nietzsche incorporou à sua doutrina, assim como Schopenhauer, é apenas necessário que, entre encarnações, tenhamos consciência disto. Assim como ocorreu, tardiamente e de forma fraca no Ocidente, com o positivismo, o Oriente, principalmente China e Japão, adotaram “religiões civis”, como as prescritas pelas práticas de Confúcio, e que serviram para estabilizar socialmente contingentes enormes de pessoas vivendo em sociedades estáveis e hierarquizadas, alguma coisa até hoje lá preservada.

Do ponto de vista de vida após a morte, e do espectro de um Céu ou um Inferno nos aguardando, bem como da série de manifestações divinas na vida terrestre (dilúvio, Sodoma e Gomorra, a paternogênese, que é o nascimento a partir de uma virgem, etc.) há uma identidade muito grande entre todas as religiões, provavelmente, decorrentes de um inconsciente coletivo (Jung), que responde por nossas formulações irracionais e primitivas, inconscientes e que se manifestam em ações que a psicanálise tenta explicar. O livro sagrado dos Mayas, o Popol Vuh, é repleto de situações de similitude com as demais religiões.

Assim, para finalizar um tema tão árido, e, é claro, deixando uma série de buracos, podemos dizer que, se o Ocidente é dividido entre as religiões e denominações cristãs (católica apostólica romana, católica ortodoxa (árabe, russa, grega, etc.) e as diversas denominações protestante), praticamente não sobrando qualquer resquício das religiões animistas dos aborígenes, bem como pela muçulmana, que se espalhou como brasa dentre os povos africanos e do médio oriente a partir do surgimento do profeta Maomé, o Oriente é de orientação budista e confuciana, bem como taoista, com algum espaço preservado a religiões levadas pelos indo-europeus à Índia e configurada no sistema de castas do Bramanismo.


abr 15 2009

Declínio e queda

Por mais que seja tentado a fazer uma associação entre a ausência de valores, como marca principal da sociedade ocidental moderna, e uma sua possível queda, penso que este tipo de ligação é um pouco forçado. Explico-me.

Não podemos esquecer que muitas sociedades ascendentes, ou em seu apogeu, praticaram atos que hoje certamente seriam entendidos como de dissolução dos costumes, mas que de forma alguma representaram um enfraquecimento destas sociedades. Assim, em Esparta e na Fenícia se sacrificavam os recém nascidos deficientes, assim como em Roma, o pai, exercendo o seu pátrio poder, poderia rejeitar, abandonando ou vendendo, um filho seu recém nascido. Na Inglaterra ascendente do século XIX, a escravidão demorou a ser abolida, o mesmo ocorrendo nos Estados Unidos em formação, sendo a discriminação racial a tônica do período posterior à Segunda Guerra Mundial, com o caráter de lei em alguns estados americanos. Quanto à pena de morte, ainda é presente em boa parte dos Estados civilizados. Parece-me que sempre julgamos as épocas passadas com os olhos de hoje, o que torna difícil qualquer associação entre de declínio de valores e apogeu de uma sociedade. Temos a mesma dificuldade em admitir comportamentos animais que nos parecem estranhos ou inaceitáveis, mas que obedecem regras de funcionamento e organização da Natureza.

Penso que podemos, contudo, apontar para o surgimento já há uns dez anos, em todas as civilizações mundiais que se moldaram atrás de valores da democracia liberal, mesmo que adaptados às suas conveniências políticas, de um sentimento de desconfiança de que o Ocidente, formulador no século XIX dos princípios desta sociedade liberal, já não pode apontar o caminho para ninguém, já que perdeu todos os valores com os quais apontava ao resto do mundo, um caminho de progresso contínuo e bem-estar a todos e que, comungados aos seus valores mais íntimos, mostrariam o caminho “da procura pela felicidade”, na bela expressão de Thomas Jefferson, incorporada ao mito da criação dos Estados Unidos.

Roberto Procopio     


abr 14 2009

Gênio e ingênuo.

Robert Oppenheimer ficou conhecido como o pai da bomba atômica, já que foi responsável pela direção do trabalho técnico-científico na cidade americana de Los Alamos, no Novo México, e que culminou na produção das duas bombas que foram lançadas em 1945 sobre o Japão. Embora não tivesse o gênio criativo de um Albert Einstein ou de Niels Bohr, os dois principais físicos do século XX, Oppenheimer conseguia despertar nas pessoas o poder criativo de cada uma delas, sendo dono de uma personalidade irradiante, que, justamente em função disso, arregimentou muitos amigos e muitos inimigos.

Foi constantemente perseguido pelos serviços de segurança americanos (FBI) até ter cassada sua licença de acesso às informações sigilosas sobre o desenvolvimento de armas nucleares. Não mostrou, todavia, a blindagem necessária para enfrentar os inquéritos armados contra ele em função de sua antiga simpatia pelo comunismo stalinista, que recantou, mas da qual jamais conseguiu se dissociar. Sua esposa Kitty, também ex-simpatizante da URSS, ajudou a compor um quadro de um casal comunista num Estados Unidos acossado pelo terror persecutório da época do pós-guerra,  conhecido como mccarthismo. Nos inquéritos, sempre conduzidos de modo ambíguo e confiando na boa fé dos depoentes, Robert se mostrou como extremamente ingênuo, emitindo julgamentos e pareceres que extrapolavam a sua área de ação e que, finalmente, acabaram por entregar aos órgãos públicos de segurança os nomes dos amigos que tinham afiliação ao comunismo.

Parece que o que sobrava de genialidade de um lado faltava de outro e o próprio cientista reconheceu que não conseguia explicar racionalmente a sua atitude frente aos inquisidores, agindo irracionalmente e com os nervos à flor da pele. O gênio era ingênuo.

Roberto procopio